segunda-feira, 26 de agosto de 2019

A Canalização de Paulo Stekel

Por Paulo Stekel


Como tudo começou

Paulo Stekel teve o seu primeiro contato com os instrutores espirituais que trabalham com a canalização aos 9 anos de idade. O contato ocorreu espontaneamente, sem que Stekel o tivesse desejado, já que nem sabia o que estava acontecendo. Seu mentor principal, Danea Tage, o contatou quando criança e perguntou se desejava que ele o orientasse nesta vida. Stekel aceitou de pronto e seu mentor prometeu que ele nunca o decepcionaria, mas também não interviria sem permissão em sua vida pessoal.

Dos 9 aos 20 anos seu mentor o ensinou, orientou os livros que deveria ler e o fez canalizar os primeiros textos com informações e ensinamentos espirituais elevados para o seu próprio uso. Neste tempo, Stekel ainda não sabia o nome de seu instrutor, pois isto não era o importante naquele momento. O nome do mentor – Danea Tage, que em linguagem cósmica significa “guardião da verdade” - só foi revelado em janeiro de 1991, quando o instrutor, ao final de um processo de canalização sobre suas vidas passadas que durou alguns dias, o fez usar um pêndulo para descobrir o nome que seu mentor desejada usar, pois se tratava de uma entidade não-física, pertencente aos planos da não-forma, onde os mentores possuem consciência, mas não uma forma física – na verdade, nunca tiveram aquilo que chamamos popularmente de uma “encarnação”. Contudo, estes mentores são seres vivos, não desencarnados, não mortos.


Fases de desenvolvimento

A primeira fase do desenvolvimento de Stekel com canalização durou dos 9 aos 20 anos. Neste período, ele conheceu também a mediunidade espírita, mas viu que o processo não era igual ao que ocorria quando canalizava seu mentor. O processo mediúnico era mais pesado, enquanto a canalização era bem mais leve e o deixava num estado plenamente consciente, aprendendo com o mentor quando ele se manifestava. Até esta época, Stekel só canalizava textos escritos para seu próprio aprendizado, para estudo posterior.

A partir de 1991, Stekel começou a receber solicitações de alguns amigos próximos para canalizar mensagens pessoais. Estas mensagens eram orientações para pessoas vivas. Contudo, algumas mensagens enviadas por falecidos também foram canalizadas em raros momentos.

Em 1996, seus estudos de canalização se intensificaram, tanto através das orientações vindas de seu próprio mentor, quanto aquelas vinda da pouca literatura existente até então no Brasil. Em 1998, Stekel criou um grupo que envolvia tanto mediunidade quanto canalização chamado “prática universalista”, e, então, seu processo de canalizar se ampliou, com outros mentores além de Danea Tage passando a se apresentar. Este grupo durou cerca de 3 anos e foi encerrado pouco antes de sua mudança do interior do Rio Grande do Sul para a capital Porto Alegre, em 2002.

A partir de 2002, Stekel começou em várias cidades a atender com leitura de canalização para clientes, ministrar o curso de canalização e realizar a atividade que ele chama de Encontro de Canalização. O número de mentores que assina as mensagens varia, não chegando a dez, pois Stekel prefere trabalhar com energias bem focadas no propósito de seu trabalho, que é orientar os vivos, treinar os que desejam canalizar e ensinar o que se chama de “Nova Espiritualidade”, uma espiritualidade além do dogma e do fanatismo do modelo antigo, onde o protagonismo do indivíduo passa a ser reconhecido. Mas, como Stekel reconhece, nenhum protagonismo é possível sem conhecimento e sem sabedoria. Ninguém pode ser mestre de si nem de ninguém sem ética, sem estudo, sem conhecimento e sem sabedoria, além de muito amor incondicional.


