sexta-feira, 12 de junho de 2020

O Algo e O Nada

Por Jay Michaelson (tradução do artigo publicado no site Learn Kabbalah – https://learnkabbalah.com, feita por Paulo Stekel, sob autorização expressa do autor)


[N.T. Este é um dos textos não duais mais importantes de Michaelson, pois deixa clara a semelhança entre o conceito cabalístico de Yesh (o mundo, tudo o que existe, o universo, a realidade cósmica) e Ayin (o Nada, o Vazio, a Fonte da Realidade Ilusória, o Divino em sua maior profundidade) e o conceito budista de Samsara (o mundo como o construímos em nossa mente, a realidade construída) e Nirvana (o Vazio, a Realidade Tal Qual É, Tathata). Para a Cabala, Yesh e Ayin são os dois lados de Deus, o Absoluto. Para o budismo mahayana, Samsara e Nirvana, que não podem ser separados, são as duas perspectivas do mesmo todo. Michaelson percebeu as semelhanças e, com o tempo, isso influenciou sua busca dentro do Cabalismo judaico, a ponto de se afastar da ortodoxia judaica, se aproximar da prática meditativa budista não dual e passar a seguir um caminho próprio.]

Não há binarismo mais fundamental que yesh e ayin, algo e nada. Yesh significa, simplesmente, tudo o que existe. Ayin não é nada. Deus é ambos.

Para abordar o Divino em yesh, ansiamos pelo amor de Deus. Como os sufis, ansiamos pelo Amigo; como os hindus, visualizamos Deus em múltiplas mitologias e formas. Para abordar o Divino em ayin, aprendemos a deixar o pensamento cessar, e simplesmente nos abrimos para o grande vazio que é a verdadeira natureza de tudo.

Eis o rabino Arthur Green, em um de seus primeiros escritos, sobre ayin:

Em toda mudança e crescimento, dizem os mestres, o misterioso ayin está presente. Há um instante inacessível no meio de toda transformação, quando o que está prestes a ser transformado não é mais o que era até aquele momento, mas ainda não emergiu como seu eu transformado; esse momento pertence ao ayin dentro de Deus. Como mudança e transformação são constantes, no entanto, na verdade todos os momentos são momentos de contato com o ayin, um contato que o homem geralmente é cego demais para reconhecer. O auge da oração contemplativa é visto como um momento tão transformador, mas marcado pela consciência. O adorador não é mais ele mesmo, pois está totalmente absorvido, naquele momento, no Nada da divindade. Nesse momento de absorção, o adorador é transformado: enquanto continua sua oração verbal, não é mais quem fala, mas a Presença que fala através dele. Nesse retorno de oração plena à fonte, o ser humano alcançou seu estado mais elevado, tornando-se nada mais que o instrumento passivo para o sempre proclamado louvor a Deus. Por seus lábios a palavra divina é dita.

(Arthur Green, Your Word Is Fire, Sua Palavra é Fogo)

Para quem é novo na Cabala, o princípio de que tudo é essencialmente vazio pode parecer notavelmente semelhante ao budismo e a outros caminhos contemplativos. Que assim seja. Ayin é a realidade final de todas as coisas. Nada tem existência separada e real.

Ayin, o nada, é mais existente do que todo o ser do mundo.

[David ben Abraham ha-Lavan, século XIV (Daniel Matt trans.)]

Nas cosmologias budista e cabalística, gasta-se muito tempo explicando como o mundo parece existir do modo como ele existe. Para os cabalistas, essa explicação envolve a emanação dos dez sefirot: a evolução de Deus a partir do nada. Mas a Cabala, mais uma vez como o budismo, enfatiza que essa evolução é apenas aparente. Isso não aconteceu em algum momento, e agora acabou e o mundo existe. O próprio tempo faz parte do “mundo” que existe apenas como ilusão. No Agora, no momento presente, onde está o tempo?

A Cabala também compartilha com algumas escolas de budismo uma investigação contemplativa sobre yesh e ayin. Por ser tão bonito e semelhante ao método cabalístico, eu gostaria de citar a conhecida exposição de Thich Nhat Hanh da inter-relação de todas as coisas, "Interbeing" (Inter-ser), em sua totalidade.

Se você é poeta, verá claramente que há uma nuvem flutuando nesta folha de papel. Sem uma nuvem, não haverá chuva; sem chuva, as árvores não podem crescer; e sem árvores, não podemos fazer papel. A nuvem é essencial para a existência do papel. Se a nuvem não estiver aqui, a folha de papel também não poderá estar aqui. Então, podemos dizer que a nuvem e o papel inter-são. "Inter-Ser" [original “Interbeing”] é uma palavra que ainda não está no dicionário, mas se combinarmos o prefixo "inter-" com o verbo "ser", teremos um novo verbo, "inter-ser". Se olharmos para esta folha de papel ainda mais profundamente, podemos ver o sol nela. Sem sol, a floresta não pode crescer. De fato, nada pode crescer sem o sol. E assim, sabemos que o sol também está nesta folha de papel. O papel e a luz do sol inter-são. E se continuarmos a olhar, podemos ver o madeireiro que cortou a árvore e a trouxe para o moinho para ser transformado em papel. E nós vemos trigo. Sabemos que o madeireiro não pode existir sem o pão diário e, portanto, o trigo que se tornou seu pão também está nesta folha de papel. O pai e a mãe do madeireiro também estão nele. Quando olhamos dessa maneira, vemos que sem todas essas coisas, essa folha de papel não pode existir. Olhando ainda mais profundamente, também podemos nos ver nesta folha de papel. Isso não é difícil de ver, porque quando olhamos para uma folha de papel, isso faz parte da nossa percepção. Sua mente está aqui e a minha também. Então, podemos dizer que está tudo aqui com esta folha de papel. Não podemos apontar uma coisa que não está aqui: tempo, espaço, terra, chuva, minerais no solo, luz do sol, nuvem, rio, calor. Tudo coexiste nesta folha de papel. É por isso que acho que a palavra "inter-ser" deveria estar no dicionário. "Ser" é inter-ser. Não podemos ficar sozinhos. Temos que nos inter-relacionar com todas as outras coisas. Esta folha de papel é, porque todo o resto é. Suponha que tentemos retornar um dos elementos à sua origem. Suponha que devolvamos o sol ao sol. Você acha que essa folha de papel será possível? Não, sem luz do sol, nada mais pode ser. E se devolvermos o madeireiro à mãe dele, também não teremos folha de papel. O fato é que esta folha de papel é composta apenas por elementos "não papel". E se retornarmos esses elementos que não sejam de papel às suas origens, não haverá papel. Sem elementos que não sejam de papel - como mente, registro, luz do sol e assim por diante - não haverá papel. Por mais fina que seja essa folha, ela contém tudo o que há no universo.

(Thich Nhat Hanh, Peace Is Every Step, A Paz é Cada Passo)

A consequência crítica do Inter-Ser é que o papel contém tudo no universo, mas nada que seja "ele mesmo" e não "outra coisa". Cada átomo do seu ser já esteve dentro de uma estrela. Você é uma aglomeração temporária de matéria, que é ela própria uma manifestação de energia e que também é quase inteiramente vazia. De fato, a única “coisa” que mantém os feixes de energia e probabilidades que compõem seus átomos são as leis da física - na linguagem cabalística, chochmah, a primeira sefirah depois do Nada.

Chochmah opera no nível quântico, no nível molecular, no nível biológico, no nível ecossistêmico, no nível cósmico - é, em todas as etapas, o princípio organizador do Nada. Mas o que é isso? Onde estão escritas as leis da física? Uma semente contém moléculas de DNA, de modo que, quando as condições adequadas estão presentes, um carvalho pode ser feito de solo, água e luz solar. Mas onde está o DNA do próprio sol "escrito"?

É possível cultivar uma mente mais aberta a experimentar o Nada do que nossas mentes comuns. Mas antes de nos voltarmos para essas práticas, vale lembrar que a coluna de ayin não é preferida à coluna de yesh. É verdade que em algumas fontes cabalísticas e hassídicas há um desdém pelo mundo das manifestações. Mas, em última análise, yesh é ayin; samsara é nirvana. A busca mística culmina não na experiência do puro nada, mas no retorno ao mundo em que a consciência do nada é mantida. Especialmente para os cabalistas, a maioria dos quais eram professores, pais e membros da comunidade, o mundo do yesh não é algo para simplesmente ser deixado para trás quando "morremos antes de morrer" (uma frase sufi) em uma experiência de ayin. Não há dualidade, não há diferença entre yesh e ayin. Este momento é Deus. É isso mesmo.

A maioria de nós simplesmente não acredita nisso. Não acreditamos que seja realmente isso e imaginamos que, em algum outro momento, é quando chegaremos a isso. Consequentemente, a mente deve ser treinada para desaprender os hábitos que bloqueiam a realidade Divina de nós. Em outras tradições, a meditação é o principal método de treinamento. Na Cabala, meditação e oração são usadas.

