Mostrando postagens com marcador renascimento. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador renascimento. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 27 de maio de 2020

Uma avaliação secular do renascimento

Por Doug Smith (texto originalmente publicado em 2013 no site da “Secular Buddhist Association” como “A Secular Evaluation of Rebirth” em https://secularbuddhism.org/a-secular-evaluation-of-rebirth e traduzido para o Português por Paulo Stekel)

Nota Introdutória do Tradutor: O texto que ora apresento traduzido não corresponde a meu próprio pensamento sobre a crença do carma e do renascimento no Budismo. Confesso que compartilho muitas das ideias dos chamados “budistas seculares”, dos quais Steven Batchelor é o mais conhecido (autor de “Budismo Sem Crenças” e “Confissões de um Ateu Budista”). Contudo, não penso que se possa prescindir das noções de carma e renascimento, porque são noções consequentes da lei de originação interdependente, o pratitya samutpada do Budismo. Doug Smith, o autor do presente artigo, se mostra um partidário da neurociência epifenomênica e, ainda que cite no texto a possibilidade da consciência preexistir e sobreviver ao corpo sem conexão a um sistema neural, duvida dessa possibilidade por mero ceticismo. Como tenho escrito textos na linha oposta, mais próxima de pesquisadores como Mario Beauregard, Steve Taylor, Anthony Peake e Ervin Laszlo, todos acreditando que a mente é o fundamento universal, publico esse texto aqui para confrontá-lo mais adiante. De qualquer forma, muitas das considerações do autor são úteis para o debate.



Renascimento: é um desses tópicos que define a abordagem budista secular. Os praticantes que aceitam as noções budistas tradicionais de renascimento e a causação cármica que a acompanha estarão menos interessados em uma "secularização" naturalista do Darma.

Discussões ao longo das fronteiras da crença tendem a não ser muito proveitosas: as pessoas
buscam suas crenças e as mantêm. Dito isto, pode ser útil, simplesmente, com o objetivo de abertura, apresentar algumas das razões da crença, as razões para adotar a abordagem adotada. Dessa forma, os motivos não permanecem ocultos, parecendo simplesmente serem objetos de fé ou má consideração. Para esse fim, acho que algumas discussões sobre minhas razões para rejeitar o renascimento estão em ordem.

A evidência do renascimento

Na medida em que sabemos algo sobre seu
darma, sabemos que o Buda ensinou o renascimento literal. Encontramos isso em inúmeros textos em todo o Canon, no entanto, para os propósitos deste artigo, vou me concentrar em um, do Maha-Assapura Sutta (Majjhima Nikāya 39.19). Esta é uma seção refletida em outros suttas, como MN 4.27 ou Dīgha Nikāya 2.93-94.

Aqui, o Buda descreve o que é esperado de um monge em treinamento superior.

Ele relembra suas múltiplas vidas passadas, ou seja, um nascimento, dois nascimentos, três nascimentos, quatro, cinco, dez, vinte, trinta, quarenta, cinquenta, cem, um mil, cem mil, muitos eons de contração cósmica, muitos eons da expansão cósmica, muitos eons de contração e expansão cósmica, [lembrando]: 'Lá eu tinha esse nome, pertencia a um clã, tinha uma aparência. Essa era a minha comida, a minha experiência de prazer e dor, o fim da minha vida. Partindo desse estado, ressurgi lá. Também ali eu tinha esse nome, pertencia a um clã, aparecia. Essa era a minha comida, a minha experiência de prazer e dor, o fim da minha vida. Ao deixar esse estado, ressurgi aqui. 'Assim, ele lembra suas múltiplas vidas passadas em seus modos e detalhes. Como se um homem fosse de sua vila natal para outra vila, e depois daquela vila para outra vila, e depois daquela vila de volta para sua vila natal. O pensamento lhe ocorreu: eu fui da minha cidade natal para aquela vila ali. Lá estava eu, sentado, conversando e permanecendo em silêncio. Daquela vila, fui para aquela vila ali, e fiquei ali, sentado, conversando e permanecendo em silêncio. Daquela aldeia, voltei para casa.’ Da mesma maneira - com a mente assim concentrada, purificada e brilhante, sem mácula, livre de defeitos, flexível, maleável, estável e alcançada à imperturbabilidade - o monge o dirige e o inclina ao conhecimento da lembrança de vidas passadas. Ele lembra suas múltiplas vidas passadas ... em seus modos e detalhes.

Sem dúvida, muitos praticantes crentes tomam passagens como essas como evidência suficiente por si só para estabelecer a verdade do renascimento. Afinal, o Buda era um homem incomumente brilhante e perspicaz, alguém que não construía histórias fantasiosas sem motivo. Se ele disse isso, deve-se tomá-lo como pelo menos uma hipótese razoável.

Dito isto, o Buda também nos disse para não aceitarmos o
Darma simplesmente por sua palavra: deveríamos investigá-lo nós mesmos. Para esse fim, um punhado de ocidentais contemporâneos tentou encontrar evidências de renascimento. O mais proeminente entre eles é o psiquiatra Ian Stevenson, que afirmou descobrir evidências de memórias de vidas passadas em crianças pequenas, bem como vínculos entre marcas de nascença e causas de morte em vidas anteriores. Ele reuniu as histórias em papéis e livros, que os budistas contemporâneos, como Ajahn Brahm e Bhikkhu Bodhi, acreditam ser uma evidência adicional convincente do renascimento budista.

Problemas com a evidência I: questões internas

Antes de recorrer a interpretações mais contemporâneas, há problemas com as evidências apresentadas, mesmo em seus próprios termos. O Buda afirma no MN 39 que ele guarda memórias de eras de nascimentos anteriores. Se assumirmos que uma vida durou em média vinte anos, cem mil nascimentos nos levarão a um tempo há cerca de dois milhões de anos. Os humanos modernos (
homo sapiens) originaram cerca de dez mil nascimentos anteriores, nessa escala, de modo que naquele momento o Buda estaria se lembrando de ancestrais pré-humanos. Ou seja, há mais de dez mil nascimentos atrás, o bodhisatta (como ele teria sido na época) não poderia ter nascido no reino humano, pois não havia humanos. E embora as origens da linguagem sejam nebulosas, isso é provavelmente muito antes do surgimento das línguas modernas. No entanto, não há menção nos suttas de que sua aparência, comida ou estilo de vida do clã teriam divergido radicalmente das cidades estabelecidas na Índia doSéculo Antes da Era Comum.

