terça-feira, 9 de julho de 2019

Drogas X Meditação: a polêmica

Por Paulo Stekel



AVISO: ESTE ARTIGO TEM PROPÓSITO INFORMATIVO E EDUCACIONAL.
NÃO INCENTIVAMOS, RECOMENDAMOS OU GLORIFICAMOS O USO DE SUBSTÂNCIAS PSICODÉLICAS OU QUALQUER TIPO DE DROGA. ALÉM DE SEREM PROIBIDAS E ILEGAIS EM DIVERSOS PAÍSES, O USO DE SUBSTÂNCIAS PSICOATIVAS PODE DESENCADEAR SURTOS PSICÓTICOS, ESQUIZOFRENIA E OUTROS DISTÚRBIOS MENTAIS COM CONSEQUÊNCIAS IMPREVISÍVEIS E IRREVERSÍVEIS. AS PESSOAS, BEM COMO SUAS OPINIÕES E RELATOS APRESENTADOS NO VÍDEO "DMT - Experimentando o Impossível", QUE INTEGRA ESTE ARTIGO, NÃO CORRESPONDEM DIRETAMENTE ÀS OPINIÕES E VALORES QUE COMPARTILHAMOS. NÃO USE DROGAS!




A polêmica sobre o uso de drogas e enteógenos (como DMT, ayahuasca, etc) e sua associação com meditação e técnicas não duais. O objetivo deste artigo não é ser conclusivo, mas ser um texto introdutório, visando contribuir para um debate mais focado em informações e esclarecimentos que em paixões de ambos os lados.

A polêmica do uso de drogas e, em especial, os chamados “enteógenos” em processos espirituais e até meditativos, parece crescer a cada dia. Exatamente por isso, resolvemos escrever este artigo, para contribuir de alguma forma no sentido da elucidação da questão, que parece muito longe de um final.

Comecemos definindo “drogas”, “alucinógenos” ou “psicodélicos” e “enteógenos”.

Drogas

Conforme o https://www.google.com/search?q=Dicion%C3%A1rio (Dicionário do Google) e o https://www.dicio.com.br/droga/ (Dicionário Online de Português) e https://pt.wikipedia.org/wiki/Droga (Wikipedia), que qualquer pessoa pode acessar, “droga” pode ser (incluímos apenas as definições necessárias para o escopo deste artigo):

(1) qualquer substância ou ingrediente usado em farmácia, tinturaria, laboratórios químicos etc. Ex: "drogas farmacêuticas".

(2) qualquer produto alucinógeno (ácido lisérgico, heroína etc.) que leve à dependência química e, por extensão, qualquer substância ou produto tóxico (fumo, álcool etc.) de uso excessivo; entorpecente.

Substância que causa alucinações (morfina, cocaína etc.) e pode levar à dependência física ou psicológica; narcótico, entorpecente: tráfico de drogas.

Origem ETIM. fr. drogue 'ingrediente de tintura ou de substância química e farmacêutica, remédio, produto farmacêutico'.

Alucinógenos e Psicodélicos

Conforme https://pt.wikipedia.org/wiki/Droga_alucin%C3%B3gena, “o alucinógeno, droga psicodélica, droga alucinógena ou droga alucinogênica é, literalmente, uma substância capaz de provocar alucinações. A classificação mais consensualmente aceita para tal classe de substâncias psicoativas foi proposta por Jean Delay, que as classifica como dislépticas (modificadoras), em oposição às analépticas (estimulantes) e lépticas (depressores). São considerados efeitos específicos dessa classe de substâncias alterar os sentidos, a percepção, a concentração, os pensamentos e a consciência.

O inventário de plantas (e elementos ativos) com propriedades alucinógenas proposto por Hofmann (apud Fontana) inclui:

Lophophora williamsii (mescalina), da América do Norte e Central;
Rivea corymbosa (Ergina), do México e América Central);
Amanita muscaria (Muscimol, ácido ibotênico), da Europa, Irã e Ásia;
Psilocybe mexicana (Psilocina, Psilocibina), do México e América do Norte e Central;
Psilocybe cubensis (Psilocina, Psilocibina), das Américas;
Peganum harmala (harmina), da Ásia e América do Sul;
Banisteria caapi (Harmina, Harmalina), da Amazônia: componente da ayahuasca sul-americana;
Piptadenia peregrina (Anadenanthera peregrina e Anadenanthera colubrina (Dimetiltriptamina), do Rio Orinoco, na América do Sul.

Esta lista originalmente incluía a Cannabis sativa (haxixe) da Ásia: contudo, existe grande controvérsia sobre tal classificação, assim como também é controversa a inclusão da muscarina – substância derivada do cogumelo Amanita muscaria.

Quanto à ampliação dessa classificação, nesse grupo deve-se acrescentar um conjunto de outras plantas que contêm a N,N-Dimetiltriptamina, a saber: Psychotria viridis (Chacrona, Chacruna), utilizada em combinação com a B. caapi por diversos grupos indígenas da Amazônia; a Virola calophylla (V. theidora, V. rufula, V. colophylla); o Epena, também da Amazônia; a Jurema (Mimosa hostilis ou M. nigra), do nordeste brasileiro; sapos do gênero Bufos (Bufo alvarius; Bufo marinus ou Cururu) que contenham a bufotenina em suas secreções: a bufotenina corresponde a uma variação molecular da dimetiltriptamina. (…)

As drogas alucinógenas, como referido, são assim chamadas por um de seus possíveis e mais relatados efeitos, que é a propriedade de causar alucinações (falsas percepções) e visões irreais ou oníricas aos seus utilizadores. Outros nomes propostos também estão associados a efeitos atribuídos e relatados, tais como: Psicotomiméticos e Psicotogênicos, por induzir efeitos semelhantes à psicose (mais especificamente as alucinoses e alucinações); Psicodélicos, por sua propriedade de fazer aparecer ou revelar a psique oculta; Enteógenos pelo reconhecimento antropológico de que tal classe de substâncias é frequentemente utilizado nas mais diversas culturas em rituais religiosos.”

Enteógenos

Conforme https://pt.wikipedia.org/wiki/Ente%C3%B3geno: “Enteógeno (também chamado enteogênico (português brasileiro) ou enteogénico (português europeu)) é uma substância alteradora da consciência que induz ao estado xamânico ou de êxtase. É um neologismo que vem do grego, tendo sido proposto em 1973 por investigadores, dentre os quais se pode citar Gordon Wasson (1898-1986). Segundo Roberts, foi incluído no Dicionário Oxford de Inglês na lista de novas palavras desde setembro de 2007, significando uma substância química, normalmente de origem vegetal, que é ingerida para produzir um estado de consciência não ordinária para fins religiosos ou espirituais.

A palavra "enteógeno", que significa, literalmente, "manifestação interior do divino", deriva duma palavra grega obsoleta da mesma raiz da palavra "entusiasmo", e se refere à comunhão religiosa sob efeito de substâncias visionárias, ataques de profecia e paixão erótica. Este termo foi proposto como uma forma elegante de nomear estas substâncias, sem tachar pejorativamente costumes de outras culturas.

O uso de plantas (ou fungos) para alteração da consciência e percepção é uma realidade mundial e milenar. Até mesmo animais usam plantas com atividade psicotrópica, como é o caso de javalis e primatas que cavam para conseguir as raízes do poderoso Tabernanthe iboga. Substâncias atuais do nosso cotidiano, como vinho e tabaco, eram, originalmente, ligadas a cultos religiosos. Os sacerdotes védicos da Antiga Índia utilizavam o soma, uma bebida alucinógena, para entrar em contato com o Reino Celestial. Os druidas, sacerdotes celtas, tomavam uma poção que lhes dava força e coragem. O rei Salomão tinha conhecimento de enteógenos. A partir dos anos 1960, os livros de Carlos Castaneda popularizaram o uso de enteógenos. Entre as plantas, alguns dos enteógenos mais conhecidos são ayahuasca, jurema, Cannabis, Yopo, Peiote e Ololiuqui. Entre os fungos, Psilocybe e Amanita.

Quando são plantas, os enteógenos também são chamados de plantas mestres, plantas professoras, plantas de conhecimento, plantas de poder e plantas sagradas. Ver uma lista mais completa de enteógenos: https://pt.wikipedia.org/wiki/Lista_de_ente%C3%B3genos

Efeitos da DMT (dimetiltriptamina)

Conforme https://pt.wikipedia.org/wiki/Dimetiltriptamina, “a dimetiltriptamina (N,N-dimetiltriptamina, onde: N,N-dimetil-1H-indolo-3-etanamina), cuja abreviatura é DMT, é uma substância psicodélica (grupo de agentes químicos também denominados como psicodislépticos), termo proposto por J. Delay (traduzido como modificadores ou perturbadores do sistema nervoso central) pertencente ao grupo das triptaminas, semelhante à serotonina e/ou à melatonina como sugerem alguns estudos, em especial, do Dr. Rick Strassman na Universidade do Novo México, em 1990.

É encontrada in natura em vários gêneros de plantas (Acacia, Mimosa, Anadenanthera, Chrysanthemum, Psychotria, Desmanthus, Pilocarpus, Virola, Prestonia, Diplopterys, Arundo, Phalaris, dentre outros), em alguns animais (Bufo alvarius possui 5-Meo-DMT, um alcalóide bastante parecido em estrutura e em propriedades químicas) e também produzida pelo corpo humano.