É preciso meditar profundamente e longamente sobre esse pensamento, de acordo com a capacidade de apreensão de seu cérebro e pensamento pelo maior tempo possível, antes que ele se ocupe da Torá ou de um mandamento, como colocar o talit ou o tefilin. Ele também deve refletir como a luz do bem-aventurado En Sof, que abrange todos os mundos e permeia todos os mundos, que é idêntico à Vontade Superior, é revestida nas letras e na sabedoria da Torá e nos tsitsit e tefilin, e através de seu estudo ou vestindo estes últimos, ele atrai sobre si mesmo Sua luz abençoada, isto é, sobre a porção de piedade de cima, que está dentro de seu corpo, para que possa ser absorvida e anulada em Sua luz abençoada.

(Tanya, Likutei Amarim, capítulo 41)

Poderíamos repetir esses ensinamentos indefinidamente, mas em vez disso - por que não parar um momento na frente do computador e colocar essas meditações em uso? Escolha Thich Nhat Hanh ou o Tanya, mas escolha algo, porque o mapa não é território e a receita não é a refeição. Você não está entendendo essas ideias apenas lendo e olhando intelectualmente.


Sobre o autor


Dr. Jay Michaelson é autor de seis livros e mais de trezentos artigos sobre religião, sexualidade, direito e prática contemplativa. Ph.D. em pensamento judaico pela Universidade Hebraica , é colunista do jornal The Daily Beast e do Forward. Em sua “outra” carreira, Jay é professor assistente afiliado ao Seminário Teológico de Chicago, ensina meditação em linhagens budistas theravadas e judaicas e possui ordenação rabínica não-denominacional. De 2003 a 2013, Jay foi um ativista LGBT profissional. Fundou duas organizações LGBT judaicas e apoiou o trabalho de ativistas em todo o mundo na Arcus Foundation, no Democracy Council, e seu novo projeto no Daily Beast, Quorum: Global LGBT Voices.

quarta-feira, 10 de junho de 2020

Não Dualidade e Realidade

Por Paulo Stekel



Uma das melhores definições de não dualidade é a de que ela é a simultaneidade de consciência e experiência. Pensamento e consciência são da mesma natureza. O mesmo vale para uma emoção, que faz parte do pensamento e assim foi entendido pelo Buda. A teoria do neurocientista português António Damásio, que reconhece as emoções como pensamento e não algo separado, mesma vindo de um materialista, corrobora o Buda. Pensamentos, emoções e experiências são simultâneas com a consciência.

Não é que a Realidade (as "coisas", o universo, etc) não exista DE MODO ALGUM (niilismo). Nem que só exista na minha mente (solipsismo). Nem que exista do modo como a imaginamos (reificação e eternalismo). Ela existe apenas para nossa Mente Conceitualizadora do modo como foi designada, do modo como esta definiu suas características. Neste sentido, cada um criou a SUA realidade, que é o significado da frase "a mente criou isso".

O dozgchenpa radical Jackson Peterson diz que, na linguagem quântica, todos os fenômenos estão em "superposição", ou seja, não têm status real até serem designados conceitualmente.

Por isso, ele ainda diz que "vaziez dupla" (de si e dos fenômenos) significa que todas as identidades como sujeitos e todos os fenômenos como objetos, são apenas construções de pensamento imaginadas, não realidades objetivas.

A Realidade só é existente e perfeita na percepção de Rigpa (a gnose da mente não dual), onde as coisas são como são (Tathata, "talidade"), formações energéticas e movimentos da Consciência Primordial Perfeita.

Peterson ainda diz: "O que é realmente interessante é que, quando uma mente concorda plenamente com esse ensinamentos, todos os comportamentos e intenções hostis, agressivos e anti-sociais liberam-se após o surgimento. Isso não quer dizer que qualquer uma dessas ações seja menos perfeita do que se engajar em atividades mais 'virtuosas'."

Sim, pois a perfeição que todos buscamos já está acontecendo simultaneamente com cada segundo, cada momento. Entender isso nos libera de qualquer resistência, agarramento, apego, ansiedade, medo e até mesmo busca pela liberação. Então, surge a alegria natural e começa a irradiar o amor incondicional, sem motivo aparente.

Uma vez que se tenha chegado a esse ponto além do intelecto, nada mais é necessário.

Paulo Stekel (de minhas meditações não duais ou, não meditações, se preferirem)


terça-feira, 9 de junho de 2020

Estados Ampliados de Consciência

Por Paulo Stekel


https://youtu.be/dHZ8SfA3eZI

Vlog 010 de "Ciência Espiritual", o vlog de Paulo Stekel postado em seu canal no Youtube (youtube.com/paulostekel) e no Watch do Facebook em sua página de fãs Stekel (facebook.com/canalpaulostekel). Confira!

Neste décimo vlog, Stekel fala sobre estados de consciência, estados alterados de consciência e estados ampliados de consciência.

Ao longo do vídeo, Stekel apresenta as bases dos estudos sobre estados ampliados da consciência na parapsicologia, ciência psi e psicologia transpessoal, especialmente através dos estudos do psicólogo e parapsicólogo Charles Tart, um dos criadores da psicologia transpessoal.

Stekel apresenta os quadro modos de se adquirir conhecimento definidos por Tart, sendo o último deles o que vem através das experiências em estados alterados. Também dá uma lista de onze estados em que a consciência se apresenta de modo ampliado, como a telepatia, precognição, psicocinese, experiências fora do corpo, experiências de quase morte, cura paranormal, mediunidade e canalização. Ainda apresenta os critérios para se definir um estado alterado ou ampliado de consciência.

Confira os outros vlogs já lançados na playlist "Ciência Espiritual" no youtube:

https://www.youtube.com/watch?v=J5BgUbh5n2M&list=PLoPXQZkAtpodqe3orwnyx0PxUW9uSOOG3

(Temas já tratados: Verdade, Sombra, Ufologia, Consciência, Medo, Reencarnação, Metempsicose, Renascimento, Cosmovisão, Realidade, Fenômeno PSI, Poderes Ocultos, Meditação)

Vlog Ciência Espiritual é uma playlist do canal de Paulo Stekel no youtube e Facebook dedicada a Ciência, Espiritualidade, Religião, Filosofia, Arte, Cultura e Visão Sistêmica. Comentários sobre livros, artigos e filmes serão comuns neste novo vlog.

ENVIE suas perguntas, dúvidas, comentários e sugestões de tema para os próximos vídeos para o email pstekel@gmail.com

segunda-feira, 8 de junho de 2020

Espiritualidade e Crítica Social

Por Paulo Stekel


1 - Introdução

Crítica é a arte de julgar. Em filosofia, tem o significado de análise. Kant usa o termo como designação da reflexão da validade e dos limites do ser ou de um conjunto de elaborações filosóficas. Hoje em dia, crítica se refere a uma análise sistemática sobre as condições e as consequências de um conceito, teoria ou disciplina. Desta forma, ter um ponto de vista crítico significa se opor a um ponto de vista dogmático, em qualquer terreno.

Se a crítica contempla um raciocínio, é crítica lógica. Se contempla um conceito, teoria ou experimento, é crítica intelectual. Se contempla uma conduta, é crítica moral. No contexto do presente texto, ficaremos entre a crítica lógica e a crítica moral, que achamos pertinente para o propósito do mesmo: a reflexão sobre o papel da espiritualidade (dentro da qual se inserem as religiões, instituídas ou menores) no tocante a um posicionamento ou não quanto às mazelas e ideologias da sociedade moderna.

A grande pergunta a ser respondida é, por um lado, se as diversas “espiritualidades” (antigas e modernas, incluindo as religiões e suas variantes, linhagens, tradições e escolas) devem se posicionar ou não contra raciocínios e ideologias controversas, maculadas por ações violentas e que aumentam o abismo social entre os homens (nazismo, fascismo, globalização, autoritarismo, racismo, homofobia, etc.) e, por outro lado, se elas devem não apenas apoiar, mas promover elas mesmas ações práticas no sentido de confrontar tais raciocínios e ideologias, dentro dos limites de suas doutrinas e práticas essenciais.

Já tínhamos a intenção de escrever este texto, mas um debate ocorrido no grupo virtual “Secular Buddhism” dias atrás tornou a necessidade imperativa. O debate, num contexto budista, e na esteira da recente reação ao assassinato de George Floyd nos EUA e pelo mundo afora, ocorreu entre um amigo, Luiz Fernando Rodrigues, e um membro do grupo identificado como “Alistair”. Reproduzimos trechos do debate abaixo (tradução do próprio Luiz):

Alistair: (...) Para encontrar as soluções, muitas vezes precisamos procurar esse meio termo, porque simplesmente dizer às pessoas que elas estão erradas e criticar seus pontos de vista enquanto reforça o seu, independentemente de qual lado você defende, não funcionou em toda a história da raça humana. Quanto mais rotulamos as pessoas, mais discriminamos, mesmo que as intenções sejam boas. Se víssemos todo mundo como um ser humano que é parte integrante do cosmos, criaríamos menos divisão. Uma coisa que percebo com muita frequência no momento é que a moeda que tem discriminação negativa e privilégio de branco de um lado é a mesma moeda com discriminação positiva e culpa de branco do outro. Certamente, é melhor não discriminar, de forma alguma. Quanto mais nos vemos como todas as partes individuais do mesmo cosmo, mais harmoniosamente todos podemos coexistir.