Se levarmos esse período de volta às eras da contração e expansão cósmica, os problemas apenas se ramificam. Cerca de 700.000 a um milhão de vidas e estamos no pré-hominídeo.

Nesse ponto, certamente não há linguagem desenvolvida, e o
bodhisatta não teria nome. Ele poderia ter sido apenas uma ou outra variedade de animais, mas mesmo assim, os animais remontam apenas entre 600 e 700 milhões de anos.

Antes disso, não está claro que o
bodhisatta poderia ter renascido na Terra, pelo menos seria o caso se assumirmos que apenas os animais têm a consciência disponível para carma e renascimento.

Certamente, o Buda poderia ter renascido em outros planos ou planetas, mas mais uma vez não há menção de vastas divergências no plano corporal, na linguagem, na cultura ou nos arredores que indicariam tal renascimento. De fato, as evidências fornecidas no MN 39 são consistentes com um mundo em que os seres humanos sempre existiram de maneira semelhante ao tempo do próprio Buda. Se isso é evidência de renascimento, não é muito convincente. Mais convincentes teriam sido algumas histórias inexplicáveis sobre mudanças sociais, linguísticas e morfológicas quando o Buda se retirou para as memórias do passado distante.

O trabalho de Ian Stevenson é igualmente problemático, mesmo em seus próprios termos. Em primeiro lugar, de dentro de um contexto budista tradicional, a capacidade de ver vidas passadas não é algo que devemos esperar de crianças pequenas. Em vez disso, deveria ser uma das três formas de "conhecimento superior" disponível para um monge em treinamento avançado. Então, por que um budista tradicional deve aceitar essas histórias pelo valor de face é um enigma. Também existem problemas doutrinários em torno de se o renascimento é instantâneo ou envolve algum tempo prolongado "entre vidas". As histórias de Stevenson ap
oiam a última conclusão, mas, pelo que entendi, algumas escolas budistas rejeitam esse movimento.

Além disso, o máximo que essas histórias poderiam estabelecer é que algumas pessoas renascem às vezes. As histórias de Stevenson não são encontradas em todos os lugares; de fato, são muito incomuns e não estabelecem mais do que um único renascimento para cada vida. Devemos assumir que as pessoas que não se lembram de tais histórias também renascem? Devemos assumir que as pessoas que se lembram de um único renascimento renasceram inúmeras vezes? Se sim, com que evidência?

Problemas com a Evidência II: Confiabilidade da História do Buda

Estudos contemporâneos refutaram a noção de que a memória é semelhante a um filme, retida com total fidelidade, se ao menos pudéssemos chegar lá. Em vez disso, a memória tem mais em comum com o planejamento, na medida em que é uma construção criativa a partir de traços vagos e codificados. Como o psicólogo Frederic Bartlett colocou na década de 1930,

... se considerarmos a evidência e não o pressuposto, a lembrança parece ser muito mais decisivamente uma questão de construção do que uma mera reprodução.

Lembrar não é a re-excitação de inúmeros traços fixos, sem vida e fragmentários. É uma reconstrução ou construção imaginativa, construída a partir da relação de nossa atitude em relação a toda uma massa ativa de reações ou experiências passadas organizadas.


A psicóloga Elizabeth Loftus esteve na vanguarda de tais estudos, particularmente com as chamadas "falsas memórias" e questões de confabulação. Ela e outros mostraram como é relativamente fácil plantar falsas memórias usando perguntas principais, e além disso, imaginar eventos falsos deu aos sujeitos mais confiança na realidade das falsas memórias.

O Visuddhimagga de Buddhaghosa (XIII.24) sugere que devemos encontrar nossa primeira vida passada rastreando nossas memórias de volta "em ordem inversa" até chegarmos à nossa própria concepção e, em seguida, voltando antes desse primeiro momento. Pelo que entendi, esta é a metodologia típica aplicada hoje na prática budista tradicional. O problema desse método é que ele assume o que a psicologia contemporânea sabe ser falsa: que a memória é semelhante a um filme, que pode ser, sem problemas, "rebobinado" em ordem inversa, mantendo a fidelidade.

De fato, as lembranças de longo prazo nem aparecem até o primeiro ano de vida. Portanto, qualquer suposta memória que vem de uma época anterior à idade de um ano é evidência de confabulação, não de realidade. De fato, o psicólogo Nicholas Spanos mostrou que essas falsas memórias infantis poderiam ser implantadas através de questionamentos sugestivos.

Spanos e seus colegas descobriram que a grande maioria de seus sujeitos era suscetível a esses procedimentos de plantio de memória. Tanto os participantes hipnóticos quanto os orientados relataram memórias infantis. [...] daqueles que relataram lembranças da infância, 49% achavam que eram lembranças reais, em oposição a 16% que alegaram que eram apenas fantasias.

Estados alterados de consciência, como os que se obtêm no
jhana profundo, quando acompanhados de sugestões de professores, colegas e textos de que é possível regredir a memória do primeiro ano de vida para uma vida passada, são apenas os tipos de situações que se poderia esperar resultar em falsa confabulação de memória.

Como Loftus diz,

É altamente improvável que um adulto possa recordar memórias episódicas genuínas desde o primeiro ano de vida, em parte porque o hipocampo, que desempenha um papel fundamental na criação de memórias, não amadureceu o suficiente para formar e armazenar memórias duradouras que podem ser recuperado na idade adulta.

A situação é exacerbada, é claro, se assumirmos que essas memórias se estendem ao tempo da concepção, antes que alguém tivesse um cérebro ou sistema nervoso em funcionamento. Além disso, se quisermos supor que alguém treinado de acordo com o sistema do Buda tivesse a capacidade de recordar um número incontável de vidas passadas em sua totalidade, deve poder acessar um repositório de informações maior que qualquer sistema físico finito. O cérebro possui apenas capacidade limitada de armazenamento. Todas essas questões implicam que,
se a alegação de renascimento budista for verdadeira, as memórias devem ser armazenadas em algum lugar separado do cérebro.