É o princípio ativo da mistura da ayahuasca, utilizada nos rituais do Santo Daime e do vinho de Jurema e é bem conhecida por índios brasileiros e da América do Sul em geral. Sua propriedade psicodélica tem efeito curto e intenso quando fumada em forma de base livre. Na mistura da ayahuasca e, talvez, de algumas formas de preparação da jurema, onde a concentração do elemento ativo é relativamente bem menor que forma de extrato de DMT, seu efeito é menos intenso e mais duradouro e torna-se ativo oralmente por conta de um IMAO (inibidor da monoaminoxidase) que também pode ser encontrado in natura em diversas plantas.(Banisteriopsis, Peganum).

O DMT é sintetizado pelo corpo humano. Não existem ainda respostas conclusivas sobre as funções deste DMT interno, tão pouco sobre o órgão responsável por esta produção - função especuladamente dada à epífise neural, conhecida como glândula pineal, mas há, no meio científico, uma série de apontamentos e teorias. Sabe-se que as quantidades de DMT produzidas no cérebro são reguladas pela MAO (monoaminoxidase) e este processo é coadjuvante nos estados alterados de percepção e consciência criados pelo consumo (oral, intravenal ou por vias aéreas) de DMT externo.

A polêmica

Pois bem, após toda esta introdução conceitual, para facilitar a compreensão de termos comuns, mas geralmente pouco entendidos, vamos ao cerne da questão.

Alguns praticantes de meditação – tanto a gradual quanto a súbita ou não dual – propõem que o uso de certas substâncias como o DMT, por pessoas que praticam meditação, pode favorecer o acesso a níveis mais elevados de consciência. Dizem isso, pela semelhança dos efeitos do uso de DMT (e drogas semelhantes) como descritos por usuários, com os efeitos de certos tipos de meditação. Esquecem, contudo, dos possíveis riscos do uso de certas substâncias por pessoas com tendência a sofrimentos psíquicos como depressão, psicoses, e doenças como esquizofrenia, parafrenia, Transtorno Maníaco Depressivo (Bipolaridade), etc.

Parece ponto pacífico, pelo menos, que o uso de DMT e outras substâncias, não conduz à iluminação, mas alguns pensam que podem conduzir a estados mais elevados de consciência do tipo “iluminação menor”, como numa escada. Mesmo isso é contestado pelos mestres não duais do Advaita Vedanta e mesmo do Budismo.

Mas, para vocês terem uma noção dos efeitos do uso do DMT, por exemplo, sugerimos agora que assistam o vídeo abaixo, e depois retornem à leitura deste artigo (legendado em Português):


A descrição do vídeo em questão traz o seguinte parágrafo: “Existe uma grande discussão em torno dos psicodélicos, questionando se as ‘trips’ são alucinações ou outros planos de existência acessados através da Dimetiltriptamina. Um dos ganchos dos que defendem a segunda opção, são as similaridades absurdas entre os relatos.”

A questão pode ser dividida em várias perguntas:

1) As viagens com psicodélicos/enteógenos são alucinações ou não?
2) Se não são alucinações, são o que? São outros planos de existência ou apenas aspectos profundos da mente-corpo?

3) Se são aspectos profundos da mente-corpo (o complexo DEVE incluir ambos em uma pessoa viva!), tais substâncias podem conduzir a um estado mais elevado e, quiçá, até um Despertar Completo ou uma espécie de “iluminação”?

4) Se tais substâncias levam à percepção de outros planos de existência, são dimensões ou universos paralelos ou apenas aspectos dentro do continuum mental?

5) Em nível não dual último, estas substâncias realmente levam a algo novo e relevante ou apenas exacerbam a noção de eu identitário, autorreferente e ilusório, além de, possivelmente, potencializar tendências de dissociação extrema, como esquizofrenia, etc?

Responder a estas questões é importante para uma abordagem segura do uso destas substâncias do ponto de vista espiritual. Porém, para que sejam devidamente respondidas, é necessário o conhecimento advindo de várias formas de entendimento, como aquelas fornecidas pela psicologia, neuropsicologia, psiquiatria, farmacologia, neurociências, ciência contemplativa (meditação), filosofia e as tradições espirituais contemplativas. Ninguém pode pretender ter o conhecimento definitivo e completo de um assunto tão complexo e que divide opiniões de modo tão acirrado.

Exatamente por isso, os argumentos que usaremos em seguida apenas sugerem reflexões sobre o tema, sem a pretensão de ser conclusivos.

Estados de Consciência e os Psicodélicos

As experiências com DMT parecem estar muito próximas das descrições do bardo como descritos no Budismo Vajrayana e das descrições da física quântica sobre a realidade, como se pôde perceber no vídeo que sugerimos um pouco acima. Tais semelhanças não só são incríveis, como devem ser uma chave de compreensão que merece ser analisada. Ela envolve a percepção neural e, no caso do bardo, talvez envolva aspectos da mente que não dependem de neurônios.

Do ponto de vista não dual, as experiências com DMT ou outras substâncias semelhantes são ambas as coisas: experiências neurais e expressão energética do espaço. Não se pode negar os neurônios, suas sinapses, a interferência de substâncias psicoativas sobre os neurônios e a chuva neural que ocorre. A mente se expressa TAMBÉM pela chuva neuronal, mas a mente não é APENAS isso. Quando se morre, os neurônios se dissolvem, pois o corpo morre. Mas, a mente subsiste como um fluxo, um continuum, e é este continuum que é acessado em ALGUM grau por quem usa certas drogas, como DMT. Mas, num nível mais profundo de não-dualidade, é possível acessar a fonte do continuum que independe de um corpo e, portanto, não é um eu autorreferente. DMT mexe em todos os "botões" do complexo neural e o bagunça, de certa forma. Mexe com uma aparelhagem que não se conhece direito e causa muitos efeitos que misturam alucinação com percepção não dual legítima. Os “seres” encontrados sob efeito de DMT, descritos no vídeo, provavelmente são aspectos não duais do eu autorreferente, ou melhor, o aspecto não autorreferente do eu. O aspecto autorreferente é o “eu psicológico”; o não referente é a mente primordial se comunicando com o eu autorreferente.

Neurônios, sinapses, etc, são sim, categorias conceituais, porém baseadas em observação. Não são categorias filosóficas, mas visuais. Não é a mesma coisa. Quando os não dualistas falam da não substancialidade das coisas, do eu, de tudo, o falam em sentido filosófico, não em sentido científico, e é importante fazer esta distinção. Além disso, o não dualismo não nega as coisas como se nos apresentam. Apenas contesta que o que vemos é tudo o que há e que o modo como vemos é o como tudo é.

Na verdade, ao falar em neurônios, sinapses, DMT, drogas, etc, não estamos, necessariamente, reforçando algo inerentemente existente, mas utilizando nossa capacidade mental de relativizar diante do abismo do absoluto que nos circunda. É uma estratégia da mente não dual original, mas é válida para um observador válido, ainda que este observador seja relativo e não absolutamente existente ou inerentemente existente. Temos que aprender a usar os termos não duais não de modo clichê, mas realmente entendendo o que querem dizer epistemologica e ontologicamente aqueles que os utilizaram pela primeira vez. Sem isso, corremos o sério risco de REALMENTE não estarmos falando o mesmo que eles, por não estarmos usando os termos no SENTIDO em que eles os utilizaram. E, como as palavras não podem ser, simplesmentes, jogadas para o alto e, do jeito que caírem, produzir um sentido que nos satisfaça…

Ficam sérias dúvidas sobre se o uso de substâncias que excitam os neurônios nos apresentariam a Totalidade. Talvez não seja isso, mas simplesmente uma forma de alucinação da mente através da excitação neuronal. A ideia de interconexão pode surgir nesta experiência, mas não é a mesma coisa experimentada pelo Dzogchen ou mesmo pela meditação gradual. Quando se medita, se chega num nível em que NATURALMENTE o cérebro faz jorrar o DMT que ele produz e dá as mesmas alucinações, de modo mais controlado. O Buda de certa forma percebeu isso quando colocou como um dos 5 preceitos para leigos o não uso destas substâncias. Ele disse, sabendo do caráter alucinatório das visões em meditação, para que fôssemos adiante, não parando na meditação destas visões. Então, ele entendia que isso era apenas mais uma forma de ilusão da mente, e não uma iluminação. É apenas uma forma de samadhi de baixa qualidade que deve ser transcendido. Mas, chegar ali não pelo DMT naturalmente produzido pelo cérebro (talvez na pineal), mas por uma dose maior vinda de uma substância, é bastante arriscado, porque temos que considerar os riscos médicos envolvidos, especialmente nos casos de pessoas com tendências a transtornos mentais, como esquizofrenia e psicoses.

Para encerrar o que, na verdade, é apenas o início de um debate ocorrendo em muitos lugares, não estamos contestando que o uso de certas substâncias possa ajudar certas pessoas a acessar aspectos profundos de suas mentes. Contudo, o que nos importa mais é a saúde delas, pois não estão claros os limites entre a alucinação e a percepção ampliada, entre a dose certa e a psicotizante, entre a realidade ainda que convencional a que estamos acostumados e uma Realidade Superior, além da razão e eu autorreferente. A única forma de tornar isso tudo claro é mais pesquisa em todas as frentes.


quinta-feira, 4 de julho de 2019

McMindfulness: a perda do sentido filosófico no Mindfulness

Por Morten Tolboll (tradução feita por Paulo Stekel do artigo original https://mortentolboll.blogspot.com/2018/12/mindfulness-and-loss-of-philosophy.html)


Atualmente, a meditação geralmente é associada ao mindfulness [atenção plena], no qual a filosofia, a espiritualidade e a religiosidade tem sido reduzidas a uma psicologia e uma psicoterapia (pense só em como o termo “eticamente neutro” do moderno mindfulness é percebido como algo positivo). Em outras palavras: o mindfulness se converteu no que chamo de uma mitologia da autenticidade.