Leituras de Canalização

É um atendimento individual, no qual o canalizador se conecta a seus mentores para fazer uma “leitura” da vida do cliente. Após um passe de limpeza, seguido de uma energização, para melhorar a qualidade da energia vital, o mentor escreve de modo canalizado um texto sobre a situação enfrentada pelo cliente e, no final da mensagem, traz uma orientação sobre o que fazer para resolver, minimizar ou pelo menos enfrentar determinada dificuldade. Não se faz perguntas, pois os mentores conseguem captar o que a pessoa necessita. Também podem vir, além de texto, desenhos, mandalas e receituário. Quando este atendimento é feito pessoalmente, há o passe de limpeza e a energização. Quando é um atendimento à distância, não há o passe, mas o envio de uma energia de limpeza à distância.


Encontros de Canalização

É um evento coletivo, no qual Stekel, através de seus mentores, canaliza mensagens por escrito – as chamadas “psicografias” - para dezenas de pessoas ao mesmo tempo. Também podem vir, além de texto, desenhos, mandalas e receituário. Cada mensagem leva cerca de 2 minutos para ser escrita e todas são canalizadas em sequência, sem intervalo. Em geral, Stekel fica de 2 a 4 horas canalizando sem parar. Durante este evento, os mentores canalizam um texto sobre a situação enfrentada pelo cliente e, no final da mensagem, trazem uma orientação sobre o que fazer para resolver, minimizar ou pelo menos enfrentar determinada dificuldade. Não se faz perguntas, pois os mentores conseguem captar o que a pessoa necessita. A pessoa deverá ler a mensagem com mente aberta, refletir sobre ela e implementar as sugestões dos mentores para uma melhora das condições de vida – física, mental, emocional e espiritualmente.


Cursos e Workshops

Até pouco tempo, o Curso de Canalização, com duração de um fim de semana, era a forma de Stekel instruir os interessados em aprender a canalizar. Por orientação dos próprios mentores, atualmente, o Treinamento em Canalização é feito por Stekel através de três workshops de instrução sequenciais, que são:

Workshop de Canalização 1 – Proteção Psíquica (PROP)

Ensina o que é Mente, Consciência, o que é Canalização, sua diferença com relação a Mediunidade, mantras e outros procedimentos de proteção psíquica, e os graus de consciência durante a canalização. Em especial, é ensinado o mantra cabalístico “Qadosh” como forma de proteção angélica durante o processo de canalização.

Workshop de Canalização 2 – Sintonização dos Mentores (SIM)

Ensina sobre os planos invisíveis e seus vários níveis, os tipos de entidades que podem se manifestar, de que modo podem se manifestar, os cuidados necessários, como avaliar as mensagens recebidas e, ao final, a sintonização do mentor principal de cada participante, bem como uma breve descrição do propósito dele, seu histórico, nome e conexão com a pessoa a quem ele rege.

Workshop de Canalização 3 – Terapia Energética por Canalização (TEC)

Ensina o procedimento de “canalização de campo”, o passe de limpeza, a energização e as bases da terapia espiritual chamada “técnica energética por canalização” (TEC), que se assemelha à cirurgia espiritual, mas sem nenhum tipo de instrumento de corte.

Após completar os três workshops

Quando o interessado tiver completado a instrução nos três workshops, já saberá o nome do seu mentor principal, terá as técnicas de proteção e poderá continuar o seu desenvolvimento sozinho. Na verdade, a pessoa pode continuar treinando em casa, para fornecer orientação como um canalizador independente – método principal dos espiritualistas dos EUA, Canadá e Europa, ou se inserir em grupos que trabalham com canalização ou que a incluem em suas várias atividades mediúnicas. Neste caso, a pessoa pode participar de um Grupo Fraterno de Canalização, de Apometria ou mesmo uma Casa Fraterna espiritualista que esteja aberta à técnica da canalização. Existem várias pelo Brasil, mas se não há na cidade em que a pessoa vive, ela mesma pode abrir este trabalho. Stekel sempre dá assessoria após os workshops a todos os interessados, sejam canalizadores independentes, os inseridos em grupos ou os que desejam abrir o seu próprio grupo.