Problemas com a evidência III: Confiabilidade e a história de Stevenson

Embora possamos supor que Stevenson e seus súditos eram, como Buda, sinceros sobre suas reivindicações, a questão é a que essas reivindicações equivalem. Em particular, a cada reivindicação de um evento extraordinário, sempre há duas opções. Como David Hume disse em sua pergunta:

[Nenhum] testemunho é suficiente para estabelecer um milagre, a menos que seja de tal tipo, que sua falsidade seja mais milagrosa do que o fato que se esforça para estabelecer.

Em outras palavras, dadas novas evidências, sempre temos que pesar duas probabilidades. Nesse caso, é mais provável que as histórias de renascimento coletadas por Stevenson sejam verdadeiras e precisas, ou é mais provável que ele tenha sido menos do que minucioso em suas análises das evidências? Basta dizer que há muito espaço para ceticismo honesto sobre as evidências de Stevenson e a metodologia que ele usou para coletar essas evidências.

Em particular,

Existe ... o problema óbvio do viés de confirmação. O ideal, segundo Stevenson, era procurar histórias de PLE [Past-Life Experience, experiências de vidas passadas] e depois tentar confirmá-las. A falha em confirmar, no entanto, não conta contra a hipótese da reencarnação. De fato, nada pôde ser descoberto usando os métodos de Stevenson que poderiam desconfirmar a hipótese de reencarnação. Muitos cientistas considerariam isso uma falha fatal em sua metodologia. Outro problema é que parece haver explicações alternativas, não paranormais, para todos os seus dados.

Não há como, além de limitar as pessoas ao nascer e registrar todas as evidências às quais já foram expostas, saber com certeza se as histórias contadas pelas crianças as alcançaram por outros meios que não as memórias de vidas passadas. Além disso, em qualquer coleta de grandes quantidades de dados, sempre haverá coincidências aparentemente milagrosas apenas por acaso. Pense aqui nas semelhanças supostamente miraculosas entre os assassinatos de Lincoln e Kennedy.
Snopes.com tem um bom resumo das evidências, caso você esteja interessado; o principal problema aqui é o uso indevido de estatísticas. Para saber se essas coincidências são realmente milagrosas, é necessário fazer uma análise estatística completa dos dados, e isso exige que o experimento seja adequadamente controlado. A metodologia de Stevenson não se prestava a esses controles e, portanto, não valia a pena estabelecer nada mais do que contar boas histórias.

Talvez seja por esse tipo de razão que o
New York Times disse sobre Stevenson ao falecer,

Desprezado pela maioria dos cientistas acadêmicos, o Dr. Stevenson era para seus partidários um gênio incompreendido, corajosamente empurrando os limites da ciência. Para seus detratores, ele era sincero, obstinado, mas, no final das contas, mal orientado, desviado pela credulidade, pensamentos desejosos e uma tendência a ver a ciência onde outros viam superstições.

Problemas com a evidência IV: reivindicações extraordinárias

Se a noção de renascimento e memória de vidas passadas do Buda é verdadeira e precisa, isso implica que nossa compreensão da mente e do cérebro é fatalmente falha e que, de fato, a memória não depende do cérebro para armazenamento ou recuperação. Implica ainda que a consciência não depende da existência de um cérebro ou sistema nervoso em funcionamento, na medida em que um zigoto unicelular deve apoiar a consciência. Talvez seja possível rejeitar tal afirmação de dentro do sistema e dizer que a consciência que liga o renascimento ou "gandhabba" (MN 38.26, MN 93.18, DN 15.21) entra no feto quando o sistema nervoso pode suportar alguma forma de atividade mensurável. O problema com essa afirmação é que 'atividade neural mensurável' será uma questão vaga, não o tipo de afirmação de tudo ou nada que uma 'descida da consciência no útero' (DN 15) parece implicar.

Essa noção de renascimento implica ainda que a nossa compreensão da causa física é falha, pois a morte de uma pessoa distante da concepção no tempo e no espaço faz uma diferença física real para certas estruturas neurais em desenvolvimento: pelo menos os envolvidos na recuperação de memórias de onde quer que residam e transformá-los em comportamento físico. Se isso acontecer, poderemos encontrar evidências para isso através de violações da conservação de energia no feto em desenvolvimento. Nada disso foi medido, é claro. Alternativamente, às vezes os budistas tradicionais explicam esses tipos de problemas em termos de alguma forma de "matéria sutil" que carrega a consciência. No entanto, a menos que a "matéria sutil" possa ser levantada em termos de forças e partículas fundamentais reais, a explicação equivale a acenar com a mão.

Toda a noção de consciência do renascimento pressupõe que as memórias não são armazenadas na rede neural do cérebro ou que, se estiverem, esse sistema de armazenamento pode de alguma forma ser transmitido através do tempo e do espaço por meios não físicos ou indetectáveis. Essa imagem só se torna mais implausível quando nos lembramos de quanta informação está em questão: o Buda afirma que podemos recordar literalmente eons de vidas.

Essa noção de renascimento também deixa inexplicável como é que a consciência do renascimento se move de vida em vida: como ela sabe para onde ir? Se é capaz de perceber coisas ao seu redor, como ovos aguardando fertilização, como é que essa percepção ocorre? Dete
cta fótons? Nesse caso, ao fazê-lo, ele próprio deve perturbar esses fótons e ser detectável. Se processa informações, deve fazê-lo usando algum tipo de energia e, portanto, mais uma vez ser detectável. Talvez seja necessário repetir que não há evidências remotamente convincentes para tais aparições fantasmagóricas.

Se, por outro lado, a transmissão for instantânea, isso exigiria coincidência temporal entre morte e concepção que nem sempre é garantida, particularmente entre populações pequenas (por exemplo, proto-humanas). E mais uma vez, o movimento da vida para a vida permanece obscuro: não há uma explicação convincente de como a consciência da morte toma consciência da concepção coincidente, nem de como ela se move para lá para 'descer para o útero'.

Em suma, simplesmente não há mecanismo de ação plausível para que nada disso aconteça, e não há espaço em nosso melhor entendimento da física elementar que permita tais mecanismos.

O entendimento científico contemporâneo da mente, cérebro, memória e mecanismos de mudança física é baseado em uma vasta quantidade de evidências, coletadas ao longo de muitos séculos. Temos uma boa id
eia de como o mundo funciona. Sabemos que a mente está fundamentalmente integrada aos processos físicos no cérebro e no sistema nervoso. Sabemos disso com base em muitas linhas de evidências separadas, mas convergentes, de estudos em animais a estudos de desenvolvimento, estudos de imagens cerebrais, estudos de lesões cerebrais e estudos de adultos saudáveis.