A psicologia clínica e a psiquiatria, desde a década de 1970, desenvolveram uma série de aplicações terapêuticas baseadas no mindfulness para ajudar às pessoas que experimentam uma variedade de condições psicológicas. A prática do mindfulness é empregada para reduzir os sintomas da depressão, para reduzir o estresse, a ansiedade e a adicção a drogas.

Tem sido adotados programas baseados no de Kabat-Zinn [o proponente do moderno mindfulness], e modelos similares, em escolas, prisões, hospitais, centros de veteranos e outros lugares, e estão sendo aplicados programas de mindfulness para se obter resultados adicionais, como o envelhecimento saudável, o controle de peso, o rendimento esportivo, a ajuda às crianças com necessidades especiais e como intervenção durante o período pré-natal.

A revolução do mindfulness parece oferecer uma panaceia universal para resolver quase todas as áreas de preocupação cotidiana. Os livros recentes sobre o tema incluem: criança consciente, alimentação consciente, educação consciente, política consciente, terapia consciente, liderança consciente, uma nação consciente, recuperação consciente, o poder da aprendizagem consciente, o cérebro consciente, o caminho consciente através da depressão, o caminho consciente para a autocompaixão. O que os cientistas chamam de aplicações “éticamente neutras” são, com frequência, técnicas subjetivas, sofisticadas e, em absoluto, neutras.

Vários estudiosos criticam a maneira como se está definindo ou representando o mindfulness nas publicações recentes de psicologia ocidental. Estas formas modernas de compreender o mindfulness se afastam significativamente do que se encontra nos primeiros textos budistas e nos comentários autorizados das tradições Theravada e Mahayana.

A popularização do mindfulness como “mercadoria” (commodity) está sendo criticada, e alguns críticos a chamam de “McMindfulness”. Segundo Jeremy Safran, a popularidade do mindfulness é o resultado de uma estratégia de marketing:

McMindfulness é a comercialização de um sonho construído, um estilo de vida idealizado, uma mudança de identidade”.

Segundo Purser e Loy, o mindfulness não está sendo utilizado como meio para despertar a compreensão das “raízes doentias do apego, da raiva e da ignorância”, mas está se transformando em uma “técnica banal, terapêutica e de autoajuda” que tem o efeito contrário: o reforço destas atitudes doentias. Ainda que o mindfulness esteja sendo comercializando como um meio para reduzir o estresse, no contexto budista forma parte de um programa ético ao qual se integra com o propósito de fomentar la “ação correta, a harmonia social e a compaixão”. A privatização do mindfulness não leva em conta as causas sociais e organizacionais do estresse e do mal-estar, mas, pelo contrário, promove a adaptação a tais circunstâncias.

Segundo Bhikkhu Bodhi, “sem uma crítica social aguda, as práticas budistas poderiam ser usadas facilmente para justificar e estabilizar o status quo, convertendo-se em um reforço do capitalismo consumista”. A popularidade da nova marca mindfulness está mercantilizando a meditação através de livros de autoajuda, aulas de meditação guiada e retiros de mindfulness.

Os mestres budistas criticam que este movimento se apresente como equivalente à prática budista, quando na realidade supõe uma desnaturalização do budismo com consequências indesejáveis, como não fundamentar-se na moral reflexiva tradicional e, portanto, afastar-se da ética budista tradicional. As críticas denunciam tanto esta amoralização como a remoralização segundo uma ética clínica. O conflito se apresenta mais com relação às credenciais e qualificações do mestre, que com relação à prática real do estudante. As práticas influenciadas por um budismo reformado estão se tornando padronizadas e baseadas em manuais, separando-se claramente do budismo que é percebido como uma religião confinada aos monastérios, e se expressa nos centros de meditação modernos como um mindfulness baseado em uma nova ética psicológica.

No contexto tradicional, a filosofia é uma parte central do mindfulness. Há, especialmente, dois aspectos que o indicam: a indagação e o discernimento.

1) A indagação (pali: vichara)

Os grandes mestres praticaram a indagação filosófica, isto é, não uma mera investigação intelectual como na filosofia acadêmica, e tampouco no sentido de repetir um mantra, não. Sua indagação filosófica constitui um caminho meditativo-existencial, como o praticado no silêncio sem palavras dentro de uma poderosa indagação existencial. Como disse Platão: “a filosofia começa com a indagação. Provavelmente conheças o assombro que se sente quando miras as estrelas ou quando enfrentas o sofrimento do mundo. Este assombro te enche com um silêncio no qual todos os pensamentos, explicações e interpretações desaparecem num instante. É neste silêncio em que alguém se faz as grandes perguntas filosóficas, abertas para dentro e para fora, escutando e observando, sem palavras, sem avaliações”.

Contudo, a maioria das pessoas perde este silêncio à medida que crescem e se satisfazem com explicações e interpretações. E, essa é a diferença entre os grandes mestres e as pessoas comuns. Os grandes mestres tinham um forte desejo de algo não exprimível, de algo que não se pode satisfazer com explicações e interpretações, talvez um anseio de despertar ou de realização. Com todo o corpo, com vida e sangue, com a alma e o espírito, com o cérebro e o coração, indagaram pela vida afora e indagaram a si mesmos. Indagaram tudo e o fizeram de modo meditativo, como se tudo fosse algo completamente novo. Devido a que este questionamento e indagação filosóficos constitui uma técnica de meditação central, a consciência se abre à Fonte. Em outras palavras, utilizaram questões filosóficas como koans universais. Todas as demais práticas espirituais só foram usadas para apoiar esta indagação.

2) Discernimento (pali: viveka)

“A princípio, o mindfulness se caracteriza pelo fato de que te permite dar-te conta, como tu mesmo descobriu uma vez ou outra, de que já faz muito tempo que vives abstraído em teu pensamento, avaliando, comparando, esperando e te preocupando, e de que de vez em quando isso distrai os teus pensamentos. Por isso, esta é uma parte importante do treinamento. Ela trata de que tomes consciência deste fato e de que tenhas uma mente sóbria de vez em quando, de que saias deste fluxo de palavras e imagens que se produz automaticamente.” Foi esta prática que Shankara chamou a Coroa do Discernimento. Dia a dia e ano após ano, é necessário manter claro o nível de discernimento. Isto se faz discernindo entre a observação neutra e a distração, de novo e de novo.

Assim é como se começa a pensar criticamente e a elaborar argumentos racionais. Implica uma clarificação dos pensamentos. No pensamento crítico ocupa uma posição central o discernimento entre sujeito e objeto, sonho e realidade, engano ou ilusão e verdade ou realidade.

O pensamento crítico e, portanto, o discernimento, são virtudes centrais na espiritualidade tradicional. Os místicos dominicanos chamam a estes passos discriminatio, a capacidade de discernir entre o uso mundano ou religioso da energia. Os orientais a chamam viveka, discernimento, a capacidade de usar a vontade como uma parte da energia para dirigi-la a si mesmo, através de práticas como a oração, os mantras ou a meditação, em vez de através do sucesso profissional, da mundanidade ou do desenvolvimento pessoal.

Segundo Rao e Paranjpe, viveka pode ser explicada mais detalhadamente como:

Sentido de discernimento; sabedoria; discernimento entre o real e o irreal, entre o eu e o não-eu, entre o permanente e o impermanente; indagação discriminativa; correto discernimento intuitivo; discernimento sempre presente entre o transitório e o permanente”.


Em seu artigo Neo-Advaita orPseudo-Advaita and Real Advaita-Nonduality (Não-dualidade Neo-Advaita ou Pseudo-Advaita e Real Advaita), Timothy Conway se opõe à tendência moderna em centrar-se apenas no mindfulness, e escreve sobre a necessidade do pensamento crítico e do discernimento em uma prática espiritual:

Alguns mestres espirituais e seus discípulos estão fechados num ponto de vista que os obriga a ver o que acontece somente como ‘bom’ ou somente como ‘perfeito’ ou, inclusive, como ‘nada acontece realmente’, e abandonaram toda a capacidade de avaliar os fenômenos e de distinguir o que podemos chamar de os 3 níveis da realidade não dual:

Nível 3: o nível convencional de “apropriado e inapropriado”, “útil e danoso”, “correto e incorreto”, “justiça e injustiça”, “acima e abaixo”, “feminino e masculino”, etc .

Nível 2: a “verdade celestial” segundo a qual tudo o que ocorre a todas as almas imortais é “perfeito”, a “manifestação requintada da Vontade Divina”, o “jogo perfeito de Consciência” que leva estas almas à Realização de Deus.

Nível 1: a Realidade Absoluta, na qual se compreende que tudo o que ocorre é um sonho, de modo que nada acontece realmente, não existem mundos distintos, não existem seres distintos, não há multiplicidade, somente Deus, somente Consciência Divina.

É um grande paradoxo que a Realidade não dual tenha estes diferentes níveis de verdade, mas isto é algo que se vê confirmado por textos e ensinamentos de orientação não dualista de sábios de diferentes culturas sobre a natureza da Realidade no nível convencional, no nível da verdade celestial e no nível da verdade absoluta (que, estritamente falando, não é um “nível”, mas a Realidade única, absolutamente verdadeira, enquanto que os níveis 2 e 3 são “relativamente verdadeiros”, dependentes da Realidade Absoluta ou Parabrahman).

O ponto relevante aqui é que as pessoas que não honram simultaneamente estes três “níveis” de Realidade, especialmente o nível convencional (nível 3 no modelo acima), pensam erroneamente que usar o discernimento ou o pensamento crítico, ou seja, criticar qualquer forma de pensamento ou comportamento, significa “ser negativo” ou “iludido” ou “usar a cabeça, não o coração”. (Na realidade, um verdadeiro sábio é livre para utilizar tanto a cabeça como o coração como instrumentos de consciência, sensibilidade e capacidade de resposta).