IMPORTANTE: Canalização não é religião, não possui uma doutrina que pertença a uma determinada religião – cristianismo, espiritismo, etc. – e não possui gurus, papas ou figuras de autoridade que determinam o que se pode ou não canalizar. Canalização é um processo místico, que envolve estados ampliados de consciência, no qual o protagonismo é o do indivíduo junto a seus mentores. Cada um deve avaliar por si mesmo se o que determinado canalizador canaliza é válido, tem alguma utilidade, ou não. O livre-arbítrio de cada um deve ser usado neste sentido. Dito isto, fica claro que: canalização não é espiritismo, é espiritualismo; canalização não é kardecismo, é espiritualidade; canalização não é cristianismo, é uma espiritualidade universal, informada pelos próprios mentores, além de qualquer doutrina terrena limitada.


 




Se você deseja:

- Um atendimento individual presencial ou à distância com Paulo Stekel através da Leitura de Canalização;
- Uma mensagem canalizada pessoal presencial (durante um encontro de canalização) ou à distância;
- Treinar a canalização fazendo os três workshops de instrução com Paulo Stekel em sua própria cidade;
- Convidar Paulo Stekel (Florianópolis - SC) para ministrar os workshops de instrução ou encontros de canalização em sua cidade, tenha você ou não um espaço ou organização que possa encabeçar este convite e organizar tudo;


É só entrar em contato pelo e-mail pstekel@gmail.com

Ou pelas redes sociais:

Twitter: @_stekel
Instagram: /pstekel


sexta-feira, 16 de agosto de 2019

Conhecendo as Dez Sefirot

Por Jay Michaelson (tradução do artigo publicado no site Learn Kabbalah – https://learnkabbalah.com, feita por Paulo Stekel, sob autorização expressa do autor)

 

Keter, Hochmah, Binah

A tríade “superior” das sefirot é, em certo sentido, a mente de Deus. Keter, que significa “coroa”, é transracional e está além de toda cognição. Quase nada podemos dizer sobre ela, exceto que é a primeira agitação do que chamaríamos de “vontade” dentro do Infinito. No mundo de Keter, nada existe: nem “Deus”, nem o universo, apenas o Ein Sof, com a intenção mais sutil de se expandir para a manifestação. (É importante que continuemos a nos lembrar, a propósito, que a linguagem espacial e temporal da Cabala Teosófica é apenas analógica. Não há antes e depois neste mundo do Divino, e não há próximo nem longe. Tudo está agora e aqui, todos esses processos primordiais estão, de nossa perspectiva, ocorrendo constantemente.)

Hochmah, que significa “sabedoria”, é como um ponto: nenhuma dimensão própria, mas o ponto de partida para a dimensionalidade. De nossa perspectiva, Hochmah é aquela “sabedoria superior” que alguns sistemas chamam de consciência primordial. É a primeira qualidade a proceder do Nada: esse Ser sabe. Essa qualidade noética do universo - que toda folha “sabe” quando cair no outono, que todo átomo “sabe” como se organizar - é, para os Cabalistas, a qualidade mais refinada do mundo manifestado. Se você gostaria de imaginar a emanação da Sefirot em termos do Big Bang, Hochmah é a singularidade sem tamanho, mas com as “leis da natureza” já instanciadas. Não há nada lá, mas existe a Sabedoria Divina que organiza toda a criação.

Binah, significando “compreensão”, é um tipo de parceiro para Hochmah. As sefirot são geralmente de gênero (às vezes, de vários gêneros), e sua interação é frequentemente descrita como uma série de intercâmbios eróticos. Neste caso, Hochmah é o macho e Binah é feminino, o ventre divino, o princípio gerador do resto do universo. Binah dá à luz as sefirot e, assim, ao mundo da manifestação em si. Ela é a mãe Divina oculta, oculta e superna. Ela também é o começo da separação - Binah está relacionada às palavras para conhecimento baseadas em distinções. Binah é o oceano, o palácio de muitas câmaras (note aqui o sabor junguiano para as associações simbólicas), e o útero no qual Hochmah semeia a semente da criação. Ela é a base do espaço e do tempo - ainda não expandida, ainda não contratada, mas o princípio da espacialidade e temporalidade em si, pronto para dar nascimento ao mundo.