Dado que, como pano de fundo, quaisquer reivindicações de renascimento ou memórias verídicas de vidas passadas são literalmente extraordinárias e, seguindo o ditado humeano de Carl Sagan, podemos dizer que "reivindicações extraordinárias exigem evidências extraordinárias". As evidências fornecidas até agora, tanto em termos textuais da Canon quanto de autores modernos como Stevenson, não chegam a esse nível.

O Buda e o mundo

O Buda não era um cientista mais do que Aristóteles ou Confúcio, e não deveríamos esperar que ele tivesse uma visão particular das armadilhas da confabulação de memória. Não obstante, tal confusão é a explicação mais provável para as histórias canônicas de memórias de vidas passadas. Sabemos que a confabulação ocorre, sabemos que ocorre quando recebemos certas sugestões, e sabemos que o processo envolvido na obtenção de memórias de vidas passadas, pelo menos na tradição dos comentários, envolve a obtenção de memórias que, de outra forma, seriam impossíveis de produzir veridicamente: aquelas de quando alguém tinha menos de um ano de idade, de fato até aqueles de quando era mero zigoto.

As histórias coletadas de vidas passadas de Stevenson também não alcançam o nível de credibilidade necessário para questionar nosso conhecimento da relação entre mente e cérebro e nosso conhecimento de causação física. Como o psicólogo Barry Beyerstein colocou em uma resenha de um livro sobre carma e reencarnação,

Uma razão convincente para duvidar que um pacote de traços e habilidades de personalidade possa pular de uma pessoa moribunda para o limbo e, a partir de então, para um embrião recém-concebido, é a ligação evidente de todos os atributos psicológicos a estruturas e funções altamente específicas no cérebro individual.

Nada disso prova estritamente que o renascimento não ocorre, nem prova que algumas pessoas não têm memórias verídicas de vidas passadas. Tudo o que a evidência e a razão podem fazer é iluminar as alternativas mais plausíveis. Essas alternativas podem, por tudo isso, estar incorretas. Se elas estiverem incorretas, no entanto, deveríamos esperar pelo menos evidências adicionais, experimentação melhor controlada, mostrando que é possível recuperar memórias que não estão codificadas no tecido neural, que é possível sustentar a consciência em organismos que não possuem sistema nervoso, que é possível que a causa mental atravesse o tempo e o espaço e altere os substratos físicos.

As experiências negativas nesse sentido são numerosas, embora raramente cheguem à primeira página do jornal local, pois ninguém tem motivos para promovê-las. Pode-se encontrar menção a eles em lugares como a revista Skeptical Inquirer ou descritos em sites como o Skeptic's Dictionary ou o Quackwatch.

É por razões como estas que qualquer prática budista contemporânea, cientificamente informada, deve rejeitar a crença no renascimento e sua causa cármica associada. O Caminho é rico o suficiente sem eles. E embora possamos fazer bom uso do carma e do renascimento como metáfora para nossa experiência vivida de mudança momento a momento, ou de ação hábil e inábil, simplesmente não podemos fazer mais nada e esperamos acabar com um sistema que é compatível com nossa melhor compreensão da maneira como o mundo funciona.


Sobre o autor


Doug Smith pratica meditação há muitos anos. Optou por fazer um doutorado em Filosofia em vez de Estudos Budistas, cursando uma especialização em Estudos do Sul da Ásia. Ele também é um cientista cético de longa data. Lendo o livro Confissões de um ateu budista, de Steven Batchelor, se voltou para a possibilidade de uma prática budista secularizada, que não exigiria crença no sobrenatural. Smith agora está retornando a um estudo mais aprofundado sobre o que mais o interessava sobre o budismo na escola: a Canon Pali.


terça-feira, 12 de maio de 2020

Reencarnação, Metempsicose e Renascimento

Por Paulo Stekel


https://youtu.be/u3jTuKTR7Bg

Vlog 006 de "Ciência Espiritual", o vlog de Paulo Stekel postado em seu canal no Youtube (youtube.com/paulostekel) e no Watch do Facebook em sua página de fãs Stekel (facebook.com/canalpaulostekel). Confira!

Neste sexto vlog, Stekel fala sobre as diferenças entre três formas de encarar as outras vidas: reencarnação, metempsicose (ou metensomatose) e renascimento.

Reencarnação, o termo mais abrangente e utilizado no mundo moderno, se refere mais ao espiritismo e formas do espiritualismo, bem como à doutrina cabalística de Gilgul de Isaac de Luria.

Metempsicose é a forma como as outras vidas são encaradas no hinduísmo e em outras culturas, antigas e modernas.

Renascimento é um conceito de difícil compreensão para a maioria vindo do budismo, por ser necessário entender a ideia de continuum mental.

Numa linguagem o mais simplificada possível, Stekel procura esclarecer sobre estas três visões de outras vidas.

Confira os cinco vlogs já lançados:

Vlog 001 - A Busca da Verdade

https://www.youtube.com/watch?v=J5BgUbh5n2M&t=1s

Vlog 002 - Nosso Lado Sombrio

https://www.youtube.com/watch?v=Q3TKQCaEXUo&t=145s

Vlog 003 - Ufologia Interdimensional

https://www.youtube.com/watch?v=YYjJwnTYo38&t=101s

Vlog 004 - Cinco Hipóteses para a Consciência

https://www.youtube.com/watch?v=UR2ArBfkP8M

Vlog 005 - O Poder do Medo

https://youtu.be/Ph-hrMtNN8M

Música de abertura composta e produzida por Stekel
(ouça músicas de Stekel em https://www.reverbnation.com/stekelmusic/songs)

Vlog Ciência Espiritual é uma playlist do canal de Paulo Stekel no youtube e Facebook dedicada a Ciência, Espiritualidade, Religião, Filosofia, Arte, Cultura e Visão Sistêmica. Comentários sobre livros, artigos e filmes serão comuns neste novo vlog.