Luiz: A humanidade é uma mentira descarada. Quando você pode ser morto porque um oficial do estado está entediado, você não está sendo tratado com humanidade. Somente pessoas privilegiadas podem falar sobre mentiras vagas como “humanidade”.

Alistair: Se você acredita nisso, não há budismo. E não me venha dar sermão sobre privilégios, sem saber nada sobre minha vida ou lutas.

Luiz: A humanidade ainda está por vir. O que temos hoje é o imperialismo supremacista.

Alistair: Somente se você permitir. A humanidade como parte integrante e igual do cosmos existe desde que nossa espécie surgiu. Isso é realidade, é nirvana e entender isso é nirvana. Opressores só podem oprimir aqueles que os temem e os odeiam. Remova esses sentimentos e você remove o poder deles sobre você.

Luiz: Isso é bobagem. Floyd não poderia ter sobrevivido se não tivesse medo. As pessoas que são escravas assalariadas em unidades remotas de produção não podem ter suas barrigas cheias e sua saúde restaurada, ignorando 13 h de trabalho diário por alguns dólares. As populações indígenas não podem restaurar seu modo de vida ignorando as cercas guardadas por homens armados. As mulheres não podem ser poupadas de abuso e estupro ignorando seus agressores, geralmente seus próprios familiares e parceiros. Os trabalhadores não podem se libertar ignorando a falta de moradia e a exploração. Os negros não podem viver uma vida livre ignorando o encarceramento em massa e o assassinato rotineiro do Estado. As pessoas LGBT+ não podem nem ser elas mesmas (!) ao ignorar as ameaças de morte, gaslighting e linchamento institucional. As pessoas que querem apenas ter uma vida feliz não podem fazê-lo, ignorando todas as portas fechadas da dívida estudantil, nenhuma garantia de assistência médica, ambientes insalubres e apagamento ideológico de seus direitos e interesses legítimos em todas as mídias. Você não pode ignorar a realidade, Alistair. Esse seria o lado sombrio das tradições religiosas da história: aceite tudo, não questione nada.

Ou seja, a crítica social por parte da espiritualidade/religião e mesmo colocando a espiritualidade/religião na berlinda quando se omite, não é algo que se deva deixar de lado. Ou a espiritualidade faz a autocrítica e se insere na luta pelos direitos de todos ao bem-estar e felicidade, ou merece ela mesma todas as críticas que lhe sejam dirigidas. Não é possível ignorar, como muito bem disse Luiz Fernando, as mazelas sociais como racismo, trabalho maçante, ódio aos indígenas, misoginia, machismo, homofobia, etc., pois isso é apagar o legítimo anseio humano por vida, pertencimento e felicidade. Então, a espiritualidade, seja budista, cristã, judaica, islâmica, taoista ou uma das tendências modernas de qualquer tipo, não pode se furtar à crítica social (e, política, econômica, ambiental, etc), caso queira ser uma espiritualidade viva e viável.

2 - Crítica social

A crítica social analisa as estruturas da sociedade que são consideradas problemáticas, e busca propor soluções práticas através de medidas específicas, como uma reforma radical ou mesmo mudança de caráter revolucionário. E, “revolucionário” não deve ser considerado, necessariamente, sinônimo de “violento”, mas deve ser, via de regra, sinônimo de mudança de paradigma.

O fato é que ninguém, nem nenhuma ideologia, possui o monopólio da crítica social. Afinal, dentro do pós-modernismo e nesta era da “pós-verdade” que uns tentam implantar, não existe uma grande teoria unificadora. Mas, a necessidade de diálogo não se esvai. Se torna urgente.

No tocante à espiritualidade moderna, ela precisa considerar qual é sua crítica central. Pode ser aos ataques aos pobres e desfavorecidos, ao autoritarismo, às ditaduras ou aos sistemas políticos e econômicos que impedem o bem-estar de todos, o direito do ser à autoexpressão, à liberdade, à criatividade e a uma vida sem medo de seus iguais. Não importa. Toda a vida social deve estar sujeita à crítica de uma espiritualidade que se pretenda viva e conectada ao ser humano que deseja libertar, material e espiritualmente, das amarras externas e internas. Não é o caso de dar de ombros, incentivando a fuga para os templos, monastérios ou clausura resignada. Tal “complexo de cordeirinho” não produz benefício algum, só ajuda a perpetuar a opressão. Ainda que se possa discutir se a crítica social deve ser neutra, objetiva ou adotar um ponto de vista partidário numa questão, o que não se pode é defender uma omissão diante do óbvio ululante que priva seres humanos de seus direitos básicos em qualquer lugar do mundo.

Quando Jesus criticou a hipocrisia do mercantilismo dos fariseus, quando Buda criticou o sistema de castas e os privilégios dos sacerdotes brâmanes, quando Lutero criticou a monopolização de Deus pelo Papa ou quando o monge zen Thich Nhat Hanh criticou a guerra do Vietnã, houve uma crítica social pertinente por parte da religião/espiritualidade que não pode ser desconsiderada.

3 - Crítica da religião

Se a religião/espiritualidade precisa se manifestar de modo crítico quanto às mazelas sociais, não pode ela mesma ser imune à crítica, o que constitui a Crítica da religião, uma crítica do conceito, validade, práticas e consequências políticas e sociais da mesma. Afinal, em muitos momentos da história, a religião fomentou as desigualdades sociais, se aliou aos poderosos e até ajudou a perpetuar impérios e governos opressores, quando não se tornou ela mesma o governo e a opressão.

Um dos grandes paradoxos modernos das religiões é que, enquanto a grande maioria delas alega ter a posse exclusiva da Verdade, o que denigre as outras religiões e abre um impasse sobre a Verdade, por outro lado, se fala em relativismo religioso, a base do diálogo inter-religioso, segundo o qual, cada religião é uma forma mais ou menos equivalente de ver e de buscar a mesma coisa. Podemos contestar ambas as coisas dizendo que: nenhuma religião pode pretender ter a Verdade última e todas elas não são equivalentes, não falam a mesma coisa. Argumentos em contrário servem apenas para colocar panos quentes no conflito evidente: a propriedade da Verdade.

É fato que, enquanto religiões e espiritualidades ocidentais pretendem que a Verdade dependa exclusivamente de textos sagrados, dogmas e interpretações escolásticas, religiões e espiritualidades extremo-orientais consideram o fator individual na busca de uma Verdade apenas apontada em textos sagrados e suas interpretações mais eminentes. Em resumo e a grosso modo, a espiritualidade ocidental deseja crença e devoção; a espiritualidade oriental propõe busca e experimentação.

Se faz necessária uma nota sobre as “novas espiritualidades” ocidentais (neoxamanismo, universalismo, “nova era”, neocabala, teosofia, etc.). Elas incorporam muito da busca e experimentação do extremo-oriente, mas mantém a crença e a devoção ocidentais. Contudo, sua visão de Deus não se baseia no dogmatismo bíblico, mas numa visão menos teísta e mais deísta da Divindade. O deísmo, que se destacou nos séculos 17 e 18 durante o Iluminismo, é uma crença que não segue a doutrina da Trindade, da divindade de Jesus, dos milagres ou da infalibilidade bíblica, mas que acredita em uma causa divina. Com o tempo, influenciou fortemente grupos religiosos, como o Unitarianismo e o Universalismo, que desenvolveram-se a partir dele. As “novas espiritualidades” frequentemente apresentam uma visão deísta não-padrão, mas que, à primeira vista, parece a crença em Deus “que todo mundo tem” (?). A busca da Verdade nestas novas tendências se torna muito relativizada e, atualmente, chega a flertar por vezes com a “pós-verdade”, tão perniciosa para o desenvolvimento humano. Num anseio de quebrar os pratos com antigos dogmas, fanatismos, imposições e desconhecimentos científicos, as novas visões espirituais correm o risco de engendrar novos engessamentos doutrinários e mesmo uma negação da Ciência via teorias da conspiração.

Nesse sentido, uma “nova espiritualidade” que entenda a importância da Ciência e da Crítica Social, abandonando ideias arcaicas e olhando para o panorama geral e plural do mundo, é o que chamamos, por vezes, de “Ciência Espiritual”, um conceito que está ainda em desenvolvimento (desenvolvido direta ou indiretamente e, não necessariamente de modo concordante, por autores como Steve Taylor, Mario Beauregard, Ervin Laszlo, Fritjof Capra, Ken Wilber, Amit Goswami, Steve McIntosh, Anthony Peake, etc.). Uma tal visão abre espaço para o lado introspectivo e contemplativo das espiritualidades orientais mais que para os dogmas das ocidentais, mas não se fecha ao transcendental e ao imanente na busca pela Verdade.