(Você pode ver em alguns diagramas das sefirot um princípio adicional conhecido como da'at, ou “conhecimento”. Da'at é geralmente visto como a síntese de Hochmah e Binah, e um tipo de reflexão, em nossas mentes, de Keter. Da'at não é uma das dez Sefirot, mas como um princípio mediador e sintetizador entre Hochmah e Binah, é importante em alguns sistemas. Deixemos de lado por enquanto.)

Façamos uma pausa por um momento para explorar algumas das sutilezas – realmente, apenas a ponta do iceberg - nessas três primeiras Sefirot. Primeiro, observe que mesmo neste nível mais alto e mais abstrato, muitos dos temas da Cabala já estão em jogo. Para aqueles que esperam apenas a linguagem do deus masculino, e que supõem que há uma distinção dura e rápida entre religião e sexualidade - bem, surpresa. A Cabala é rica em linguagem da deusa feminina, ao mesmo tempo em que se esforça para integrar essas diferentes faces do Divino dentro de um sistema monoteísta. A Cabala também é rica em metáforas eróticas - se Hochmah e Binah parecerem surpreendentemente incorporadas, espere até chegarmos a Tiferet, Yesod e Shechinah/Malchut. Nem é apenas uma metáfora - não é “como” união sexual, é a essência da união sexual; é sobre o que generatividade e sexualidade são. Quer a união entre masculino e feminino ocorra entre duas pessoas, ou dentro de uma pessoa, trata-se, em última instância, do jogo do próprio Divino.

Observe também as correlações notáveis entre a Cabala e outros sistemas de pensamento. Binah e Hochmah mapeiam facilmente o pensamento do “lado esquerdo do cérebro” e do “lado direito do cérebro”, embora os cabalistas presumivelmente não tivessem conhecimento científico da estrutura interna do cérebro. Já fiz uma analogia com a teoria do Big Bang da origem cósmica. Muitas pessoas sugerem semelhanças entre a árvore das Sefirot e o sistema hindu dos chakras, centros de energia dentro do corpo. E, à medida que avançamos através das Sefirot restantes, você verá um vocabulário emocional, corporificado e cognitivo surpreendentemente rico - talvez não o que você poderia esperar de um grupo de rabinos medievais. A forma como nos relacionamos com essas semelhanças depende de nós, mas é importante estar ciente de como você está processando. Por um lado, os chakras e as sefirot são sistemas diferentes. Não sabemos das ligações históricas entre eles e existem diferenças e semelhanças. Por outro lado, seria estreito demais negar as semelhanças, e é interessante especular sobre como dois sistemas completamente diferentes chegaram a versões semelhantes de suas verdades. Claramente, no caso de sefirot/chakras, todos nós experimentamos o mundo através de estruturas corporais semelhantes, então faz sentido que haja alguma sobreposição. Mas é um pouco mais difícil explicar o Big Bang.

Em todo caso, eu sugeriria, no modo da própria Cabala, uma dinâmica permitindo que múltiplos discursos aconteçam dentro de você ao mesmo tempo. Mantenha sua mente cognitiva, histórica e conceitual operando. Mas também permita que sua mente (e coração) intuitiva, fenomenológica e espiritual suba, brinque e improvise com esses conceitos e ideias. De fato, com todas as combinações e permutações de sefirot, letras, respirações e números, você pode começar a sentir que a Cabala é apenas uma questão de jogo. De certa forma, é. Saltar de símbolo para símbolo é como brincar com brinquedos divinos, no playground de Deus. Tente! Brinque de esconde-esconde com Deus e veja quem você encontra.

Hesed, Gevurah, Tiferet

A segunda tríade na árvore das sefirot é a de Hesed, Gevurah e Tiferet, ou benignidade, julgamento e harmonia. Essa tríade é provavelmente a mais fácil de entender, e muitas vezes começo com ela quando ensino alunos iniciantes, embora haja muitas sutilezas dentro dela (como em todas as sefirot) também.