ENVIE suas perguntas, dúvidas, comentários e sugestões de tema para os próximos vídeos para o email pstekel@gmail.com

sexta-feira, 1 de novembro de 2019

O Crepúsculo dos Tulkus

Por Paulo Stekel


O que disse o Dalai Lama

Recentemente, o meio budista, especialmente o ambiente do Vajrayana, mais conhecido por “budismo tibetano”, foi abalado por notícias (https://www.lionsroar.com/dalai-lama-suggests-ending-tibetan-reincarnation-system) trazendo declarações do Dalai Lama, onde este sugere acabar com o sistema de “reencarnação” tibetana. Em uma reunião com estudantes na Índia, no dia 25 de outubro de 2019, ele teria dito que “o costume de reconhecer lamas reencarnados pode ter tido seu dia” (orig. “the custom of recognizing reincarnate lamas may have had its day”). Ainda disse que o sistema de “reencarnação” nunca existiu na Índia, de onde provém o Vajrayana, e não há reconhecimento de “reencarnações” de grandes mestres budistas indianos como Nagarjuna, ou o próprio Buda. Sim, é verdade. Isso nunca aconteceu no Budismo em nenhuma outra linhagem antes do Vajrayana implementar esta prática duvidosa.

O Dalai Lama disse que o sistema de reconhecimento de lamas “reencarnados” - chamado tulkus, em tibetano - está conectado à sociedade feudal tibetana e questionou a existência de tal tradição em uma sociedade democrática. Num lampejo de serenidade, o Dalai Lama reconhece o que todas as demais escolas budistas fora do Vajrayana sempre disseram. O sistema de reconhecimento dos tulkus no Budismo Tibetano só serviu a propósitos políticos em meio às grandes rusgas entre as diversas escolas (Gelugpa, Nyingma, Sakya, Kagyü e Bönpo) e não encontra base alguma nas doutrinas budistas anteriores.

Na declaração, o Dalai Lama abriu seu coração: “Sinto que é hora de voltarmos ao sistema indiano de budismo” (orig. “I feel it’s time that we revert to the Indian system of Buddhism”). Este sistema é o Vajrayana indiano, antes de sua mescla com os elementos xamânicos e culturais originalmente tibetanos. Certamente, é uma posição que agrada a muitos praticantes tibetanos do Vajarayana, a muitos praticantes ocidentais e a todos os budistas das linhagens anteriores ao Vajrayana, pois recupera uma coerência perdida de modo vexatório desde que os invasores mongóis patrocinaram a instituição tulku dos Dalai Lamas, no Séc. XV. Os tulkus das outras linhagens tibetanas existem a mais tempo ainda. No budismo tibetano, o costume de 800 anos de reconhecimento de lamas “reencarnados” é o sistema mais comum de sustentar linhagens espirituais e de garantir influência político-religiosa. Tanto é assim, que nos últimos anos, o governo chinês garantiu sua influência política no Tibete ao buscar o controle total das linhagens de “reencarnação”.

Por fim, o Dalai Lama ainda declarou: “As instituições precisam ser propriedade do povo, não de um indivíduo. Como minha própria instituição, o escritório do Dalai Lama, eu sinto que isso está ligado a um sistema feudal. Em 1969, em uma de minhas declarações oficiais, eu mencionei que deveria continuar (...) Mas agora, eu sinto, não necessariamente. Ela deve ir (...) O sistema deveria terminar, ou pelo menos mudar com os tempos de mudança. Houve casos de certos lamas que usam a reencarnação (para conseguir o que querem) mas nunca prestam atenção ao estudo e à sabedoria.” (orig. “Institutions need to be owned by the people, not by an individual. Like my own institution, the Dalai Lama’s office, I feel it is linked to a feudal system. In 1969, in one of my official statements, I had mentioned that it should continue… But now I feel, not necessarily. It should go… The system should end, or at least change with the changing times. There have been cases of individual lamas who use reincarnation [to get their way]… but never pay attention to study and wisdom.”).


Entendendo a instituição “tulku”

Um tulku (tibetano sprul sku [se lê tul-ku]) é, no budismo tibetano, um lama que conseguiu, através das práticas de phowa (transferência de consciência) e pela obtenção de siddhis (poderes místicos), ter a capacidade de escolher conscientemente renascer, às vezes por mais de uma vez, de maneira a continuar seus votos de Bodhisatva. O mais famoso exemplo é a linhagem dos Dalai Lamas; o atual Dalai Lama, Tenzin Gyatso, é tido como o 14º renascimento, o primeiro sendo Gendun Drup (1391–1474). Na tradição Vajrayana acredita-se que a linhagem mais antiga de tulkus seja a dos Karmapas (líderes espirituais da linhagem Karma Kagyu), que se iniciou com Düsum Khyenpa (1110-1193). Neste caso, a tradição teria mais de 800 anos.

O termo tulku é a tradução para o tibetano do termo filosófico sânscrito nirmanakaya. De acordo com o sistema filosófico do trikaya, ou “três corpos do Buda”, o nirmanakaya é o “corpo” do Buda, no sentido de “corpo-mente” ou “nome-forma” (sânscrito: nāmarūpa). Assim, a pessoa de Sidarta Gautama, o Buda histórico, é um exemplo de nirmanakaya. No contexto do budismo tibetano, o tulku costuma se referir à existência corpórea dos mestres iluminados budistas em geral.

Contudo, numa pesquisa mais apurada (Khenpo Ngawang Pelzang. A Guide to the Words of My Perfect Teacher. Boston: Shambhala. 2004; Valentine, Jay (2013). "Lords of the Northern Treasures: The Development of the Tibetan Institution of Rule by Successive Incarnations". UVA Library | Virgo.; Logan, Pamela (2004). "Tulkus in Tibet". Harvard Asia Quarterly 8), descobrimos que a palavra tibetana 'sprul' (se lê “tul”]) era um verbo na literatura tibetana antiga usado para descrever o imperador (tib. ‘btsan’, se lê “tsen”) assumindo uma forma humana na terra. Assim, a ideia radical de assumir uma forma corporal é uma construção religiosa local alheia ao budismo indiano e a outras formas de budismo, como o Theravada e o Zen. Com o tempo, as ideias religiosas tibetanas pré-budistas foram assimiladas pelo novo budismo. Então, ‘sprul’ tornou-se parte de um substantivo composto, 'sprul.sku' ("corpo da encarnação" ou 'tulku') e 'btsan', o termo para o governante imperial do Império Tibetano, tornou-se uma espécie de divindade da montanha. O termo tulku tornou-se associado à tradução do termo filosófico sânscrito nirmanakaya.