Contudo, o pensamento crítico é a arte antiga, expressa no nível convencional da realidade cotidiana, de avaliar as crenças e o comportamento consequente, em benefício do bem individual e do bem comum, aquele que nos serve plenamente, não nos debilita nem nos desequilibra. O pensamento crítico pode 1) identificar qualquer pensamento defeituoso, auto-engano, pontos cegos, distorção, desinformação, propaganda e preconceitos no nível cognitivo de nossos pontos de vista, e 2) identificar atitudes e condutas externas que não sirvam ao nosso bem-estar individual e coletivo, isto é, as atitudes e os comportamentos que não nos liberam nem nos empoderam de verdade e/ou não concordam com uma ética e um sistema de valores que promovam a liberação autêntica, a justiça e a igualdade.

Um artigo informativo da Wikipédia sobre o tema diz que o pensamento crítico valoriza “a clareza, a credibilidade, a precisão, a profundidade, a amplitude, a lógica, a importância e a equidade”. Não é de estranhar que os especialistas no campo da psicologia e da educação creiam que nossa sociedade e nossas escolas necessitam de muito mais ênfase, não menos ênfase, nas habilidades do pensamento crítico, de modo que possamos funcionar melhor a partir de fatos e premissas sólidas, não de delírios, mentiras, meias verdades e preconceitos. Por exemplo, no âmbito da política, da saúde, das corporações e dos meios de comunicação, e certamente no campo da religião e da espiritualidade, é necessário um pensamento muito mais crítico, não menos, para diferenciar o fato da ficção, a verdade da mentira, o apropriado do inapropriado, o bem do mal.

A antiga Índia desenvolveu uma sã tradição de pensamento crítico e debate, debatendo sobre os méritos e desvantagens de certas posições filosóficas e/ou metafísicas e estilos comportamentais de vida. Os sábios dos Upanishads, Buda, Nagarjuna, Sahnkara e outros famosos luminares espirituais mostram com força esta salutar tendência de crítica construtiva e debate. O mesmo ocorre com a antiga sabedoria grega de nossa tradição ocidental. O artigo da Wikipédia sobre “pensamento crítico” explica, como qualquer dicionário grego esclarece, que o verbo krino significa ‘escolher’, ‘decidir’ ou ‘julgar’, e ‘separar’ ou ‘separar o joio do trigo’, ou ‘o que tem valor do que não tem’. Portanto, uma pessoa krino, ou crítica, é alguém que pode discernir, julgar ou arbitrar de maneira útil.

Se diz que Jesus disse: “Não julgueis para não serdes julgado”, mas os Evangelhos indicam que o mesmo Jesus frequentemente julgou e discerniu o bom do que não era bom. Sua mensagem de “não julgues” foi dirigida aos hipócritas, não foi pensada como uma instrução geral para que ninguém jamais se involucrasse em um pensamento crítico sério. E, recordemos que Jesus enfrentou os mercadores e assassinos de animais no Templo de Jerusalém, e os expulsou do lugar.

Portanto, podemos dizer que aqueles que são críticos, têm a capacidade de discernir a verdade do engano e o apropriado do inapropriado.

Um ponto geral a recordar sobre o pensamento crítico e a crítica dos pontos de vista e comportamentos defeituosos, é que sempre devemos nos esforçar para manter a empatia e a humildade e um espírito de “crítica construtiva”. Devemos evitar a crítica destrutiva e toda classe de arrogância, hipocrisia e malícia quando desejamos criticar a falsidade e afirmar uma verdade maior..”

Filosofia significa amor à sabedoria. Com a indagação e o discernimento voltamos ao assombro existencial. À medida que a prática da meditação avança, os pensamentos pessoais começam a se abrir para as imagens originais. Os pensamentos se caracterizarão por perguntas mais comuns e universais: Como pode o ser humano preservar a paz mental e o equilíbrio em todas as relações da vida? Como aprendemos a apreciar os bens verdadeiros e deixamos ir os objetivos transitórios e vãos? O destino do ser humano forma parte de um plano maior?

A filosofia é um aspecto muito central em todas as práticas espirituais tradicionais. Entre as tradições originais de sabedoria estão o gnosticismo e o misticismo dentro do cristianismo primitivo e medieval, o sufismo no islã, o hassidismo e a cabala no judaísmo, o advaita vedanta no hinduísmo, o zen e o Dzogchen no budismo. Na China encontramos o taoismo. Mas, mais velhos são o xamanismo e o paganismo, práticas religiosas a que chamo com um só nome: a religião e a arte antigas.

Sobre o autor


Morten Tolboll é formado em Filosofia e Psicologia. Pratica Yoga e Meditação desde 1985 e durante este período desenvolveu o conceito de “Meditação com uma Arte de Vida” (Meditation as an Art of Life), sobre o qual escreveu uma série de livros. Atualmente, vive como monge em Rold Forest, Dinamarca. Seus escritos foram colocados gratuitamente à disposição pela Internet. Eles enfatizam a importância da filosofia na prática espiritual. Morten pode ser definido como um anarquista espiritual. Seu website: https://mortentolboll.weebly.com/

Os três fluxos da Cabala

Por Jay Michaelson (tradução do artigo publicado no site Learn Kabbalah - https://learnkabbalah.com/three-streams/ -, feita por Paulo Stekel, sob autorização expressa do autor)


A Cabala oferece três tipos de respostas para as questões fundamentais da existência. Como as respostas são muito diferentes, assim como as técnicas espirituais envolvidas, os estudiosos, seguindo Moshe Idel, passaram a referir-se a três correntes da Cabala. Os próprios cabalistas reconhecem essas três tendências dentro da Cabala, embora seja importante lembrar que eles mesmos não se veem em um ou outro fluxo; existe interpenetração entre os três. Como a maioria das categorias, esses fluxos são generalizações orientadoras úteis, não categorias duras e rápidas.

Cabala Teosófica

A primeira é a Cabala teosófica, ou Cabala das Sefirot. Textos teosóficos clássicos da Cabala, como o Zohar, nos ensinam sobre a forma da Divindade, como nossas ações influenciam e espelham o Divino. Eles mapeiam o mundo inteiro para a forma Divina, em particular aquela das dez sefirot - uma palavra intraduzível, mas que pode significar “emanações”. Uma metáfora útil é pensar nas sefirot como dez diferentes painéis de vitrais através dos quais a Luz Infinita brilha. O mundo existe e aparece como se nos apresenta porque Deus manifestou a si mesmo através destas sefirot, que contêm a Luz de Deus e, para falar em metáfora, se obscureceram ou se coloriram em graus crescentes de tal forma que no momento em que chega à sefirah final, Malchut, Shechinah, a presença imanente de Deus, pode parecer que a luz está completamente oculta. Experiencialmente, entender a Cabala teosófica transforma nossa compreensão do mundo; tudo, toda palavra, todo momento é como um símbolo para uma ondulação na Divindade. À medida que a estrutura profunda da realidade é descoberta, através de uma sensibilidade e imersão ainda maiores na estrutura simbólica da Cabala, nossa consciência se expande. Em cada folha de grama está todo o universo.

Cabala Profética

A segunda é a Cabala Profética (kabbalah nevuit). A Cabala Profética, mais importante nos escritos de Abraham Abulafia, contém métodos para alcançar a união com o Divino, que levam à profecia. A Cabala Profética também usa a estrutura conceitual das sefirot, mas se concentra menos em entender estruturas míticas e simbólicas complexas e mais em técnicas para alterar a mente a fim de abri-la à verdadeira Realidade deste momento de agora: Deus. Como em outras formas de meditação, muitas experiências podem resultar dessas técnicas extáticas, e essa corrente é, às vezes, chamada de “Cabala extática” pelos estudiosos. No entanto, esse termo é um pouco enganador, porque as experiências são menos importantes do que as percepções recebidas. Na terminologia Maimonideana de Abulafia, estes são insights do Intelecto Ativo, a sabedoria do Divino que molda e mantém o universo, e eles - não a experiência em si - são os motivos pelos quais as práticas são importantes. Nas práticas da Cabala Profética, a alma individual é aniquilada; e, uma vez que seu eu ilusório é visto como nada além de ilusão, o mundo é experimentado como nada além da Luz Divina, e a pessoa tem acesso ao esplendor dessa Luz, que é a fonte da profecia. Mais do que a Cabala Teosófica, a Cabala Profética se assemelha às práticas místicas de outras tradições religiosas, com práticas de meditação e outros meios de limpeza das portas da percepção, para que possam aceitar o Infinito.


Cabala Prática

Em terceiro e último lugar está a Cabala Prática (kabbalah ma’asit), às vezes chamada de Cabala Mágica ou Cabala Teúrgica. Se a Cabala Teosófica buscou entender o infinito e o finito, e a Cabala Profética procurou mover-se da finitude para o Infinito, então a Cabala Prática busca mover-se do infinito para o finito - aplicar o conhecimento da teosofia para mudar o mundo. Cabala prática inclui várias práticas esotéricas, como adivinhação, doutrinas como a transmigração das almas, um mundo animado de anjos e demônios, e lendas como o Golem. Cabalistas teosóficos e extáticos tendem a denegrir a magia, pois, para eles, ela está se movendo na direção errada. No entanto, alguns dos mais antigos textos cabalísticos que temos são fórmulas mágicas e encantamentos, e as formas mais populares de Cabala hoje fazem uso intenso de magia - em Israel, curandeiros Cabalísticos oferecem remédios para tudo, de infertilidade a depressão, e na América, o Kabbalah Center faz uso mágico do Zohar e de vários talismãs.