4 – O caso do Budismo


Sidarta Gautama, o Buda, nasceu em Lumbini (hoje, patrimônio mundial da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura) por volta do ano 566 a. C. e cresceu em Kapilavastu, atuais localidades nepalesas. Seu pai queria que ele se tornasse rei como ele, mas o jovem tinha seus próprios planos. Criado com todo o conforto do palácio e longe das mazelas de seu povo, que eram “maquiadas” por seu pai quando Sidarta saia pelo reino, o jovem se compadeceu do sofrimento humano, o que o levou a uma busca espiritual para chegar a uma solução para a dor que permeia a vida. Recurar-se a continuar fazendo parte das discrepâncias sociais de sua época foi, sem sombra de dúvida, uma atitude muito política, de política social.

Quando tinha cerca de 40 anos de idade, Sidarta conseguiu atingir a iluminação espiritual, o Despertar Último. Assim que atraiu um grupo de seguidores, instituiu uma ordem monástica. Esta ordem aceitava pessoas de todas as castas, pessoas sem casta e mulheres – atualmente, as mulheres estão prejudicadas nesse sentido, pois sua ordenação é inexistente em muitas tradições e são tratadas de modo inferior aos homens, o que deve ser rechaçado com veemência. Na época do Buda ninguém era excluído. Mais uma atitude política, considerando-se o sentido amplo do termo, além de algo muito moderno para os parâmetros da época. Assim como no caso de Jesus, nem pobres, nem bandidos, nem prostitutas eram excluídos.

A época do surgimento do Buda foi um período de turbulência social e religiosa, onde havia grande descontentamento com os sacrifícios e rituais do bramanismo védico. Vários novos ensinamentos e grupos ascéticos, religiosos e filosóficos romperam com bramanismo e rejeitaram a autoridade dos Vedas. O Buda se insere neste contexto que, além de religioso, é profundamente político.

Contudo, podemos dizer que o Buda nunca tolerou a participação política para além de funções passivas de assessoramento. Ele mesmo assessorava reis e altos funcionários do governo, orientando-os sobre como melhor conduzir suas funções em prol da maioria. Uma mescla de pensamento democrático e espiritual, dadas as condições da época. Mas, o Buda nunca aprovaria ações violentas vindas de budistas, como ocorreram em vários momentos da história do Sri Lanka e no Japão da Segunda Guerra, onde instituições budistas justificaram o militarismo japonês em publicações oficiais e colaboraram com o exército no campo de batalha – posteriormente, várias instituições budistas se desculparam por tal apoio.

O Budismo, sem qualquer ritualismo ou simbolismo cultural (de origem indiano), se aproxima muito da moderna Ética e do Humanismo científico, mas vai além, por propor um processo individual de desenvolvimento mental que leva até o Despertar definitivo da ignorância sobre a Natureza da Mente e da Realidade. Nada disso depende de ritualismo religioso, e é como nós mesmos vemos o Darma budista como algo viável no Século 21.

Essa visão, inclusive, se contrapõe à opinião distorcida sobre o Budismo apresentada pelo filósofo esloveno Slavoj Zizek, para quem “o budismo se apresentaria como portador de uma atitude conservadora e reacionária (…) [sendo] no capitalismo pós-industrial (...) algo palatável, um instrumento de adaptação a esse espírito do tempo”. Esta citação é feita em um artigo acadêmico que critica a visão de Zizek (apresentada em: ZIZEK, Slavoj. On belief. Inglaterra: Routledge, 2001), intitulado “Budismo no Ocidente: algumas reflexões a partir das críticas de Slavoj Zizek ou como pensar alguns aspectos da espiritualidade no mundo contemporâneo” (Ver em https://periodicos.unb.br/index.php/rbfr/article/view/17358/15868, in: REVISTA BRASILEIRA DE FILOSOFIA DA RELIGIÃO - BRASÍLIA/V.3N.1/P.134-150/AGO.2016), do Doutor em Filosofia Medieval, Antônio C. Madalena Genz (UFRGS, Campus Jaguarão – RS), e que foi uma das fontes de inspiração para este texto que agora escrevemos, pois Genz reconhece o potencial revolucionário do Budismo de Buda, o original.

Na verdade, para Genz, em seu artigo, a crítica ao Budismo feita por Zizek “é focada em uma espécie de ‘budismo ocidental’, que emerge e se constitui como algo dentro de uma constelação de dispositivos Nova Era que funcionariam, no fundo, como corroboradores da hegemonia do capitalismo mundial, para ‘manter a paz’ e o equilíbrio de forma individualista, reforçando a dominação sobre sujeitos passivos”.

Na nossa opinião, este tipo de “budismo ocidental” é um entendimento distorcido e incompleto do que seja o Budismo de fato, mesclado com visões ocidentais e maniqueísmo cristão. Vemos isso facilmente em qualquer discussão de grupos budistas abertos em redes sociais, onde os debatedores, especialmente os simpatizantes e os praticantes iniciais, demonstram tal entendimento e perpetuam o mito do “budista neutro”. Genz entende que isso aponta para um modo o budismo e outras formas de espiritualidade, como o taoismo, estão sendo “reapropriados e ressignificados no Ocidente”.

Na verdade, conforme Genz, a crítica de Zizek não é ao Budismo original do Buda, mas a:

“(…) um tipo de budismo palatável, domesticado e absorvido pela sociedade consumista. Ao invés da autonomia e plena responsabilidade enfatizadas por Buda para cada indivíduo, temos um sujeito passivo que reforça sua prisão com o capital simbólico de uma paz interior e serenidade que não levam à libertação, mas de forma insidiosa e sutil tornam a prisão mais oculta. Um grau novo do
individualismo contemporâneo em que o sujeito é estimulado a pensar que está transformando a si próprio, sem perceber as condições de sofrimento do mundo ao redor. Ao invés de insights reais sobre a natureza interdependente da realidade (conceito fundamental do budismo), uma falsa percepção de felicidade e do estatuto da realidade.”

Para Zizek, a própria meditação tem sido usada neste “budismo domesticado” como forma de se assimilar o status quo e favorecer o conservadorismo passivo. De fato, vemos isso em muitos grupos de meditação budista, especialmente nos que se consideram menos “políticos” (e, também, menos conectados a ações humanitárias). Porém, não significa que a meditação tenha essa função, uma vez que seu principal potencial se dirige “para a conscientização e para a transformação de si mesmo” (Genz).

Genz: Para Zizek, a meditação nesse modelo de budismo ocidental é a forma mais eficiente à nossa disposição para ‘participar plenamente da dinâmica capitalista, retendo ao mesmo tempo a aparência de sanidade mental.’ (2001, p. 13). E, explicitamente, Zizek afirma que o budismo ou taoísmo, nos permite participar, de modo pleno, da paz frenética do jogo capitalista, mantendo a percepção de que não se está realmente nele, de que se está bastante ciente do quão irrelevante é esse espetáculo. O que realmente importa é a paz do self interior, para o qual podemos sempre nos retirar. (ZIZEK, 2001, p. 15)

Tendo a concordar com as observações de Zizek. Muitos dos modos e práticas de espiritualidade no Ocidente, não necessariamente budistas ou taoístas, englobando uma gama ampla de formas, parecem-me cair dentro dessa descrição. Mas, ao mesmo tempo, nada está mais longe do potencial budista tal como preconizado por Buda e testemunhado por praticantes budistas ocidentais. Mais do que isso, o budismo é uma das formas mais contundentes de crítica a essa mesma sociedade consumista, niilista e destrutiva que Zizek combate.

Para contrastar a visão de Zizek, podemos evocar a presença de um monge tão atuante quanto Sulak Sivaraksa, esse notável monge tailandês, companheiro de Thich Nhat Hahn, naquilo que se denomina de budismo engajado, por fazer uma crítica explícita ao mundo em que vivemos. No livro
A sabedoria da sustentabilidade, Sivaraksa descreve o consumismo como uma ‘religião demoníaca’, um dos principais condutores da crise do clima.

(…) São duas falas que, justapostas, trazem esse inusitado: Sivaraksa faz uma crítica demolidora do sistema a partir do cerne da visão budista. E Zizek, que sabemos ser um crítico radical desse mesmo sistema, critica o budismo por ser uma espécie de instrumento desse sistema. Mais do que falar em abstrato de uma religião, qualquer uma delas, a questão, no que importa, recai sempre no nível da prática e na qualidade de engajamento real com a religião.”

Para Genz, a meditação budista, contrariamente à acusação de Zizek, serve para domar nossa “mente de macaco” que, inclusive, deseja a passividade diante das mazelas da sociedade:

É fácil a distração, é fácil ficar na frente da televisão ou em outra forma de passividade, até aquelas sofisticadas que escondem a passividade sob uma roupagem de falsa atividade, como os jogos e videogames, que podem ser vistos como uma forma perversa de passividade, já que, sob a aparência de atividade, hipnotizam e embotam os sentidos a ponto de esses progressivamente perderem o interesse no mundo real concreto, esse mundo com o qual e para o qual nossos corpos foram feitos para sentir, perceber e realizar-se nele e através dele.