Além dos tibetanos e de povos relacionados, o budismo tibetano é uma religião tradicional dos mongóis e de seus parentes. A palavra mongol para tulku é qubilγan, embora os tulkus também possam ser chamados pelo título honorífico qutuγtu (tib. 'phags-pa e Sânsc. ārya ou superior) ou hutagt no dialeto padrão de Khalkha. De acordo com A Luz da Sabedoria Indestrutível Destemida de Khenpo Tsewang Dongyal, o termo tulku: “designa alguém que é 'nobre' (ou 'altruísta' de acordo com o uso de Buda) e usado nos textos budistas para denotar um ser altamente realizado que alcançou o primeiro bhumi, um nível de realização que é verdadeiramente sem ego ou superior.”

A palavra em chinês para tulku é huófó, que literalmente significa “Buda vivo” e às vezes é usada para significar tulku, embora o Dalai Lama tenha dito que isso é uma tradução incorreta, pois um tulku não é necessariamente um ser realizado.

Jay Valentine resume a mudança no significado da palavra tulku ao longo do tempo: “Este termo que foi originalmente usado para descrever o Buda como uma ‘emanação mágica’ da iluminação, é melhor traduzido como ‘encarnação’ ou ‘encarnação firme, inabalável’ quando usado no contexto do sistema tulku para descrever patriarcas que retornam de forma confiável à forma humana.” [Valentine, Jay (2013). "Lords of the Northern Treasures: The Development of the Tibetan Institution of Rule by Successive Incarnations". UVA Library | Virgo]

Como acaba de afirmar o próprio Dalai Lama, o sistema tulku de preservar linhagens do Dharma não operava na Índia budista. A primeira linhagem tulku do Tibete é a dos Karmapas. Depois que o primeiro Karmapa morreu, em 1193, um lama teve várias visões de uma determinada criança como sendo o seu renascimento. Essa criança (nascida em 1205) foi reconhecida como o Karmapa, iniciando assim a tradição tibetana dos tulku.

O problema, como alertado pelo Dalai Lama, é que esta instituição foi usada para fins político-religiosos e também para objetivos pessoais egoístas dos próprios lamas reconhecidos como renascimentos de mestres anteriores. Então, é hoje uma instituição viciada que não traz nenhum benefício real para o Dharma budista. Deve, então, ser encerrada, começando pela instituição Dalai Lama, que é o tulku mais influente no Tibete e no Vajrayana.

O Dalai Lama levantou o assunto na declaração recente em resposta a uma pergunta sobre seu sucessor. Anteriormente, ele tinha dito que poderia não ter sucessor, ou que então seu sucessor poderia ser escolhido pelo povo tibetano. A China, que o vê como um terrorista perigoso, disse que o Dalai Lama deve reencarnar e que seu sucessor terá que ser aprovado pelo Estado. Um absurdo! Como um governo totalmente antirreligioso quer controlar uma instância de domínio exclusivo da religião? Hipocrisia e aproveitamento.

Mas, o Dalai Lama sozinho não tem autoridade para fazer essa mudança no budismo tibetano como um todo. Claro que, como líder sênior da Escola Gelug do Budismo Tibetano e ex-chefe de estado do Tibete, ele exerce uma grande influência no Budismo Tibetano. No entanto, ele não tem nenhuma autoridade sobre as outras três principais escolas do budismo tibetano - Sakya, Kagyu e Nyingma -, todas com suas próprias linhagens de tulkus renascidos. Mas, a partir da declaração atual, que terá certamente consequências, quiçá as demais linhagens repensem sobre suas instituições tulku e também encerrem esta prática de vez, recolocando o Vajrayana no patamar do Budismo indiano de onde se originou. O que o Dalai Lama iniciou agora é o crepúsculo da instituição tulku, mas o ocaso completo ainda demorará um pouco.

A história do desenvolvimento da instituição tulku dos Dalai Lamas é controversa. O atual 14º Dalai Lama é considerado pela tradição o sucessor de uma linhagem de tulkus que se acredita serem encarnações de Avalokiteśvara, um Bodhisattva de compaixão. O nome é uma combinação da palavra mongólica dalai que significa “oceano” ou “grande” (proveniente do título mongol Dalaiyin qan ou Dalaiin khan, traduzido como Gyatso em tibetano) e a palavra tibetana bla-ma (se lê “lama”), significa "mestre, guru".

Desde a época do 5º Dalai Lama (Séc. XVII), sua imagem passou a ser um símbolo da unificação do Tibete. O Dalai Lama era uma figura importante da tradição Gelug, que era política e numericamente dominante no Tibete Central, mas sua autoridade religiosa foi além das fronteiras sectárias. Embora ele não tivesse um papel formal ou institucional em nenhuma das tradições religiosas, lideradas por seus próprios lamas, era um símbolo unificador do estado tibetano, representando valores e tradições budistas acima de qualquer escola específica.

De 1642 a 1705 e de 1750 a 1950, os Dalai Lamas ou seus regentes chefiaram o governo tibetano em Lhasa. Este governo tibetano também desfrutou do patrocínio e proteção dos primeiros reis mongóis Khoshut e Dzungar Khan (1642-1720) e depois dos imperadores da dinastia Qing liderada por Manchu (1720-1912). Na verdade, não fosse o patrocínio e a proteção dos reis mongóis, os Dalai Lamas nunca teriam se estabelecido no poder. A ascensão de um membro da linhagem Gelug ao poder desgostou as outras linhagens, de modo que sempre houve rusgas e escaramuças pelo Tibete fomentadas pelas divergências religiosas, políticas e territoriais. Não há como negar este fato. Qualquer um que estude a história do Tibete a partir de diversas fontes chegará às mesmas conclusões.

Em 1913, vários representantes tibetanos, incluindo Agvan Dorzhiev (monge Gelug de origem russa), assinaram um tratado entre o Tibete e a Mongólia, proclamando reconhecimento mútuo e sua independência da China. No entanto, a legitimidade do tratado e a independência declarada do Tibete foram rejeitadas pela República da China e pela atual República Popular da China. Os Dalai Lamas chefiaram o governo tibetano depois disso, até 1951.