Observe como a Cabala está principalmente interessada em responder como o Infinito se relaciona com o finito. Esta é realmente a questão de como devemos viver, porque, ao entendermos a verdadeira natureza da realidade, obtemos uma profunda compreensão de como devemos conduzir nossas vidas à luz disso. Este “conselho de vida” pode assumir a forma de técnicas quase mágicas que podem nos curar, ou práticas extáticas que podem nos dar equanimidade e nos libertar do ciclo interminável de desejo e sofrimento, ou intenções teosóficas que, quando somadas às mitsvot (mandamentos), transformam nossa consciência diária. Em todos os casos, estudar verdadeiramente a Cabala é vivê-la, trazer sua sabedoria para todos os nossos atos e nos compreender à luz de suas verdades.

Finalmente, embora não seja formalmente um fluxo de Cabala, podemos entender o hassidismo como um quarto fluxo. O hassidismo foi um movimento popular misturado de forma mística que surgiu na Europa Oriental no Século XVIII, e para o qual foram necessárias as verdades de todas essas três correntes cabalísticas, tais como o poder extático de meditação e oração, a doutrina do panenteísmo (que tudo está em Deus) e os poderes mágicos do justo, os quais foram sintetizados em uma nova expressão. da espiritualidade judaica que ainda é bastante popular hoje em dia. Embora o hassidismo nos séculos XIX e XX tenha se tornado extremamente conservador, o movimento era originalmente radical. Ensinou que, uma vez que cada grão de areia é preenchido por Deus, o objetivo principal da vida humana deve ser unificar-se no amor a Deus - o que os hassídicos chamavam de devekut, ou apegar-se ao Divino. Isso é feito com oração, meditação e vida cotidiana consciente. O hassidismo também enfatizou o papel do tsadik, o líder comunitário justo, como um canal entre a comunidade e Deus. A evolução da Cabala do Hassidismo é bem explicada por esta curta homilia hassídica:

Nos primeiros dias [da Cabala], tínhamos todas as chaves de todas as portas do céu. Agora, nós perdemos as chaves, então com nosso amor e devoção, devemos quebrar as fechaduras.

Sobre o autor


Dr. Jay Michaelson é autor de seis livros e mais de trezentos artigos sobre religião, sexualidade, direito e prática contemplativa. Ph.D. em pensamento judaico pela Universidade Hebraica , é colunista do jornal The Daily Beast e do Forward. Em sua “outra” carreira, Jay é professor assistente afiliado ao Seminário Teológico de Chicago, ensina meditação em linhagens budistas theravadas e judaicas e possui ordenação rabínica não-denominacional.


De 2003 a 2013, Jay foi um ativista LGBT profissional. Fundou duas organizações LGBT judaicas e apoiou o trabalho de ativistas em todo o mundo na Arcus Foundation, no Democracy Council, e seu novo projeto no Daily Beast, Quorum: Global LGBT Voices.

quarta-feira, 3 de julho de 2019

Consciência, Epifenômeno e Continuum Mental

Por Paulo Stekel


Consciência Pura

No livro “Cérebro e Meditação” (Editora Alaúde, 2018), o monge budista e doutor em Genética Celular Matthieu Ricard debate com o neurobiologista Wolf Singer sobre temas como a meditação e o cérebro, os processos inconscientes e as emoções, como acessamos conhecimento, o ego, o livre-arbítrio e a natureza da consciência.

No capítulo sobre a meditação e o cérebro, ambos debatem sobre a consciência e as construções mentais. É um trecho muito interessante sobre o tema, que tenta conciliar a visão budista com a neurocientífica.

MATTHIEU: A ideia de uma consciência cuja natureza fundamental seria absolutamente pura não passa de uma simples concepção ingênua da natureza humana. Ela se baseia no raciocínio e na experiência introspectiva. Se considerarmos os pensamentos, as emoções e as sensações, assim como todos os outros eventos mentais, constataremos que todos eles têm um denominador comum: a capacidade de conhecer. De acordo com o budismo, essa capacidade fundamental da consciência é chamada de natureza fundamental da mente. Essa natureza é ‘luminosa’, no sentido de que ela permite conhecer o mundo exterior por intermédio das nossas percepções e de que ela ilumina nosso mundo interior por meio de nossas sensações, pensamentos, lembranças, previsões e consciência do momento presente. Ela é luminosa em comparação a um objeto inanimado, que é opaco, isto é, privado de qualquer capacidade cognitiva.

Vamos usar a imagem da luz. Se, com a ajuda de uma tocha, você iluminar sucessivamente um belo rosto sorridente, um rosto colérico, uma montanha de joias e um monte de lixo, nem por isso a luz se torna bela, colérica, preciosa ou suja. Outro exemplo é o do espelho. A especificidade de um espelho é refletir todo tipo de imagem. No entanto, nenhuma dessas imagens pertence ao espelho, não o penetra nem permanece nele. Se assim fosse, todas elas ficariam superpostas e o espelho se tornaria inútil. Do mesmo modo, a característica fundamental da mente é permitir que todas as construções mentais (o amor e a raiva, a alegria e o ciúme, o prazer e a dor) se manifestem sem que ela se altere. Os eventos mentais não fazem parte intrinsecamente do aspecto mais fundamental da consciência. Eles se manifestam simplesmente no espaço da consciência desperta, ao longo dos diversos momentos de consciência; é essa consciência desperta fundamental que permite sua manifestação. Podemos, portanto, denominar essa consciência de consciência pura, ou de componente fundamental da mente.”

Teoria do Epifenômeno X Teoria do Continuum

A capacidade de conhecer é Tathagatagharba, a natureza de Buda, a natureza fundamental da mente, pura, e seu componente fundamental. É a definição de consciência não-neural ou além do neural de todo o budismo mahayana e do vajrayana moderno. É complicado de entender quando não se está acostumado, de modo que Wolf Singer acha que Ricard está sendo dualista:

WOLF: O que você acaba de dizer implica duas coisas. A primeira é que você parece atribuir um valor à estabilidade, ou à objetividade, que funcionaria como um critério de legitimação. A segunda é que você separa a consciência fundamental de seus conteúdos. Você supõe que existiria no cérebro uma entidade básica que funcionaria como um espelho ideal, uma entidade que, em si mesma, não introduziria nenhuma distorção e não seria influenciada pelos conteúdos que ela reflete. Será que você não está defendendo uma posição dualista, uma dicotomia entre, de um lado, uma mente imaculada que seria o observador e, do outro, os conteúdos que aparecem nessa mente e que apresentariam inúmeras interferências e distorções? As concepções contemporâneas da organização do cérebro negam categoricamente qualquer diferença entre as funções sensoriais e executivas, entendendo que a consciência é uma característica emergente das funções do cérebro. Portanto, para mim é difícil imaginar a diferença que existiria entre um espelho imaculado e os conteúdos que ele refletiria. Não consigo pensar numa consciência, uma entidade básica, que fosse vazia: se ela está vazia, simplesmente não existe; e, portanto, é impossível defini-la.”

Wolf declara crer na teoria do epifenômeno, segundo a qual o que chamamos de consciência nada mais é que o produto, o resultado das atividades neurais no cérebro. Os neurocientistas, de maneira geral, não acreditam que possa haver um aspecto da mente que não esteja ligado ao complexo da atividade neuronal. Portanto, para eles, a mente não preexiste ao corpo (não acreditam em carma, nem em reencarnação ou renascimento) nem subsiste a ele (não acreditam em alguma continuidade após a morte).

A teoria do epifenômeno considera a consciência como algo que emerge da atividade física das redes neurais no cérebro. Contudo, esta teoria criou o que é chamado no meio neurocientífico de “o difícil problema da consciência”. Que problema é esse? É a necessidade de responder a questões como: Se a consciência faz parte da mente, como pode estar ciente da própria mente? Como a consciência ressurge todos os dias quando acordamos (cada dia temos uma consciência diferente)? Se a consciência é inexistente durante o sono profundo, como a pessoa está ciente de que era ela quem dormia e não outra entidade?

Estas questões podem ser respondidas pela teoria da mente budista e não-dualista em geral: a consciência está ciente da mente porque não é nem emerge DA mente (neural), mas se manifesta ATRAVÉS da mente neural construída na interação corpo (cérebro, redes neurais, etc) e mente/consciência pura – a consciência de um ser pensante é um aspecto do conjunto; a consciência que ressurge após o sono é a mesma, que tinha estado em outro nível de percepção; no sono, a consciência não é inexistente, mas se manifesta em outro nível, grau ou modo de ser. Ricard dá a sua própria resposta:

MATTHIEU: Não se trata de dualidade. Não existem dois fluxos de consciência. Trata-se mais de aspectos diferentes da consciência: um aspecto fundamental, uma consciência desperta, que está sempre presente, e aspectos secundários, a saber, as elaborações mentais, que mudam sem parar. O aspecto fundamental é a qualidade principal da consciência, essa capacidade de conhecer que está sempre presente, seja qual for o conteúdo da mente. Deveríamos falar, de preferência, em termos de continuidade. A consciência, em todos os níveis, é um fluxo dinâmico constituído de instantes de consciência que incluem, ou não, conteúdos. A qualquer momento, para além da tela dos pensamentos, podemos identificar uma capacidade pura de conhecimento que está na base de todos os pensamentos.”

Essa ideia da consciência como continuum ou fluxo mental é a explicação padrão do budismo vajrayana. É muito interessante, porque não recorre a uma noção da consciência como um “espírito” ou uma “alma”, mas como um fluxo além do tempo e mesmo do espaço. Ou seja, contra a teoria do epifenômeno apresentamos a teoria do continuum.