O budismo descreve o estado normal e habitual de nossa mente como ‘o macaco louco’, que como tal está sempre a pular de galho em galho. Nossa mente é assim por natureza, dispersiva. Meditar é ir em sentido contrário: estabilizar a mente, concentrar e, então, meditar. O consumismo, como Sivaraksa salientou, é exatamente esse estimulante perpétuo da mente distraída, o combustível do macaco louco. Meditar é ir contra esse dinamismo. Meditar é tornar-se ativo e concentrado mentalmente. O contrário, portanto, dessa maneira pós-moderna de inserir a espiritualidade na agenda pessoal como um item cada vez mais valorizado no mercado do capital cultural de gente
moderna e descolada, que está no topo daquilo que o capitalismo oferece como bens e é expresso na publicidade de cartões de crédito, bancos, automóveis e tudo mais que serve de fetiche para o capital na sua vertigem avassaladora rumo... ao nada. Um mecanismo que faz girar não a roda do Darma, mas a roda de violência, destruição, ganância, ódio, como apontou sabiamente Sulak Sivaraksa. A destruição das condições de vida em nosso planeta é emblema disso.”

Para Ricardo Strauch Aveline (filho do Lama Padma Samten), eu sua Tese de Doutorado em Ciências Sociais, intitulada “As Transformações Históricas do Budismo e suas Implicações Ético-Sociais (Ver em http://biblioteca.asav.org.br/vinculos/tede/RicardoAvelineCienciasSociais.pdf), complementando a ideia de Genz sobre o Budismo Engajado:

O engajamento social budista está baseado em uma teoria social budista e na ideia da construção de uma cultura de paz. A cultura de paz está enraizada na noção de que a partir do estabelecimento de ações pessoais favoráveis em relação aos outros seres, surge a felicidade no plano pessoal. Em contrapartida, o exercício de ações hostis em relação aos outros seres, impede a construção de uma civilização pacífica. Segundo a noção budista de cultura de paz, nenhum ato corrupto e agressivo constrói relações positivas e, portanto, não gera felicidade e segurança. Consequentemente, não produzirá uma cultura sustentável, não importando a quantidade de poder que possua a sua disposição (SAMTEN, 2004).

Os textos [budistas] relatam que, por onde Buda andou, ocorreram inúmeras transformações pessoais e muitas pessoas foram alcançando a iluminação. Do ponto de vista social, destaca-se a orientação de mendicância oferecida pelo Buda aos seus discípulos. Pouca alimentação, apenas para sobrevivência, não ter posses ou bens, ignorar o regime de castas (LOY, 2003). Neste sentido, os ensinamentos do Buda rompiam parcialmente com a cultura em que nascera. Segundo Usarski (2009, p. 221): Não há dúvida de que o Buda se colocou criticamente em relação à tradição dos Vedas, à fixação de um saber revelado e à justificativa suprema do sistema de castas como expressão da ordem universal inerente do cosmo (sanatana dharma). Também não aceitou a ‘certeza’ dos brâmanes de possuir o monopólio dos ‘bens religiosos’. (...) Ainda assim, o budismo colocava grande importância nas boas maneiras e também na educação, na família, provindo boa parte dos seus participantes de círculos de status distintos. Weber (1967, p. 236), explica que o ‘pequeno burguês’ e as ‘pessoas iletradas’ não encontravam benefício na soteriologia budista e não encontravam satisfação na ideia de atingir nirvana por intermédio da renúncia como um ‘penitente entre as árvores’. Para eles, afastar-se da pobreza faria mais sentido do que renunciar o pouco que tinham. Além disso, ‘eles não tinham os meios para alcançar o objeto’, pois a meditação exigia tempo para alcançar a ‘gnose’ e eles não tinham tal ‘tempo de lazer’. Ainda assim, Trainor (2007, p. 38) relata que a sangha atraiu pessoas de todos os níveis da sociedade. Buda também deu conselho aos reis de sua época sobre a importância de sociedades justas do ponto de vista social, a não-violência, a divisão dos recursos naturais de forma equânime, a extinção da lógica de castas sociais, demonstrando ter um engajamento sociopolítico com os temas sociais de sua época, o que difere de um budismo centrado unicamente na busca espiritual (PARKUM; STULTZ, 2000, p. 348-9).

Ilustra a atuação de Buda no mundo, a sua intervenção no conflito ocorrido entre os Shakyas e os Koliyas sobre a divisão da água como recurso por cada um dos reinados. Já havia preparativos militares sendo exercidos por cada parte para entrar em guerra. Em conversa com os reis, Buda perguntou a um deles: ‘Quanto vale a água, grande rei?’. ‘Muito pouco, reverendo’, respondeu o rei. ‘Quanto valem os guerreiros, grande rei?’. ‘Estão acima de qualquer preço’, respondeu o rei. Então, Buda disse, ‘não faz sentido que por um pouco de água você destrua guerreiros que estão acima de qualquer preço’ (SIVARAKSA, 2005, p. 5). Relata-se que, ao ouvirem o ensinamento, os presentes ficaram em silêncio. Então, Buda disse a eles, ‘Grandes reis, por que vocês agem dessa maneira? Se eu não estivesse presente hoje, vocês teriam derramado um rio de sangue. Vocês agiriam da forma mais destrutiva’ (SIVARAKSA, 2005, p. 5). Dentre as passagens registradas nas escrituras, relata-se que Buda, ao dar ensinamentos nas pequenas cidades e vilarejos por onde passava, aconselhou a ‘compartilhar os recursos materiais com os familiares e amigos’, ‘não ficar endividado’, ‘levar uma vida sem culpa’ e, principalmente, que ‘a maior riqueza é o contentamento’ (santutthi paramam dhanam) (LOY, 2003, p. 57).”

Esses argumentos já seriam suficientes para justificar a espiritualidade budista como engajada desde a origem, deixando os praticantes atuais à vontade para rechaçarem as mazelas modernas que aumentam o sofrimento dos seres, perpetradas pelo status sócio-político-econômico globalizado de hoje em dia. Contudo, um “novo budismo” parece nascer no Ocidente e, este sim, um budismo totalmente engajado e interessado na promoção do bem-estar coletivo tanto quanto na busca do Despertar definitivo.

Nessa linha, Aveline diz que: Também contribui para a criação de um novo budismo, o fato de que os alunos mais avançados dos religiosos budistas orientais também se tornam líderes religiosos, porém são ocidentais e leigos, ou seja, carregam consigo uma formação paralela ou concorrente, por exemplo, de cristianismo, protestantismo, cultura ocidental, além da formação escolar e acadêmica típicas do Ocidente. Tais formações influenciam a forma como esses novos budistas virão a praticar o budismo, contribuindo para o surgimento de novas formas de budismo.

No caso de Thich Nhat Hanh (monge vietnamita) refugiado na França, por exemplo, este novo budismo se manifestou por intermédio de estímulo ao serviço social, doação de trabalho e responsabilidade social, utilização da ‘meditação em ação’, ou seja, métodos para ter atenção plena durante as atividades cotidianas (TRAINOR, 2007, p. 216).”

Isso contrasta com a ideia antiga e equivocada de que o budismo é uma “religião de status anti-político, em que a salvação é um ato pessoal do indivíduo” (Aveline). Para uns, o objetivo do Bodhisattva e do praticante budista em geral não é, necessariamente, ser “um reformador social, mas ser um catalisador para transformações sociais dentro da sociedade” (Aveline), mas para outros, como Walpola Rahula, “o budismo sempre esteve atuante do ponto de vista social” (Aveline).

Aveline: “(…)[Quando] O budismo surgiu na Índia como uma força espiritual contra as injustiças sociais, contra degradantes ritos supersticiosos, cerimônias e sacrifícios, ele denunciou a tirania do sistema de castas e defendeu a igualdade de todos os homens, emancipou a mulher e deu-lhe completa liberdade espiritual. (…) Dentre as manifestações do Buda sobre a vida social, Jones (1979, p. 85-8) destaca a seguinte passagem: ‘Aquele que tem entendimento e sabedoria não pensa em prejudicar a si mesmo ou ao outro, nem em prejudicar ambos ao mesmo tempo. Ele pensa no seu próprio bem-estar, no bem-estar dos outros, no bem-estar de ambos, e no bem-estar de todo o mundo. Dessa forma mostra uma compreensão e uma grande sabedoria.’ Segundo Sulak Sivaraksa (1992, p. 71), desde os tempos do Buda hão existido muitos budistas que estiveram diretamente envolvidos com a sociedade. Houve também mestres de meditação que, apesar de não estarem envolvidos com a sociedade, deram grandes contribuições para a comunidade. Ele salienta que os mestres beneficiam por intermédio do seu exemplo ‘como provas de que a santidade é possível neste mundo’.