As visões budistas sobre renascimento e reencarnação

O termo “rebirth” é muito usado em textos em Inglês para traduzir o que chamamos no meio budista de “renascimento”, que é a versão budista do que os ocidentais chamam imprecisamente de “reincarnation” (reencarnação). A visão ocidental, tanto espírita quanto teosófica, é bem conhecida. A versão da Teosofia vem do Vedanta indiano, que crê na existência de um Atma imortal, uma espécie de “alma”, “espírito” ou partícula imortal do Ser que sempre retorna em um novo corpo, inclusive de animais (metempsicose). A versão do Espiritismo de Kardec acredita que esta partícula é o Espírito, que reencarna muitas vezes, nunca como animal após atingir a condição humana, e evolui até atingir a condição de Espírito de Luz ou Espírito Perfeito. No caso do Espiritismo, estes espíritos podem ser sintonizados por pessoas vivas através do fenômeno da mediunidade, algo que a Teosofia considera uma prática inferior.

No Budismo, mesmo em meio à divergência das muitas escolas, a coisa é vista de modo muito distinto. O renascimento sempre foi um ensinamento central na tradição budista. Os textos do cânone Páli indicam que o Buda, antes do despertar, buscou uma felicidade não sujeita aos caprichos de repetidos nascimentos, envelhecimento, doenças e morte. Quando finalmente alcançou a libertação do sofrimento, reconheceu que havia alcançado seu objetivo porque tocara uma dimensão que não só estava livre do nascimento, mas também o libertara de voltar a renascer.

Mas, como o Buda explanou sobre anatma (não-eu ou, mais precisamente, não-atma, negação de uma partícula imortal), então, o que renasce? Deste ponto de vista, nada “reencarna”. A ideia de reencarnação propõe que uma qualidade de vida sólida é passada para o próximo ser. Trata-se de alguma substância sólida sendo transmitida.

Por outro lado, na perspectiva do renascimento, a continuação, o continuum de uma mente, se dá da mesma forma que, de uma semente, nasce uma árvore enorme. A semente dá lugar à árvore, ou a árvore é ainda a semente, ou nem uma coisa nem outra, mas a continuidade de uma coisa na outra, como um continuum? De qualquer forma, a vida continua, pois há mais em nossas vidas do que o diminuto espaço de tempo entre o nascer e o morrer. Algo continua, mas, ao mesmo tempo, nada continua. De certa forma, somos como um fluxo contínuo, um continuum mental. É como o rio que nomeamos. Ele muda o tempo todo, a água passa, mas o conceito cristalizado “rio” parece-nos evidente. Contudo, ele é provisório, está se transformando de um aspecto para outro a cada instante.

O lama Chögyam Trungpa disse: Essa transformação completa torna possível renascer. Se uma coisa continuasse o tempo todo, não haveria possibilidades de renascer e evoluir para outra situação. É a mudança que é importante em termos de renascimento, e não uma coisa que continua. (…) Na verdade, o renascimento ocorre a todo momento, a todo instante. Todo instante é morte; todo instante é nascimento. É um processo de mudança: não há nada que você possa entender; Tudo está a mudar. Mas há alguma continuidade, é claro - a mudança é a continuidade.” (The Collected Works of Chögyam Trungpa, Vol. VI)

Quando olhamos alguém, vemos cinco elementos (sânsc. skandha): forma, sentimentos, percepções, formações mentais e consciência. Não existe alma, nem eu, fora deles, de modo que, quando os cinco elementos se dissolvem, as ações (Sânsc. karma) realizadas em vida são a sua continuação. O que se fez e se pensou ainda está lá como energia. Não se precisa de uma alma, ou um eu, para continuar. Mas, a continuação é um ponto pacífico nas diversas escolas budistas.

A grande questão é que mudamos tanto através das inúmeras vidas e, mesmo nesta vida presente, que é sem sentido falarmos em um eu que migra de uma vida a outra. Não é assim. É um continuum, uma energia, uma tendência, um potencial ou qualquer outro termo vago. É um mistério ainda em aberto. A visão budista do renascimento refuta a noção de uma alma imortal (que reencarna), porque nega que haja algo imutável nos aspectos físicos ou mentais dos fenômenos.

A posição budista sobre o renascimento baseia-se na chamada visão do caminho do meio, que evita dois extremos: a negação da continuação da consciência ou da mente por completo (a posição do materialismo científico, em geral), e a posição de um princípio psíquico imutável (atman ou alma, ou algum outro conceito para descrever um eu maior). Conforme o Buda, corpo e mente estão sujeitos a mudanças contínuas e, mesmo na morte, o que é transferido de uma vida para a outra não é um princípio psíquico imutável, mas diferentes elementos psíquicos todos juntos (Sânsc. samskaras - memórias, impressões diversas, etc.).

A noção de que existe uma conexão entre esta vida e os eventos de nossa existência anterior e futura, decorre da compreensão budista da lei natural de causa e efeito. No nível corporal, no caso de nossa saúde física, por exemplo, sabemos que os eventos do passado afetam o presente e os do presente, o futuro. Da mesma forma, no domínio da consciência, também existe esse mesmo continuum causal entre os eventos do passado, presente e futuro.

Então, seja lá o que “renasce” como um tulku, se é que renasce, deve se inserir neste contexto acima, não no contexto de “reencarnação”.

A polêmica questão do Guru Yoga

Quanto à origem da instituição Lama (palavra tibetana para o sânscrito “guru”), em suas declarações recentes, o Dalai Lama foi categórico: “Foi desenvolvido no Tibete. Eu acho que foi por causa de alguma conexão com o sistema feudal. Muitas instituições tibetanas estão relacionadas ao feudalismo. Sinto que é hora de voltarmos ao sistema indiano de budismo, no qual não havia sistema Lama.” (orig. “It developed in Tibet. I think it was because of some connection with the feudal system. Many Tibetan institutions are related with feudalism. I feel it’s time that we revert to the Indian system of Buddhism in which there was no Lama system.” - https://www.tribuneindia.com/news/nation/institution-of-lama-has-feudal-origins/852439.html).