No livro “Transforme sua vida” (Ed. Tharpa), o lama tibetano Geshe Kelsang Gyatso diz que a mente é “um continuum sem forma, que tem como função perceber e entender os objetos” e que, por isso, “ela não pode ser obstruída por objetos físicos”.

O que renasce?

Em “Glimpse of Reality” (ver https://studybuddhism.com/pt/budismo-tibetano/caminho-para-a-iluminacao/carma-e-renascimento/o-que-e-reencarnacao), Alexander Berzin, PhD. e famoso escritor sobre Budismo Tibetano, diz: “A palavra inglesa para mente (e também a portuguesa) não tem o mesmo significado que o termo supostamente traduzido do Sânscrito e Tibetano. Nesses idiomas, “mente” refere-se à atividade mental ou eventos mentais e não àquilo que está fazendo essa atividade. A atividade ou evento em questão é o surgimento cognitivo de determinados fenômenos — pensamentos, visões, sons, emoções, sentimentos e assim por diante — e um envolvimento cognitivo com eles — vendo-os, ouvindo-os, compreendendo-os e até mesmo não os compreendendo.”

Em seguida, comparando a mente com o desenrolar de um filme na tela, quadro a quadro, Berzin complementa: “(…) assim como os filmes não são todos o mesmo filme, apesar de todos serem filmes, da mesma forma, todos os continuums mentais ou “mentes” não são uma mente apenas. Existem inúmeros continuums individuais de consciência de fenômenos e cada um pode ser rotulado como “eu” a partir de sua própria perspectiva.”

Então, para quem acredita em renascimento, o que renasce? Berzin esclarece a visão budista do que retorna em um novo nascimento:

Segundo o budismo, a analogia do renascimento não é a de uma alma, uma pequena estátua concreta ou pessoa, viajando em uma esteira rolante de uma vida para a outra. (...) A analogia é a de um filme. Existe uma continuidade em um filme; os quadros formam um continuum.

(…) Cada um de nós tem seu continuum individual. A sequência do meu filme não se tornará o seu filme, mas nossas vidas prosseguem como filmes no sentido de que não são concretas e fixas. A vida segue de um quadro para outro. Ela segue uma sequência, de acordo com nosso karma, e assim forma uma continuidade.

Cada continuum é alguém e pode ser chamado de “eu”; não é que cada continuum não seja ninguém. Assim como o título de um filme - que se refere a todo o filme e também a cada quadro dele, mas não pode ser encontrado como algo concreto em cada quadro - da mesma forma “eu” refere-se a um continuum mental individual e a cada momento dele, mas também não pode ser encontrado como algo concreto em nenhum desses momentos. Todavia, existe um “eu”, convencionalmente falando, um “self”. O budismo não é um sistema niilista.”

O fato do budismo afirmar que um continuum mental deve sempre ter uma base física, um apoio, pode parecer corroborar a visão da neurociência, mas não. Ainda que, no nível mais denso, um corpo físico seja necessário como suporte para um continuum de consciência, ele não cria a consciência. A consciência preexistia. Nosso corpo físico muda de momento a momento e constitui um continuum individual, o continuum físico desta vida. Mas o continuum físico em uma vida passada ou futura seria um continuum diferente, no final, pois o corpo de uma vida não se transforma num corpo de outra vida.

Berzin (em https://studybuddhism.com/en/advanced-studies/lam-rim/impermanence-death/how-mental-continuums-perpetuate-themselves): “Nós estabelecemos que um continuum mental individual só pode surgir de algo em sua própria categoria de fenômeno. Embora um continuum mental requeira um continuum físico de um corpo como suporte, o continuum físico de um corpo é apenas uma condição para um continuum mental - embora seja uma condição necessária. Não é a causa imediatamente anterior que se transforma em um continuum mental. Também estabelecemos que um continuum mental individual não pode vir do continuum mental individual de outra pessoa. Deve vir de si e continuar de si mesmo. (…) não pode haver um começo absoluto ou um fim absoluto para um continuum mental. Assim como a ciência afirma que matéria e energia não podem ser criadas nem destruídas, apenas transformadas, o budismo afirma que a atividade mental individual também não pode ser criada nem destruída, apenas transformada. (…) o funcionamento de um corpo particular pode apoiar um continuum mental por um certo período de tempo. Quando um corpo em particular para de funcionar e não pode mais apoiar um continuum mental em particular, o budismo explica que esse continuum mental continua com uma base física diferente - primeiro um corpo sutil e depois outro corpo denso.”

Fica claro o que é um continuum mental e como pode ter consciência pura, diferente do “eu” psicológico ao qual estamos acostumados. Esse eu psicológico existe de modo relativo e apenas pelo espaço de uma vida, pois depende de um corpo para que se complete. Na verdade, para a formação do eu psicológico concorrem tanto as atividades corporais, incluindo as conexões neurais desde a geração, quanto as tendências cármicas que são armazenadas na consciência pura, e que se manifestam quando as condições ideais surgem.

terça-feira, 2 de julho de 2019

Canalização: esclarecendo sobre "incorporações"

Por Paulo Stekel (atualizado em 03/07/2019)


Não há incorporação

“Incorporação” é um termo muito mal-compreendido. Originalmente, no meio mediúnico, desde o Séc. XIX, era usado porque se entendia que algo espiritual “entrava” no corpo, ou seja INcorporava. Associado a isso, se tinha a ideia de que o médium, uma vez incorporado, era um mero instrumento passivo de um espírito ou entidade, e isso mereceu críticas severas, por exemplo, dos adeptos da Teosofia. Ainda hoje se vê autores falando do aspecto "cármico" da mediunidade, como se o indivíduo tivesse alguma obrigação espiritual de servir de instrumento passivo de entidades sofredoras. Este equívoco deve ser desmascarado o quanto antes, pois pessoas com problemas cognitivos e transtornos mentais têm sofrido muito com este tipo de filosofia maniqueísta.

A visão da Canalização é bastante diferente. Nela, não se imagina que algo “entre” no corpo. Apenas uma comunicação mental, por frequências, é o que ocorre, sem que algo precise entrar no corpo. Há uma sintonização, não incorporação. O processo de comunicação, como já esclarecemos em outros artigos, se dá por telepatia, inspiração, intuição e ressonância com a consciência que se contata. A questão é simples: no Séc. XIX, quando a Mecânica Quântica (popularmente, Física Quântica) ainda não existia como teoria, a única explicação possível para o processo de como um espírito tomava conta da consciência de um médium era a de que algo entrava no corpo e afastava seu perispírito para poder se manifestar. Mas, no final, isso é um resquício do materialismo e da lei que diz que dois corpos não podem ocupar o mesmo lugar no espaço. Hoje, numa época de teoria quântica, campos morfogenéticos, ressonância e mente não-local, a própria noção antiga de "espírito" precisa ser revista e adaptada ao novo entendimento. Não há como se imaginar uma espiritualidade do Terceiro Milênio dissociada destas novas percepções.

Visão quântica

Na visão quântica as coisas mudam, pois a mente e a consciência são consideradas eventos não-locais. O corpo não precisa ser tomado para que uma comunicação ocorra. Tudo acontece na mente e nada é afastado. É como sintonizar uma estação de rádio. Contudo, essa explicação só passa a fazer sentido após os estudos sobre eletro-magnetismo e aspectos quânticos dos átomos. Não poderíamos exigir isso dos primeiros médiuns, no Séc. XIX. Mas, o conhecimento espiritual sempre tem se adaptado aos tempos, e agora podemos entender tudo de um modo mais claro.

No Brasil, a noção de “incorporação” está mais associada ao grau de profundidade do transe mediúnico. Se diz que há incorporação quando o médium recebe um espírito mais pesado, que o faz apresentar alterações corporais, ficar inconsciente, arrastar-se no chão, mudar totalmente a voz ou girar desenfreadamente. Quando nada disso ocorre ou ocorre apenas de um modo leve, se convencionou dizer que não há a incorporação, mas um transe leve, em que o médium se mantém basicamente consciente do processo. Estes aspectos têm apenas a ver com o grau de consciência do médium e com o nível evolutivo da entidade sintonizada.

Há casos em que uma entidade muito inferior abafa a consciência do médium/canal por sua baixa frequência. Há também casos em que uma entidade muito elevada abafa a consciência do médium/canal por sua alta frequência. Cada caso é um caso. Há um componente mental incrivelmente complexo envolvido. Mas, nada “entra” no corpo, no final das contas!

O imaginário da incorporação

Muito do imaginário de incorporação se dá pela forma como os romances espíritas foram escritos no Século XX. Este gênero literário tem mudado um pouco nos últimos anos, com a inserção de conceitos mais modernos. Mas, no século passado, a romantização das projeções mentais dos desencarnados em "hospitais no espaço" e umbrais fez com que as pessoas pensassem ser estes lugares algo real, quando nada mais são que projeções mentais das consciências que partiram. Afinal, tais consciências não estão mais na matéria e, por isso, não poderiam existir complexos como os que vemos no mundo físico. A própria literatura budista, com seus dois mil e quinhentos anos, e baseada na tradição hindu, fala de locais que podem ser considerados como os hospitais no espaço, locais de aprendizado e umbrais do espiritismo (leia-se sobre os conceitos budistas de terra pura, infernos e reinos superiores com forma e sem forma).