(…) David Loy (2007), na mesma linha, descreve o engajamento budista por meio de três pilares. Primeiramente, salienta a importância da prática espiritual. Para ele, sem a prática espiritual não há chance de se remover os venenos institucionalizados (desejo, apego, raiva, inveja e orgulho). Segundo, o comprometimento com a não-violência e, terceiro, o despertar conjunto, ou seja, a compreensão da interdependência da vida das pessoas e a noção de que, ao atuar pela melhoria da qualidade de vida de uma determinada população, gerar-se-ão efeitos benéficos para a vida de todos.”

Com certeza, esses três pilares podem ser adaptados a outras religiões e a todas as formas de espiritualidade, como veremos adiante. Mas, David Loy, um autor zen-budista de nossa máxima predileção, também desenvolveu em 2007 a ideia de que as empresas e os grandes conglomerados econômicos modernos acabam, por seu modo de ser, promovendo os chamados “três venenos” no Budismo: gânancia (cobiça), avareza (má vontade) e delusão (ilusão).

Aveline: “[Loy] Afirma que o sistema econômico institucionaliza a ganância, o militarismo institucionaliza o desejo inadequado e a mídia institucionaliza a delusão. O problema, afirma Loy (2007) não é apenas que os três venenos operem coletivamente, mas que eles assumam uma vida própria por meio das instituições. Para ele, é fundamental perceber os efeitos desses três venenos para a sociedade. Segundo Loy (2007), os três venenos da mente descritos no dharma (…) estão hoje mais fortes do que nos tempos do Buda, pois estão enraizados nas instituições sociais, sendo promovidos e multiplicados por intermédio do marketing para garantir, por meio dessa fraqueza humana, o funcionamento de um sistema que está destruindo o meio ambiente. David Loy (2003) afirma que os ensinamentos budistas apresentam uma forma de superação dos três venenos e que se esta forma for aplicada nas instituições e mesmo nas culturas, isso poderá trazer efeitos muito benéficos para a vida social.

[Para Loy] as corporações promovem, por intermédio do marketing, o desejo coletivo pela aquisição de mais bens de consumo e a ideia de que a pessoa vale o que possui. (…) Esse mecanismo utilizado pelas instituições, segundo Berger e Luckman (1998, p. 43), dá-se por intermédio de uma constante interação dessa estrutura com o indivíduo de forma a influenciar subjetivamente os juízos de valor das pessoas. Assim, segundo Berger e Luckman (1983, p. 73-4), os mesmos processos sociais que determinam a constituição do organismo produzem o ‘eu’ em sua forma particular, culturalmente relativa. Não é preciso dizer, portanto, que o organismo e, ainda mais, o ‘eu’ não podem ser devidamente compreendidos fora do particular contexto social em que foram formados. Assim, em uma sociedade que cultive os três venenos, os indivíduos naturalmente estarão ávidos pela competição e busca pela aquisição, contrariamente ao preceito budista de compaixão, bondade e amorosidade.”

5 – Espiritualidade e seu papel social

Isso tudo vale, não apenas para o caso do Budismo, mas para toda a forma de religião e de “espiritualidade”, objetivo e cerne de nosso artigo. Mas, o que entendemos por “espiritualidade”, nesse caso? Genz ajuda-nos:

(…) espiritualidade é o desenvolvimento de uma consciência que nos torna progressivamente menos egoístas, mais altruístas e intensamente atentos a nós próprios e aos outros. Em outras palavras: espiritualidade é o oposto de egoísmo. Por isso a noção de compaixão, tão forte no budismo quanto no cristianismo ou qualquer tradição espiritual. Sentir com o outro, sentir o outro. O ponto aqui é que o caminho espiritual é árduo e desafiador, porque coloca em xeque todos os mecanismos, a maioria deles arraigados na forma de hábitos que temos para continuar fazendo a roda girar como um macaco louco.”

Nesse sentido, os sistemas político-econômicos modernos podem muito bem ser os subversores de tal espiritualidade, e vemos com frequência os defensores dos primeiros colocarem a espiritualidade num patamar inferior quando lhes convém.

Para Genz:O capitalismo e seu modus vivendi, o consumismo, embalam e apresentam uma forma de budismo como uma espiritualidade sintonizada com eles, a partir da perspectiva bizarra da modernidade de inserir a espiritualidade como uma categoria a mais nas opções de vida, como uma peça que se encaixa, a peça da espiritualidade, investindo seu possuidor de maior capital social e simbólico nesse mundo performático. Ao invés disso, a espiritualidade tangível é algo concreto, material, que se relaciona com a vida cotidiana. Desenvolver integridade na relação com o mundo é fruto da integração consigo mesmo, algo que exige muito e faz com que isso seja tudo menos algo inofensivo e pusilânime como as seções de meditação cool. Na verdade, a dificuldade aqui é abrir mão das imagens que temos de nós mesmos. Espiritualidade não pode jamais ser o refinamento de nossas personalidades, quanto mais um refinamento de nossas couraças psíquicas.”

Isso tudo faz muito sentido, além da definição já conhecida de espiritualidade como uma tendência humana pela busca de significado para a vida através de conceitos além do tangível, pela busca de um sentido de conexão com algo transcendente a si mesmo. Essa busca pode ou não estar ligada a uma vivência religiosa. No segundo caso, existe inclusive a possibilidade de uma espiritualidade do ateísmo, como propõe André Comte-Sponville, ao falar de uma “espiritualidade sem Deus”, um reconhecimento de sermos seres relativos, mas abertos para o absoluto, um reconhecimento da dimensão misteriosa e ilimitada da existência, sem uma necessária explicação religiosa; uma experiência que vai além do intelecto. O que chamamos de “nova espiritualidade” está menos conectada a religiões e mais próxima da ciência e da filosofia moderna, bem como da consciência social e coletivista.

O papel social da espiritualidade, seja conectada a religiões, ao ateísmo ou a “nova espiritualidade”, resta evidente: fomentar o crescimento do ser, seu bem-estar físico como consequência disso, e uma busca transcendente conforme as inclinações de cada um, preservando fenomenologicamente as nuances da mente humana. Subentende-se aí, um ativismo social ambiental, político, econômico e de direitos humanos, para que tal espiritualidade não se veja desatualizada e sujeita ao envelhecimento na cultura humana, por não prover, de fato, nenhum alento para o sofrimento, interno e externo, que são formas interdependentes, na verdade.

Isso responde à pergunta feita na Introdução do artigo: se as diversas “espiritualidades” devem se posicionar ou não contra raciocínios e ideologias controversas, e se devem não apenas apoiar, mas promover elas mesmas ações práticas no sentido de confrontar tais raciocínios e ideologias, dentro dos limites de suas doutrinas e práticas essenciais. A resposta é SIM em ambos os casos.

Um bom exemplo desse duplo SIM é a postura de Yongey Mingyur Rinpoche, um lama e respeitado professor das linhagens Karma Kagyü e Nyingma do budismo tibetano, que dias atrás divulgou um comunicado abordando os recentes protestos contra a discriminação racial nos EUA e outros lugares do mundo (Ver em https://www.buddhistdoor.net/news/yongey-mingyur-rinpoche-offers-guidance-on-racial-unrest-in-america), deflagrados pelo assassinato do afro-americano George Floyd, no dia 25 de Maio de 2020, por um policial.

Eis alguns trechos importantes do comunicado para o presente artigo:

Caros amigos, membros da comunidade e colegas meditadores,

Estamos vivendo um tempo de agitação e sofrimento sem precedentes. A pandemia global já perturbou todos os aspetos das nossas vidas. Como se isso não fosse desafiador o suficiente, vocês, nos Estados Unidos, agora estão testemunhando e talvez até mesmo experimentando diretamente a dor e a angústia de comunidades sendo dilaceradas pelo sofrimento de homens, mulheres e famílias negras que não foram realmente ouvidas, reconhecidas e atendidas.

A nossa resposta ao sofrimento é frequentemente meditar. Meditamos para ver os nossos próprios pontos cegos com mais clareza. (…) Mas orações e meditação não são suficientes, especialmente em tempos como este. A meditação deve ser acompanhada de ações sábias e compassivas.

(…) Quando o Buda formou a sua própria comunidade, ele desrespeitou as tradições milenares do sistema de castas e permitiu que pessoas de todas as esferas da vida entrassem na Sangha. Não foi perfeito. As mulheres não tinham o mesmo status que os homens. Mas foi uma revolução na época. Ele não orou simplesmente para que o sofrimento do sistema de castas terminasse. Ele usou o poder que tinha para mudar ativamente os sistemas da sua época que estavam causando sofrimento a tantas pessoas.

(…) Devemos reconhecer o papel que estamos a desempenhar no todo. Devemos usar o poder que temos para ajudar quando pudermos e apoiar os outros quando não pudermos. (…) O único caminho a seguir é fazer o nosso melhor. E, ainda que certamente venhamos a cometer erros, se nos deixarmos guiar pela sabedoria e compaixão, os nossos erros nos levarão para mais perto de um mundo que não valoriza mais uma vida do que outra.”