Por vezes, expresso a relação dinâmica entre Hesed e Gevurah em termos de relacionamento humano. Podemos supor que tudo o que queremos no mundo é mais Hesed, mais bondade e uma pessoa deve tentar cultivar e expressar o máximo disso possível. Muitas vezes, isso pode ser verdade. Mas imagine um relacionamento em que um parceiro esteja sempre cheio de hesitação, fazendo tudo pelo outro parceiro, não cuidando de suas próprias necessidades, e tentando, o tempo todo, ajudar, nutrir, alimentar, apoiar, orientar, prover e geralmente amar o outro. Rapidamente, tal relacionamento se tornará disfuncional. Eventualmente, o outro parceiro formará uma dependência do primeiro, ou se sentirá sufocado ou ansiará pela autoexpressão e algum grau de autossuficiência. Um relacionamento em que a separação é completamente perdida, não é um relacionamento saudável. Assim, mesmo no caso de dois amantes, a Gevurah - restrição, retenção - é necessária.

Kal v'chomer - quanto mais - na vida diária. Quando volto do retiro de meditação, eu, como a maioria das pessoas, sinto muito mais Hesed do que o habitual. Quero dizer ao balconista do metrô o quanto aprecio seu trabalho duro. Quero assinar todos os e-mails comerciais com “Amor”. Em geral, estou em um lugar bonito, aberto e extremamente sensível – mas, completamente inadequado para a interação social comum, em que os limites são importantes.

Agora, esses exemplos geralmente são a exceção e não a regra. Acho que todos podemos concordar com Burt Bacharach de que o que o mundo precisa agora é mais amor, não mais fronteiras – e, certamente não mais julgamento. Mas, estou usando esses exemplos para demonstrar um aspecto crítico de como a Cabala Teosófica vê o mundo: como necessidade de equilíbrio. Normalmente, sim, o que nosso mundo precisa é mais Hesed, mais amor bondade; mais extensão do eu para ajudar e nutrir os outros. Mas não por causa de Hesed, mas por causa de Tiferet - harmonia, beleza, compaixão - o lugar de equilíbrio entre Hesed e Gevurah. No reino humano e no reino divino, é o equilíbrio que é constantemente buscado, e é o equilíbrio que é sempre elusivo. Nós não resolvemos nossas perguntas de Hesed e Gevurah de uma vez por todas, seja no relacionamento ou em nossas vidas profissionais ou mesmo em nosso ser físico. Cada momento, pode-se dizer, é um momento de mudança dentro das energias sefiróticas, e contato com o áin do nada primordial. E assim, todo momento merece atenção.

Outro princípio-chave da Cabala Teosófica é que nossas ações “abaixo” afetam os reinos divinos “acima”. Isto é, na verdade, uma noção chocante e radicalmente antifilosófica. Nós mudamos Deus? Deus precisa de nós para trazer equilíbrio às Sefirot? É útil lembrar, no entanto, que em geral estamos trabalhando dentro de uma estrutura não-dual: como os vedantinos hindus gostam de dizer, Você é Aquilo. No seu mais profundo, você é quem está procurando; você é o único sujeito e objeto que existe no universo. É fácil deslizar para o dualismo quando dizemos coisas como “reinos humanos” e “reinos divinos”. Mas existe apenas um reino, realmente, e o soberano é também o sujeito. Ainda assim, da nossa perspectiva, parece haver uma divisão entre o celestial e o temporal - ainda que para os Cabalistas teosóficos, os reinos se interpenetrem e afetem uns aos outros.

Consequentemente, encontra-se na literatura cabalística, centenas (se não milhares) de orações e práticas destinadas a “adoçar” Gevurah com mais Hesed. Lembre-se, a Cabala não foi escrita por Burt Bacharach; é uma literatura de exílio, perseguição e esperança. Muitos dos cabalistas mais importantes experimentaram traumas de vida que você e eu, se Deus quiser, nunca conheceremos. No mundo judaico, muitas vezes se ouve sentimentos expressos de que o holocausto foi um evento único, sem precedentes. Talvez sim, mas a Expulsão Espanhola, os massacres de Chmielnicki, as Cruzadas - estas certamente chegam perto. A Cabala é uma literatura dos oprimidos para os oprimidos; seus escritores e praticantes sabiam muito melhor do que nós que é necessário mais Hesed no mundo.