Se a incorporação é um equívoco, então, não há motivo para um canalizador sintonizar mentores se retorcendo pelo chão ou falando com voz metálica, como vemos com alguns canalizadores famosos do Brasil que dizem "receber" comandantes extraterrestres. Isso tudo soa muito ridículo, e alguns até os entrevistam como se fossem realmente representantes de uma civilização de fora do nosso planeta. Não que isso não seja possível, mas pensamos que não há qualquer razão para uma consciência extrafísica de outro plano, dimensão ou mundo falar de modo teatral, mesmo porque tal consciência utiliza todos os veículos do canal, podendo falar normalmente, se valendo do sistema neural do canalizador para se comunicar perfeitamente. Não há necessidade de pantomimas, levantar o braço e dizer "saudações terráqueos". Deixemos isso para as comédias hollywoodianas e para os programas de humor.

ATUALIZAÇÃO (em 03 de julho de 2019)

Assim que o artigo foi publicado, várias pessoas me interpelaram - por aqui e por redes sociais - sobre minha visão da incorporação espírita, dizendo que estava equivocada.

Para evitar mal-entendidos, quero esclarecer o que eu afirmei e o que não afirmei no artigo:

Primeiro, a opinião que expus no artigo é da perspectiva da Canalização, não do Espiritismo Kardecista. Desta forma, assim como os membros de uma religião diversa da espírita poderiam colocar seus pontos de vista sobre determinados fenômenos, eu, do ponto de vista da Canalização, que pratico desde os nove anos de idade, assim o faço, resguardado pela lei.

Segundo, em nenhum momento eu disse que o fenômeno mediúnico ou mesmo o fenômeno espírita não exista ou que não seja real. O que eu contestei, da perspectiva da Canalização, é o conceito de incorporação, que não é a mesma coisa que dizer que NADA é sintonizado pelos médiuns espíritas. Claro que acredito que algo é sintonizado e que não se trata de mistificação ou transtorno mental. Que isto fique bem claro. Mas, quanto a O QUE é sintonizado mediunicamente pelos espíritas, é uma questão de opinião também. Para os espíritas, o que seus médiuns sintonizam são "espíritos". Para praticantes do Cristianismo neo-pentecostal, são "demônios". Para a Canalização, são consciências com autorreferência, mas não necessariamente, espíritos dos mortos - podem ser também consciências de seres vivos em outros planos paralelos de existência e mesmo mentes localizadas em mundos físicos muito distantes da terra. No momento, a lei brasileira de liberdade religiosa e de liberdade de expressão permite tanto a liberdade de culto e de opiniões, quanto atitudes preconceituosas como a de alguns grupos neo-pentecostais de considerarem os deuses ou espíritos dos outros como "demônios". Infelizmente...

O significado de "Deus", o "nome impreciso"

Por Jay Michaelson (tradução do artigo publicado no site Learn Kabbalah - https://learnkabbalah.com/the-meaning-of-god/ -, feita por Paulo Stekel, sob autorização expressa do autor)

Para os Cabalistas, o mundo visível é apenas a pele superficial da Realidade. Por causa da maneira como nossas mentes são construídas para interagir com o mundo, nos imaginamos como indivíduos separados, cuidando de nossos negócios, tentando ser felizes. Na verdade, nós, as estrelas, nossos amigos e inimigos e tudo ao nosso redor - todos nós somos sonhos na mente de Deus. Nada tem uma realidade separada - só parece que há mesas, cadeiras, computadores e pessoas separadas, de uma perspectiva certa e limitada. Ser em si não é nada além de Deus.

Do ponto de vista de Deus, todas as distinções que fazemos - entre nós e o mundo fora de nós mesmos, entre os objetos do mundo, etc. - são completamente ilusórias, porque em última análise há apenas a unidade indiferenciada do “ein sof”, o Infinito.

É claro que não é assim que as coisas parecem do nosso ponto de vista. Por que isso acontece? E como você sabe que tudo é realmente um?

Vamos fazer uma pausa, antes de responder a essas perguntas, para uma “verificação da realidade”. Para a maioria de nós hoje, o conceito de Deus é problemático e controverso. Eu ensinei Cabala a adultos, adolescentes, judeus, não-judeus, e notei que a grande maioria dos meus alunos, quando ouvem a palavra “Deus”, parece dizer “aguente firme - você me perdeu”. Então, assim que alguém menciona “Deus”, nós saímos pela tangente.

Para a maioria dos Cabalistas, a situação era muito diferente. O conceito e a realidade de Deus foram sentidos e conhecidos desde suas primeiras lembranças. Esses eram, em geral, rabinos encharcados pelo Deus do Judaísmo, que eles experimentaram e com o qual se relacionaram todo o tempo. A prática judaica tradicional coloca-nos em constante relacionamento com Deus. Então, essa importante questão de como sabemos intelectualmente que Deus existe é em si uma questão um tanto não-cabalística. O tipo de conhecimento que procuramos é conhecimento experiencial. Não conhecimento sobre fé ou dogma, mas conhecimento baseado em experiência de primeira mão. Isso é chamado da'at - conhecimento verdadeiro. Os amantes gentis têm isso: União.

Por essa razão, a Cabala está mais interessada em como nos relacionamos com Deus através de símbolos, conceitos e emanações do que como podemos especular sobre o Ein Sof indiferenciado. Em particular, ela pergunta sobre como conhecemos a Deus através dos conceitos das Sefirot [esferas da criação], ou como nos unimos a Deus através da meditação, ou como podemos usar nossos relacionamentos com Deus para vários propósitos. A Cabala também não é um sistema filosófico. De fato, historicamente, grande parte da Cabala surgiu diretamente em resposta (e oposição) à filosofia racionalista. Portanto, não encontraremos “provas” sistemáticas da existência de Deus no Zohar ou em qualquer outro lugar. Realmente, se tais provas existissem, você não as conheceria agora?

Já que, para a Cabala, o Infinito - o ein sof - é completamente diferente do que a maioria das pessoas chama de “Deus”, muitos professores contemporâneos escolhem não usar a palavra “Deus” de forma alguma. Isso pode ser uma boa ideia. Afinal, vamos ver dois textos curtos de um dos mais importantes cabalistas, Rabi Moshe Cordovero, traduzido pelo estudioso Daniel Matt:

Uma pessoa empobrecida pensa que Deus é um homem velho de cabelos brancos, sentado num maravilhoso trono de fogo que brilha com incontáveis faíscas, como a Bíblia diz: ‘O Ancião-dos-Dias senta, o cabelo em sua cabeça como lã limpa, seu trono - chamas de fogo’. Imaginando essa e outras fantasias semelhantes, o tolo corporifica a Deus. Ele cai em uma das armadilhas que destroem a fé. Seu temor a Deus é limitado por sua imaginação. Mas se você é iluminado, você conhece a unidade de Deus; você sabe que o divino é desprovido de categorias corporais - estas nunca podem ser aplicadas a Deus. Então você se pergunta, espantado: quem sou eu? Eu sou um grão de mostarda no meio da esfera da lua, que em si é um grão de mostarda na esfera seguinte. Assim é com essa esfera e tudo o que ela contém em relação à esfera seguinte. Assim é com todas as esferas - uma dentro da outra - e todas elas são uma semente de mostarda dentro das outras extensões. E todos estes são um grão de mostarda dentro de outras extensões.

Sua admiração é revigorada, o amor em sua alma se expande.”

Este é um ensinamento notável. Naturalmente, Cordovero usa sua estrutura científica - a ideia de que o universo é composto de esferas concêntricas - em vez das nossas. Mas o princípio é o mesmo. Deus não é um homem velho no céu que garante que apenas coisas boas aconteçam a pessoas boas, e coisas ruins acontecem de maneira ruim. O universo não funciona assim. De fato, o universo é inconcebivelmente vasto, e cada partícula subatômica dele é preenchida por Deus. Aqui está outro importante texto de Cordovero sobre a ideia de Deus:

A essência da divindade é encontrada em todas as coisas - nada, mas existe… Não atribua dualidade a Deus. Deixe Deus ser somente Deus. Se você supõe que Ein Sof emana até certo ponto, e que a partir desse ponto está fora dele, você tem dualizado. Deus me livre! Perceba, sim, que Ein Sof existe em cada existente. Não diga: ‘Esta é uma pedra e não Deus’. Deus me livre! Pelo contrário, toda a existência é Deus, e a pedra é uma coisa permeada pela divindade.”

Pense nisso. Ein Sof significa infinito - realmente infinito. Se esta tela de computador não é o Ein Sof, nós cometemos um erro, porque nós damos um fim ao Ein Sof. Os cabalistas levam a ideia do infinito muito a sério. Deus é aquilo que é - YHVH, um dos principais termos hebraicos para essa Realidade, pode até ser traduzido como “É”. Deus não é um homem velho; Deus é o que é. O Infinito é tudo. É a única coisa.

“Deus” é um nome impreciso para a única coisa no universo que realmente existe.

Sobre o autor


Dr. Jay Michaelson é autor de seis livros e mais de trezentos artigos sobre religião, sexualidade, direito e prática contemplativa. Ph.D. em pensamento judaico pela Universidade Hebraica , é colunista do jornal The Daily Beast e do Forward. Em sua “outra” carreira, Jay é professor assistente afiliado ao Seminário Teológico de Chicago, ensina meditação em linhagens budistas theravadas e judaicas e possui ordenação rabínica não-denominacional.


De 2003 a 2013, Jay foi um ativista LGBT profissional. Fundou duas organizações LGBT judaicas e apoiou o trabalho de ativistas em todo o mundo na Arcus Foundation, no Democracy Council, e seu novo projeto no Daily Beast, Quorum: Global LGBT Voices.

sexta-feira, 28 de junho de 2019

O eu psicológico que o Buda não negou

Por Paulo Stekel


Atma X Anatma

Quando lemos ou ouvimos ensinamentos sobre Budismo, uma das primeiras coisas que causa estranheza a quem não está acostumado, incluindo psicólogos e psiquiatras, é a noção de anatma (Sânscrito) ou anatta (Páli). A tradução ocidental fornecida causa ainda mais confusão: “não-eu”.