O texto fala por si mesmo. Não adianta só meditar. Ações sábias e compassivas, mas “ações”, são necessárias. E, isso vale para todas as religiões e espiritualidades. Não adianta apenas a prática ritualística ou espiritual. É necessário agir proativamente para diminuir o sofrimento de todas as formas compassivas.

Toda e qualquer forma nobre de espiritualidade DEVE se posicionar claramente contra o sofrimento, seja causado por indivíduos, ideologias, sistemas de governo ou conglomerados econômicos. E, isso, por amor à verdade, a verdade que liberta, de Jesus, a verdade que desperta, do Buda. Não pode haver incompatibilidade entre a prática espiritual e o rechaço a tais formas de manipulação que fazem o sofrimento dos seres só aumentar. Como consequência, toda e qualquer forma nobre de espiritualidade DEVE promover ações práticas de confrontamento a tais manipulações, seja pela ajuda humanitária, pela conscientização ambiental, pelo fomento a atividades cooperativas ou pela cultura de paz. Sem isso, a espiritualidade é morta, pois serve apenas, como definiu Zizek em sua crítica, para “corroborar a hegemonia” dos sistemas opressores em geral, entorpecer as pessoas com seus rituais e doutrinas, e sepultar qualquer contestação do status quo. Isso equivaleria à morte da civilização!

6 – Conclusão

Quando David Loy, citado por Genz, descreveu o engajamento budista por meio de três pilares, percebemos que eles podem ser adaptados a todas as espiritualidades, como um norte para a crítica social e o ativismo pró-verdade e pró-civilização.

O primeiro pilar, a prática espiritual, tem a ver tanto com a dimensão ética quanto com a dimensão transcendental, pois as religiões e espiritualidades em geral consideram “prática” tanto coisas como oração, meditação, contemplação, leituras de textos sagrados e rituais mágicos, quanto comportamentos que se inserem no âmbito da ética, sendo quase universais, como o amor ao próximo, o não matar, não mentir, não roubar, etc. Se a ética e a transcendentalidade não conversam entre si na prática individual e não conduzem a um comportamento mais altruísta e amante da verdade, temos uma prática hipócrita e contraproducente. Esta, aliás, tem sido a práxis comum entre os religiosos de todo o mundo.

O segundo pilar, a não-violência, mais que uma prática, deve ser um comprometimento ético e necessário para o pertencimento tanto da humanidade quanto do corpo espiritual pregado como crença pelos ensinamentos de cada espiritualidade. Não-violência, porém, não é o mesmo que não-crítica, como se a crítica social fosse inadequada ou uma forma de violência. Esse raciocínio é completamente distorcido, devendo ser repudiado, pois caminha na direção do fanatismo, do totalitarismo e do ódio ao contraditório, o que não liberta nenhum ser das amarras do sofrimento e das delusões mentais. Um ato violento em si, deve ser considerado aquele que: deseja o prejuízo do outro, é premeditado e/ou causa regozijo no agressor. Palavras veementes de crítica social que anseiam o fim de discriminação ou ataques a seres humanos, não se encaixam nesses critérios e não podem ser consideradas quebra do comprometimento com a não-violência. Mas, criar e distribuir fake news, por ser algo deliberado, é violento, sim, pois prejudica a verdade dos fatos e as pessoas envolvidas na questão. Apenas mentes superdeludidas percebem isso de modo diverso, pois, em geral, são seletivas e torcem os argumentos para o seu próprio lado.

O terceiro pilar, o despertar conjunto, integra as dimensões transcendental e ética definitivamente, pois considera que tudo está ligado, conectado, interconectado. Cada espiritualidade tem seus próprios termos para isso (união, conexão, imersão, absorção, dissolução, despertar, liberação, libertação, etc.), mas o resultado final é sempre que todos cheguem ao destino final em igualdade de condições (todos podem ser salvos, todos podem se iluminar) e expressando uma felicidade plena.

A solução para a polêmica pergunta deste artigo é, então: uma prática coerente, sem hipocrisias, humanitária, coletiva e autocrítica; uma ação eficiente e proativa não-violenta; um anseio por levar todos os seres ao mesmo benefício que se deseja para si, porém de modo livre, sem proselitismo fanático ou imposição de dogmas e de conversão a quem quer que seja.

Dentro destes parâmetros, achamos que uma espiritualidade do Século 21 e uma “nova espiritualidade”, mesmo no contexto religioso, são possíveis. Fora deles, só podemos prever desgaste e envelhecimento da religião como a conhecemos e um crepúsculo trevoso para a civilização moderna. Reflitamos, oremos, meditemos… e ajamos! 



Sobre o autor


Paulo Stekel é instrutor de Meditação Não-dualista, orientador do Projeto Mahasandhi de Meditação Livre Não-Religiosa, pesquisador de Religiões e Espiritualidades, praticante budista desde 1995 (seu nome budista vajrayana é Pema Dorje), membro do NEDEC²- Núcleo de Estudos e Desenvolvimentos em Conhecimento e Consciência (UFSC – Florianópolis – SC). Tem experiência na área de Linguística, com ênfase em Paleolinguística. É escritor, tradutor, revisor, músico, com vários álbuns lançados desde 2009. É um pesquisador não-acadêmico, professor de Cabala Não-dualista, Sânscrito e línguas sagradas. Especialista na interpretação dos textos sagrados das religiões. Nasceu e cresceu em Santa Maria (RS). Atualmente reside em Florianópolis (SC). Proponente da Hierolinguística (uma nova ciência para o estudo das linguagens sagradas proposta em seu livro “Santo & Profano - estudo etimológico das línguas sagradas”, publicado em 2006). Publicou diversas obras: “Elohê Israel (Os deuses de Israel) - filosofia esotérica na Bíblia” (Independente, 2001); “Projeto Aurora - retorno à linguagem da consciência” (FEEU, 2003); “Santo e Profano - estudo etimológico das línguas sagradas” (GEFO, 2006); “Deuses & Demônios - verdades inauditas e mentiras anunciadas sobre os anjos” (Independente, 2007); “Curso de Cabala - com noções de Hebraico & Aramaico [vol. I e II]” (Independente, 2007 e 2008); “Curso de Sânscrito - com noções de Filosofia Indiana [vol. I e II]” (Independente, 2008 e 2009); “A Alma da Palavra” (independente, 2011). Pesquisador aceito como paleolinguista de formação livre na pesquisa de decifração da escrita Glozélica (França), com trabalho científico reconhecido e publicado em Inglês no website do Museu de Glozel (http://www.museedeglozel.com/Trad2000.htm) desde 2006. Pesquisador aceito como paleolinguista de formação livre pelo arqueólogo bósnio-americano Semir Osmanagic na pesquisa de decifração da escrita Proto-Visoko (Bósnia), com trabalho de decifração preliminar apresentado em Sarajevo pelo egiptologista Muris Osmanagic (2010) e publicado no website Bosnian Pyramids, em Inglês e Bósnio: http://icbp.ba/2008/documents/papers/ICBP_Referat_Stekel.pdf.
Contatos: pstekel@gmail.com


terça-feira, 2 de junho de 2020

Budismo e Antifascismo: uma proposição

Por Paulo Stekel & Joaquim Monteiro


Estabelecer-se no estágio sem retrocesso na existência presente
ouvindo e refletindo sobre o Dharma.


O fascismo bate à porta do Darma

Volta e meia, as ideias fascistas – as mesmas que inspiraram o nazismo – retornam com novas roupagens, mas com o mesmo conteúdo: elitismo (que inspirou a eugenia), ódio ao contraditório, propaganda falsa (hoje, fake news), perpetuamento do poder (o Império de Mil Anos!), uso da força coercitiva cruel em níveis absurdos, ultranacionalismo (com boas doses de hipocrisia, como vemos atualmente no uso de bandeiras de Israel e EUA no lugar da bandeira do Brasil), arregimentação de uma massa de manobra fanática e irracional (por isso, a ciência e os intelectuais são os primeiros a serem atacados) e a crença em uma hierarquia social natural e no domínio das elites (donde o crescente racismo e o ataques a pobres, índios e menos favorecidos).

Independente do que diga a ignorância weintraubesca da massa de manobra atual no Brasil, o fascismo sempre se opõe tanto ao liberalismo, quanto ao marxismo, ao socialismo e ao anarquismo, posicionando-se, portanto, na extrema-direita do espectro político tradicional. E, por isso, é tão perigoso: todos são seus inimigos, reais e imaginários!

Para alguns, o que vivenciamos hoje no Brasil é uma espécie de “fascismo sutil” dentro de uma “ditadura sutil”. A ditadura até pode (ainda) ser sutil, mas o fascismo tupiniquim, tão ridículo quanto o Integralismo de Plínio Salgado, não é nada sutil. Seu descaso com a vida humana é o que há de mais perigoso nele.

E, como nós, budistas, encaramos este distópico momento? Afinal, o fascismo já bate à porta do Darma e é preciso que cada um se posicione.