E eles acreditavam que a ação ritual, a oração e a intenção correta poderiam trazer as sefirot a um melhor equilíbrio. Os cabalistas podem ter sido impotentes nos reinos terrestres, mas acreditavam possuir um grande poder nos divinos. O Templo permanece inacabado, mas o Templo celestial - aquele acessível através da meditação, e mantido através da oração e da piedade - perdura.

Pode parecer um salto estranho de relacionamentos disfuncionais para templos celestiais. Mas não para a Cabala Teosófica. Lembre-se, o microcosmo e o macrocosmo se espelham: nossa experiência reflete a experiência Divina, porque é a experiência Divina, em uma microescala. Os padrões de nossas vidas, de nossos corpos, corações, mentes e espíritos, se assemelham aos padrões da manifestação Divina, porque todos esses fenômenos são manifestações Divinas. É assim que podemos dizer que somos criados "à imagem de Deus".

Você pode experimentar as oscilações entre Hesed, Gevurah e Tiferet em sua própria vida. Tudo o que precisa fazer é cultivar alguma atenção para como as energias estão trabalhando dentro de si. Você pode fazer isso no nível do corpo, coração, mente ou espírito, embora o coração seja provavelmente o mais fácil para essa tríade. Observe, quando fala, como Hesed e Gevurah estão operando na maneira como você fala, o quanto compartilha e o que deixa de fora. Ao interagir com alguém, veja qual energia - e não quero dizer nada físico ou paranormal com essa palavra; só quero dizer o que alguns chamam de “tom de sentimento” - você está experimentando a partir deles. É provável que você, como a maioria de nós, recue dentro das conchas de Gevurah para se proteger em um mundo por vezes insensível. Você pode, quando está em um espaço mais seguro, se abrir e se expandir com Hesed?

Um último ponto sobre Hesed e Gevurah. Como sabemos que as Sefirot são de gênero, poderíamos esperar que Hesed (amor) fosse feminina, como o doce amor materno e a dura Gevurah como masculina. Na verdade, o oposto é o caso. Hesed é homem em gênero porque é aquilo que se expande, que explode; é um princípio ativo, semelhante ao yang. Gevurah é feminina em gênero porque recebe, encerra e até constringe; é como o princípio yin. O patriarca Abraão está associado com Hesed, e olha o que ele faz: ele deixa sua terra natal, ele sai do seu caminho para estabelecer relações com os outros, e em seu momento de definição de vida, a ligação de seu filho Isaac, ele é o ativo princípio, pronto para enviar sua mão contra seu filho. Isaac está associado a Gevurah. Ele é o partido receptivo no drama da akedah, e ele é passivo durante a maior parte de sua vida (por exemplo, como o destinatário dos truques de Rebeca e Jacó).

Observe que a Cabala não tem problemas, ao que parece, com homens que têm aspectos femininos: Isaac e o rei Davi são ambos associados a sefirot de gênero feminino. A Cabala entende que as almas são complicadas e que os homens podem ter características femininas, assim como as mulheres podem ter características masculinas. De fato, tanto Jacó como José são descritos nas narrativas bíblicas como possuidores de atributos masculinos e femininos. Observe, também, que nossas suposições sobre o que são esses atributos, que são, obviamente, condicionados por nossa cultura, não são necessariamente acurados. Temos nossas noções de gênero culturalmente construídas e andamos por aí supondo que todos as compartilham. Não tanto! Dentro da díade de Hesed e Gevurah e de sua resolução em Tiferet, vemos não apenas um mapeamento incomum de gênero, mas uma transcendência da própria noção diádica.

Hesed e Gevurah juntos sustentam o mundo. Se não houvesse amor divino, não haveria mundo algum. Se não houvesse restrição divina, o mundo ficaria sobrecarregado. Se não houvesse Gevurah no nível cultural, não haveria justiça; mas sem Hesed, não haveria misericórdia. Na linguagem da Cabala, estamos sempre nos esforçando para o equilíbrio de Tiferet, quer o conheçamos quer não, e no entanto, concebemos o seu desdobramento. Mais importante ainda, todas as partes de nós mesmos são valiosas, mesmo aquelas que nos ensinaram a desprezar. Talvez elas estejam desequilibradas e precisem adoçar. Mas, nunca negação absoluta.