No Vajrayana, que é conectado ao sistema tântrico indiano, a figura do guru (mestre) é muito importante. Se ele for um guru “reencarnado” então, mais ainda. A profusão de lamas que também são tulkus no Vajrayana é muito grande. Contudo, fica evidente que o sistema tulku é cultural e feudal, nada conectado ao mundo moderno. Precisa ser revisto. Da mesma forma, o sistema Lama, que é uma diferenciação do que se vê em outras escolas budistas, nas quais o mestre ou professor do Dharma é considerado apenas um “kalyana mitra”, o bom amigo, o preceptor dos mais novos, a quem ensina por força de sua própria prática, conhecimento e sabedoria. Ele não é alguém para ser adorado, a quem se dirige preces devocionais intensas, como se vê no Vajrayana.

Há uma tendência no Budismo Vajrayana no Ocidente de não se formar mais professores do Dharma com o título de “lama” exatamente porque se percebeu o caráter cultural específico do sistema, com o qual os ocidentais não possuem qualquer conexão. Então, para o Vajrayana se expandir no Ocidente, o ideal é não se ter nem tulkus, nem lamas, mas professores/instrutores do Dharma, sem qualquer excesso de devocionalismo que cegue os praticantes ao que é mais importante, a prática e a compaixão.

Da mesma forma, isso talvez venha a coibir os abusos sexuais dos quais muitos lamas tulkus têm sido acusados nos últimos anos. Estes abusos são facilitados pela forma como o aluno deve tratar o guru no Vajrayana. Chama-se a isso de “guru yoga”, o yoga do guru, ou um modo de união com a natureza búdica do guru para se despertar a própria natureza búdica. A proposta é interessante, mas a práxis tem se mostrado abusiva e totalmente desconectada do comportamento da mentalidade ocidental. Deve ser adaptada, portanto.

Caminhos para um futuro mais coerente

A polêmica declaração do Dalai Lama não nos deve fazer pensar erroneamente que ele tenha dito que agora o Budismo não acredita mais em reencarnação (ou “renascimento”, que é o termo técnico mais apropriado no Budismo). Ele apenas não apoia mais a seleção de um lama como seu sucessor baseado nos processos tradicionais, pois eles refletem um sistema feudal, um dinossauro pré-histórico em meio à modernidade. Quando disse que acha melhor que se retorne ao sistema budista indiano, o fez porque neste sistema mais antigo os líderes espirituais eram selecionados com base em sua competência e conhecimento e não por serem considerados o renascimento de líderes já falecidos. É um pensamento certamente arrojado e progressista.

Como será o próximo capítulo desta história, não sabemos. Parece que o Dalai Lama que evitar, com suas recentes declarações, que venha a morrer em breve e, tendo mantido a instituição Dalai Lama, seu tulku “escolhido” venha a ser objeto de jogo político entre tibetanos e governo chinês. Uma jogada inteligente, mas que deveria ter sido feita há muito mais tempo. Poderia ter desviado a fúria chinesa de cima de sua imagem e até beneficiado mais a causa tibetana. O excesso de devoção dos tibetanos comuns, não os grandes eruditos, pela figura do Dalai Lama e dos tulkus em geral, tem prejudicado muito o povo tibetano desde o Séc. XVII. Ao mesmo tempo, foi uma espécie de “controlador da ordem social” neste período, contribuindo para manter o isolacionismo tibetano que, inclusive, custou caro quando o país foi invadido pelos chineses. Sabemos do isolacionismo por várias fontes, como Helena Blavatsky (tentou entrar no Tibete, mas não conseguiu), Alexandra David-Neel (entrou disfarçada de homem) e Heinrich Harrer (se tornou amigo do Dalai Lama), só para citar alguns.

Para que o Vajrayana tenha uma espécie de “renascimento” como proposta budista válida para a modernidade, é necessário expurgar os elementos religiosos feudais da prática que realmente importa: a libertação do sofrimento e o acesso à natureza búdica. Assim, voltará ao mesmo status do budismo indiano citado pelo Dalai Lama em suas declarações recentes. Sarva Mangalam! Que isso gere benefícios para todos os seres sencientes!

Sobre o autor



Paulo Stekel é instrutor de Meditação Não-dualista, orientador do Projeto Mahasandhi de Meditação Livre Não-Religiosa, pesquisador de Religiões e Espiritualidades, praticante budista desde 1995 (seu nome budista vajrayana é Pema Dorje), membro do NEDEC²- Núcleo de Estudos e Desenvolvimentos em Conhecimento e Consciência (UFSC – Florianópolis – SC). Tem experiência na área de Linguística, com ênfase em Paleolinguística. É escritor, tradutor, revisor, músico, com vários álbuns lançados desde 2009. É um pesquisador não-acadêmico, professor de Cabala Não-dualista, Sânscrito e línguas sagradas. Especialista na interpretação dos textos sagrados das religiões. Nasceu e cresceu em Santa Maria (RS). Atualmente reside em Florianópolis (SC). Proponente da Hierolinguística (uma nova ciência para o estudo das linguagens sagradas proposta em seu livro “Santo & Profano - estudo etimológico das línguas sagradas”, publicado em 2006). Publicou diversas obras: “Elohê Israel (Os deuses de Israel) - filosofia esotérica na Bíblia” (Independente, 2001); “Projeto Aurora - retorno à linguagem da consciência” (FEEU, 2003); “Santo e Profano - estudo etimológico das línguas sagradas” (GEFO, 2006); “Deuses & Demônios - verdades inauditas e mentiras anunciadas sobre os anjos” (Independente, 2007); “Curso de Cabala - com noções de Hebraico & Aramaico [vol. I e II]” (Independente, 2007 e 2008); “Curso de Sânscrito - com noções de Filosofia Indiana [vol. I e II]” (Independente, 2008 e 2009); “A Alma da Palavra” (independente, 2011). Pesquisador aceito como paleolinguista de formação livre na pesquisa de decifração da escrita Glozélica (França), com trabalho científico reconhecido e publicado em Inglês no website do Museu de Glozel (http://www.museedeglozel.com/Trad2000.htm) desde 2006. Pesquisador aceito como paleolinguista de formação livre pelo arqueólogo bósnio-americano Semir Osmanagic na pesquisa de decifração da escrita Proto-Visoko (Bósnia), com trabalho de decifração preliminar apresentado em Sarajevo pelo egiptologista Muris Osmanagic (2010) e publicado no website Bosnian Pyramids, em Inglês e Bósnio: http://icbp.ba/2008/documents/papers/ICBP_Referat_Stekel.pdf.

Contatos: pstekel@gmail.com