O mito do budista neutro

Meu amigo de tantos anos e também um irmão no Dharma da mais alta estirpe, o Prof. Joaquim Monteiro, que divide a autoria deste texto comigo, tem respostas claras a questão:

Mesmo em um momento como o nosso, marcado, por um lado, pela séria ameaça à vida e à saúde representada pela pandemia da Covid-19 e, por outro, pelos avanços na direção do fascismo promovidos por um governo criminoso e genocida, ainda existem alguns budistas que não só se recusam a assumir uma postura decididamente antifascismo, como chegam até mesmo a criticar as ações e as posturas antifascismo que começam a se fazer presentes no seio das Sanghas budistas.

Assim sendo, como devemos pensar este problema?

Caso esta questão seja pensada a partir de um ponto de vista mais abstrato, é possível dizer claramente que o ódio fascista decorre diretamente da ignorância que se constitui como o fator central que impulsiona a continuidade do Sansara, e que sem superar este ódio não é possível em momento algum a ruptura com este mesmo Sansara. Ao mesmo tempo, é possível situar o racismo como uma expressão da “arrogância do átman” conforme elucidada pela escola Yogacãra, e que me leva a pensar a relação com nossas e nossos semelhantes apenas em termos de superioridade ou de inferioridade, arrogância esta que precisa ser radicalmente superada no processo de transmutação da consciência. No entanto, não pretendo adotar esta perspectiva no contexto da presente intervenção.

Parece perfeitamente claro que o mito da neutralidade budista diante da ética e da política começou a ruir em nosso país durante o vergonhoso golpe encetado contra a democracia brasileira em 2016, momento este em que diversas lideranças budistas brasileiras assumiram a defesa deste golpe da forma mais abjeta, covarde e irresponsável. Não tenho até o presente momento notícia de alguma autocrítica por parte dessas lideranças, mas o ponto mais importante aqui é que foi precisamente neste período histórico que começou a ruir e a se esfacelar o mito da “neutralidade budista”. Não existe dificuldade alguma em apontar para o caráter falacioso desta postura a partir de uma análise rigorosamente calcada no pensamento budista, mas acredito que seja indispensável colocar por terra de uma vez por todas as falácias que justificam esta postura.

Existem algumas questões que me veem à mente com muita intensidade no momento em que situo meu percurso de vida em meio a uma compreensão da história em termos da realidade dos três tempos conforme elucidada pela escola Sarvãstivãda. A primeira delas foi que o sentimento de impermanência que consumiu minha juventude e que me conduziu ao Budismo foi vivenciado em meio ao terror instituído pela ditadura empresarial-militar que se instalou em 1964. Ou seja, para mim, a impermanência possui um vínculo concreto com o tempo histórico, o sofrimento inerente à finitude da condição humana é inseparável do sofrimento derivado de situações históricas opressivas. A segunda é que todo meu aprendizado do Budismo nos dezoito anos de minha atuação no Japão teve por seu tema central a responsabilidade das ordens budistas japonesas e do pensamento budista japonês na legitimação ideológica das guerras genocidas promovidas pelo militarismo japonês, militarismo este aliado da política nazifascista. Não se constitui em exagero algum afirmar que todo pensamento budista do pós-guerra japonês teve seu ponto de partida em uma autocrítica severa e contundente a respeito desta responsabilidade de guerra. Assim sendo, não é exagero dizer que a ruptura com o mito da neutralidade budista se constitui como a condição mesma do esclarecimento do ensinamento de Buda no atual contexto histórico brasileiro.

Em função do acima, não só aplaudo e saúdo as corajosas posturas antifascismo conforme presentes nas manifestações dos últimos dias, como gostaria de convocar as e os budistas brasileiras(os) a assumirem de forma contundente a responsabilidade pelo ensinamento de Buda em meio à mais trágica e mais radical crise já enfrentada pela sociedade brasileira!!!

Uma revolução de lucidez

Como diz o amigo Joaquim Monteiro, e reitero, o mito da neutralidade budista, distorção muito comum no budismo brasileiro, deve ser rompido. Mas, quantos mestres, líderes e praticantes budistas estão dispostos a isso, considerando a contra investida certa?

Até o momento, além de Joaquim Monteiro (Budismo Shin), o Lama Jigme Lhawang, da Linhagem Drukpa do Budismo dos Himalaias, foi um dos únicos que se pronunciou com veemência em sua página no Facebook (confiram em https://www.facebook.com/pg/dragon.lama.jigme.lhawang). Eis alguns trechos do que ele publicou por lá, nos últimos dias:

Chegou a hora de mostrar a potência dos 70% que não coadunam com visões pequenas que não alcançam a diversidade humana e planetária.

(…) Um só país não está acima de tudo! Um só Deus não está acima de todos! Fazemos parte de algo muito maior, a riqueza da diversidade de culturas, pensamentos e espiritualidades.

(…) Aquele que não inclui em seu coração e consciência toda esta riqueza, não pode ser colocado a cargo da função de protegê-la e conduzi-la ao florescimento.

Já vimos o suficiente, já permitimos o inaceitável.

(…) Não há economia se não há vida. É a vida que traz algum sentido para a economia. A preservação da vida em primeiro lugar, incluindo não só a vida humana, mas a vida animal e a vida do meio, do ambiente, onde vivemos - a vida de nosso planeta! A economia se reinventará, se reorganizará e se configurará com seu verdadeiro propósito - servir a vida! E não o contrário!

(…) População armada, para quê? A necessidade de uma arma é o resultado de uma mentalidade estreita, uma perspectiva de curto alcance, ignorante, porque ignora as causas primárias criadoras desta necessidade e se justifica nos sintomas de um sistema elitista que é um dos elementos construtor de tais cenários. O que testemunhamos em nossa sociedade é criado pela sociedade e não algo natural. É construído através de uma cadeia de atitudes, percepções de mundo - uma cultura ineficaz que se instalou na psique de alguns grupos humanos.

Fatos nos mostram que, ao contrário da premissa de que uma arma protege, ela cria situações de mais risco, violência e descontrole. As armas despertam um excesso de confiança, super poder, e superioridade destacando e potencializando desequilíbrios emocionais como a hostilidade, o autocentramento, a imposição, repressão e a brutalidade.

Que nosso povo possa se armar sim, das verdadeiras armas contra a ignorância, ganância e hostilidade - o armamento que é a verdadeira e grandiosa potência humana - a consciência, benevolência e a compaixão!

Não há culpados. Não há inimigos. Há ignorância. Ignorância, enquanto ignorar aquilo que já sabemos e desconhecimento enquanto o não reconhecimento das estruturas internas que regem nosso comportamento, raciocínio e intenções.

Sigamos em prol de uma revolução de lucidez e uma cultura de excelência no domínio interno, que é a fonte central nas manifestações de nossa sociedade. Por uma educação do coração e da consciência!”

Palavras necessárias mais do que nunca! Óbvio que a estas palavras seguiram-se comentários acirrados de “budistas bolsonaristas” (uma contradição lógica!), criticando a postura do Lama como sendo “política” e “polarizada”.

O nível de pós-verdade a que chegamos é inenarrável. O budismo prima pela busca da Verdade, a Verdade sobre a nossa natureza, a natureza da mente, a natureza de Buda. Não pode, de modo algum, compactuar com ideias anti-verdade, noções esquizoides que pretendem que a verdade dos fatos foi cancelada e depende meramente de opinião pessoal. Mesmo quando os fatos estão confirmados, os adeptos da pós-verdade não retiram os antolhos e só aceitam o que os beneficia de algum modo. Aliando a isso um comportamento agressivo contra quem resiste em defender a verdade, o pensamento fascista vai se estabelecendo cada vez, e requer uma contramedida à altura. A veemência do discurso em prol da verdade é, até aqui, o que mais efetivo pode ser sugerido a budistas e simpatizantes a partir de agora.

Sim, budistas não devem ser violentos, mas também não devem ser ingênuos. Sabemos muito bem os preceitos que devemos seguir e não precisamos que pessoas sem nenhuma espiritualidade, ainda que cristãos, mas hipócritas, nos digam como devemos praticar aquilo sob o qual tomamos refúgio – as Três Joias de Buda, Darma e Sanga. Deveriam eles, sim, lembrar seus próprios compromissos com a vida, com o amor ao próximo e com a Verdade que liberta. Caso contrário, são cegos tentando ensinar a quem enxerga.

O que vemos nascer neste momento é mais que um Budismo Engajado, é um Budismo Revolucionário Engajado, um darma conectado às dores e necessidades dos seres deste planeta, não apenas os humanos, mas todos. E, como disse Lama Lhawang muito bem, deve ser uma “revolução de lucidez”, algo só possível através do rompimento com o mito do budista neutro, como disse Joaquim Monteiro.

Nenhuma revolução sem lucidez produz benefícios, assim como nenhuma neutralidade resolve a questão. Então, aqui declaramos:

Somos budistas antifascistas!




Sobre os autores

Paulo Stekel é praticante budista vajrayana desde 1994 e instrutor de meditação livre não religiosa.


Joaquim Monteiro é professor do Dharma Shin-budista.