Netzach, Hod, Yesod

Esta é a próxima tríade das Sefirot: Netzach, Hod e Yesod. Muitas fontes dizem que estas são as mais difíceis de se entender, e asseguro-lhes que a explicação que dou aqui, embora baseada em Cordovero e no pensamento hassídico, não é a única. Você encontrará facilmente outras que contradizem isso. Lembre-se, não há autoridade central patrulhando o dogma da Cabala. É um pouco como o budismo tibetano, com múltiplas linhagens e respeito entre elas, desde que se saiba que a conduta e a intenção dos professores são corretas.

Netzach significa “eternidade”; é o aspecto da revelação que se estende horizontalmente para todo o tempo, e o atributo da resistência dentro do Divino - no sentido de que “a misericórdia de Deus dura para sempre” e o uso mais comum da resistência nos tempos difíceis. Hod, seu complemento, significa “esplendor”. É o aspecto da revelação que existe verticalmente, como uma experiência de pico, ou contato com aquilo que é transcendência. É a fonte do que Heschel chamou de experiência de assombro radical: o encontro inquietante com o numinoso que engendra o nascimento da maravilha.

Nos planos mais mundanos, podemos (tomando emprestado de Thomas Edison) entender Hod como inspiração e Netzach como transpiração. Hod são aqueles momentos de insight em que cantamos e gritamos “uau!”. Netzach é o resto dos tempos. Hod é, em relação, aquelas noites perfeitas em ilhas tropicais, onde o sol se põe sobre a água e a noite está cheia de amor. Netzach é as vezes que você pega seu amante no aeroporto. Parafraseando o rabino Zalman Schachter-Shalomi, Hod é como uma Ferrari; Netzach como um jipe. Parafraseando Jack Kornfield, Hod é o êxtase; Netzach é a lavanderia.

Em nossa cultura, muitas vezes há uma tendência de fugir de Netzach e abraçar apenas Hod. Nossa cultura popular é escapista, fundamentada em um sistema econômico que perdura precisamente fornecendo muitos momentos de mini-Hod para nos distrair de nossa realidade de Netzach. Consequentemente, uma vez que Netzach se torna vista como o dia a dia e o tedioso (mesmo em formas miniaturizadas e bastardas como passatempos agressivos ou emoções baratas) é a parte divertida, Netzach torna-se aquilo que é meramente tolerado. O misticismo tem a ver com êxtase, não com lavanderia; o amor é paixão e não confiabilidade. Mesmo que a maioria dos americanos viva vidas seguras nos subúrbios (Netzach), seu discurso cultural baseado em propagandas diz que seu carro nasceu para ser selvagem (Hod).

Como você já sabe, se tem lido os meus artigos linearmente, essa não é a abordagem cabalística. Nós nunca queremos valorizar uma sefira sobre a outra; queremos valorizar o equilíbrio e dinamismo entre elas. Às vezes Netzach, às vezes Hod; ambas são necessárias para se unir em Yesod, que é a base da geratividade e produtividade. Quando você está trabalhando com Netzach, saiba que está trabalhando com Netzach; tenha em mente se você está desequilibrado, mas não denegrindo uma sefira em favor de outra. Da mesma forma, quando está experimentando um momento expansivo de Hod, saiba que está experimentando Hod; não imagine que isso vai durar para sempre, mas também não pare de ser elevado”. Momentos Hod nos dão o suco para continuar; Netzach é o que está acontecendo.

Mais uma vez, para traçar um paralelo entre os relacionamentos, uma parceria que carece de parceria é uma parceria sem tempero, sem uma faísca. No final das contas (pode-se até dizer que espero) seja insatisfatória. Da mesma forma, uma parceria sem Netzach é uma parceria sem estabilidade. Ótimo o sexo, claro; mas onde é que ele/ela está pela manhã?