O que não fica claro na definição é de qual “eu” se está falando. Se trata do “eu psicológico”? Mas, este conceito nem existia na época do Buda. O que existia era o conceito védico de “atma” ou “atman”, traduzido como “alma”, sopro vital e, especialmente, uma alma permanente, imortal.

No hinduísmo, atman é o mais elevado princípio humano, a Essência divina, profunda, sem forma e indivisível. O termo também é usado para expressar Brahman ou Paramatman. No Vedanta, na tese defendida por Shankara, o termo atman é usado para identificar a alma individual, o “verdadeiro eu”, traduzido como “Eu” para dar um caráter divino a esta alma, por ser idêntica ao Absoluto ou Brahman, e estar além da identificação com a realidade fenomenal da existência mundana.

No budismo, tal conceito de atman é explicitamente negado pelo conceito básico de anatta/anatman. Mas, o que constitui essa negação? O que realmente é negado? Parece óbvio, mas não é.

O eu psicológico

Para elucidar um pouco, apresentamos a opinião do Prof. Joaquim Monteiro, um monge budista brasileiro que é psicólogo e doutor em Budismo Chinês, em seu livro “O Budismo Yogachara” (Editora UFPB, 2015).

Em um trecho em que analisa a antiga escola budista chamada Yogachara, Monteiro esclarece o conceito de “vazio do atman” e afirma que o Buda não negou o eu psicológico:

Quando nos referimos ao vazio do atman estamos querendo indicar que o objeto de sua negação é a concepção hinduísta de uma alma eterna, não nascida e imperecível e não o conceito de ego conforme compreendido pela psicologia moderna. O termo vazio do eu ou vazio do ego conduz a uma compreensão do Budismo como negação da autoconsciência, compreensão essa que leva em geral a uma visão do Budismo como um primitivismo que conduziria a um estado infantil e pré-egóico. Essa visão é claramente falsa: o que o Budismo nega é a concepção metafísica do atman ou da alma e não a função psicológica da autoconsciência.”

O assunto se torna mais complexo quando jogamos isso contra os conceitos modernos da psicologia e das neurociências sobre o que gera a autoconsciência, mas fica claro que o Buda não se referia ao ego psicológico quando falava do anatman ou anatta. Buda disse que o Incondicionado é anatta, sendo essa uma das três características da existência (as outras duas são anicca - “impermanência” - e dukkha - “insatisfatoriedade”), conforme o artigo de Christopher Titmuss que já postamos aqui (ver: https://stekelblogue.blogspot.com/2019/06/o-que-o-buda-nao-ensinou.html). Ou seja, o que é incondicionado, não sujeito a causas e condições, é anatta/anatman, pois não é uma alma imortal, mas uma não-alma, que talvez seja a melhor tradução para anatman.

Etimologia e definições

Do ponto de vista etimológico, “atma(n)” vem do Sânscrito ātmán, “alma; essência; vento; sopro (vital)”, do Proto-Indo-Europeu *h₁eh₁tmṓ (*etmen), “sopro” (uma raiz encontrada em Sânscrito e Alemão; também no Inglês Antigo æðm, Holandês adem, Antigo Alto Alemão atum “sopro”, Inglês Arcaico eþian, Holandês ademen “respirar”). A ideia de “sopro” é semelhante à que encontramos na palavra Hebraica “Ruach” para definir o “espírito de Deus” no livro de Gênese.

O primeiro uso da palavra Atman em textos indianos está registrado no Rig Veda (RV X.97.11). Yaska, o antigo gramático indiano, comentando sobre este verso Rigvédico, aceita os seguintes significados para Atman: o princípio penetrante, o organismo no qual outros elementos estão unidos e o princípio senciente último.

A ideia, então, tem a ver com sopro, alma, espírito, essência profunda, mas não com o eu/self psicológico, apesar de algumas traduções citarem as palavras “eu” e “self”. É bom ressaltar que no Hinduísmo, Budismo, Jainismo e Vedanta, atman se refere não ao self psicológico, mas a um Self Real, um Self espiritual do ser que está além da identificação com os fenômenos universais, a essência do indivíduo, uma parte infinitesimal de Brahman. Um Self que sobrevive ao eu psicológico, ao ego, ao ser dentro de um corpo. Do ponto de vista da psicologia moderna, o Self se vai com o corpo. Quando se concebe algo que sobrevive ou preexiste ao corpo, se usa termos como Espírito (Ocidente) ou mesmo Mente (Oriente), incluindo, neste último caso, o Budismo. Mas, mesmo um termo como Mente tem muitos sentidos no Budismo e nas tradições indianas em geral. Mas, no Ocidente só possuímos o termo “mente”. Os indianos dividem o que nós chamamos de mente em diversas qualidades e características diferentes, o que confunde o estudante ocidental, com certeza.

Self X Self Real

Quando o Budismo diz que não há um Self transcendental ou uma Alma transcendental e diz que o Self Real é uma ilusão, está querendo dizer que o Self Real, o Atman do Hinduísmo, é que é ilusório, por não ser permanente e desaparecer com a morte. Não está negando a existência do eu psicológico que, como já dissemos, para a Psicologia está evidente que só existe pelo espaço de uma vida. Qualquer coisa, a partir desta visão, que preexista ou sobreviva à morte não é um eu psicológico (relacionado à personalidade, que depende de mente e corpo), não é um Self Real (uma alma imortal) e não é um espírito imortal, uma unidade imorredoura e imutável do Ser. Contudo, não está incluída nesta negação a noção de “consciência”. No Budismo Mahayana é muito importante a noção de um continuum mental de consciência que, todavia, não é um eu, um self, uma alma, um espírito ou um atma. Não é definido por termos fixos, porque não é algo fixo, permanente, uma personalidade eterna. É um conceito difícil de entender, e não pretendemos, com este texto curto, esgotar a polêmica.

Atman, no hinduísmo, não é considerado o mesmo que o corpo, a mente ou a consciência, mas é algo além que permeia tudo isso. Então, se Atman permeia a mente e a consciência, realmente, é algo que o Buda queria negar. Para ele, o corpo é perecível, a mente depende do corpo para que um indivíduo tenha autorreferência (o eu psicológico) e a consciência pode ser de duas naturezas: a consciência corporal que origina a noção de eu psicológico e a consciência além do corporal, não nascida e sempre existente, que não constitui um eu psicológico autorreferente. Isso é, como se vê, diferente do conceito de Atman, pois o aspecto mental que é esta segunda consciência é um continuum mental, uma continuidade dos processos mentais, mas não da personalidade ou de qualquer unidade autorreferencial. O eu psicológico só é ilusório porque ele não sobrevive ao tempo de uma vida, não porque não exista de modo algum. O Buda negou a inerência, a permanência e a existência sem causas e condições de qualquer coisa que seja no mundo.

Todas as escolas ortodoxas do hinduísmo sustentam a premissa de que o Atman existe como verdade evidente, mas o budismo sustenta que o Atman não existe como evidente, pois no âmago dos seres não há nada que seja eterno, essencial e absoluto. Segundo o Buda, para atingir o Nirvana, é condição sine qua non chegar a essa conclusão além da conceitualização, ou seja, por percepção sábia (prajña).

O conceito budista mahayana de Tathagatagarbha (natureza de Buda ou, literalmente, “útero do Tathagata”), que apareceu em Sutras do 1º milênio da era comum, sugere ideias semelhantes a um self. Ainda que isso seja um pomo da discórdia no Budismo desde então, estudos recentes, como os de Wayman e Wayman, afirmam que esses conceitos de “quase-self”, que também aparecem no Vajrayana, não são nem ego, nem ser senciente, nem alma, nem personalidade. Há quem postule que os Sutras Tathagatagarbha foram escritos para promover o budismo em meio a não-budistas (ver: https://books.google.com.br/books?id=JqLa4xWot-YC&pg=PA96&redir_esc=y#v=onepage&q&f=false).

Para Johannes Bronkhorst, professor de indologia especializado em budismo e hinduísmo primitivos, embora possa haver dúvida quanto à existência ou não de um eu/self na literatura budista primitiva, fica claro, a partir dela, que buscar o autoconhecimento (o conhecimento de si, do self/eu) não é o caminho budista para a libertação, mas se afastar do autoconhecimento é. Isso faz sentido, porque não há motivo, do ponto de vista budista, para se autoconhecer um self ilusório e ficar fixado nele. O mero conhecimento do self ou eu psicológico não pode conduzir ao Despertar ou Nirvana, mas, de uma perspectiva da Iluminação, a transcendência desta busca sim, ir além do eu psicológico.

O importante é dizer que o eu psicológico existe dentro de seu escopo limitado, ilusório, impermanente e pelo espaço de uma vida. Qualquer terapia para resolver problemas ligados ao eu psicológico vai contemplar soluções temporárias também, pelo tempo desta vida. Mas, a busca do que está além do eu psicológico, ainda que não negue este eu como algo relativamente existente (mas, não inerentemente, como disse o Buda), não se fixa nele e o transcende, procurando acessar o continuum de consciência que não é uma personalidade, nem um agregado neuronal que tem como epifenômeno a consciência de autorreferência, nem um atma, alma ou espírito imortal com uma espécie de “personalidade cósmica”. O que o praticante busca em sua meditação, seja gradual ou não-dual, é acessar o que não é nada disso, a Mente de onde tudo isso se gera, de alguma forma.