No esquema cabalístico, Netzach e Hod se equilibram em Yesod. Se Tiferet é o centro do coração, reunindo as várias energias emocionais no núcleo do equilíbrio interno, Yesod é o órgão sexual, reunindo as várias energias produtivas para o lugar da geratividade. Lembre-se de que todas as Sefirot têm correspondências anatômicas: Hesed, Gevurah e Tiferet são braço direito, braço esquerdo e centro do coração; Netzach, Hod e Yesod são perna direita, perna esquerda e órgão sexual.

Em alguns quadros das Sefirot, Yesod é simplesmente o falo e, em muitos textos cabalísticos, ela funciona dessa maneira. Mas, a situação é realmente mais complicada. Sexualmente, Yesod é o canal entre a energia masculina e feminina e, como tal, inclui a genitália masculina e feminina. Pense nisso em termos de geração e procriação. Yesod é onde as energias se juntam - os Cabalistas não têm uma ideia de “material genético” como nós, embora funcione muito bem - e estão unidas em manifestação, que é Malchut - a última sefira a que chegaremos a seguir. Para um homem, isso pode ser entendido como unir todas as energias e projetá-las no mundo. Para uma mulher, pode ser entendido como reunir todas as energias para que sua manifestação possa ser gerada.

Espero que esteja claro que essa imagem sexual é metafórica e atual. Usamos linguagem gerativa em nossa fala comum o tempo todo: “a ideia é gestar”, por exemplo. E, certamente, isso também se aplica a Yesod. No entanto, o microcosmo reflete o macrocosmo; nossa experiência de união reflete a estrutura do universo.

A propósito, isso é verdade independentemente de como vivenciamos a sexualidade. Embora o sistema cabalístico seja obviamente heteronormativo, ele também inclui uma variedade de permutações de gênero: entre duas sefirot femininas, entre uma figura masculina que é feminina de gênero e uma energia Divina que é masculina de gênero, e assim por diante. Ainda assim, para alguns, pode não ser útil ver aquilo que é produzido como “feminino” e o que produz como “masculino”, ou, refletindo sobre Hesed e Gevurah, ver aquilo que se expande como “masculino” e aquilo que recebe como “feminino”. Alguns podem ver esse tipo de linguagem como hierarquias e estereótipos reforçadores, e seria insensato tentar sombrear ou pedir desculpas por esse aspecto da Cabala fingindo que é diferente do que é. Mas, seria uma pena perder o aspecto experiencial da Cabala teosófica: a erotização da própria experiência, o profundo conhecimento de toda a realidade como o amor divino.

Inspiração, determinação e ação: os dois condicionam o terceiro, sustentam-no e permitem que o que antes era apenas um pensamento se manifestasse em realização. Agora vamos terminar nossa turnê das sefirot com Malchut, o Feminino Divino como manifestado no mundo, no próximo artigo.

Sobre o autor

Dr. Jay Michaelson é autor de seis livros e mais de trezentos artigos sobre religião, sexualidade, direito e prática contemplativa. Ph.D. em pensamento judaico pela Universidade Hebraica , é colunista do jornal The Daily Beast e do Forward. Em sua “outra” carreira, Jay é professor assistente afiliado ao Seminário Teológico de Chicago, ensina meditação em linhagens budistas theravadas e judaicas e possui ordenação rabínica não-denominacional.

De 2003 a 2013, Jay foi um ativista LGBT profissional. Fundou duas organizações LGBT judaicas e apoiou o trabalho de ativistas em todo o mundo na Arcus Foundation, no Democracy Council, e seu novo projeto no Daily Beast, Quorum: Global LGBT Voices.

segunda-feira, 12 de agosto de 2019

O papel da espiritualidade na vida humana

Por Stanislav Grof*


* Este texto é o tópico 9 da conferência intitulada “O futuro da Psiquiatria e da Psicologia: desafios conceituais da pesquisa clínica da consciência”, apresentada durante o congresso internacional Science and the Primacy of Consciousness, realizado no período de 22 a 24 de abril de 1998, na Universidade de Lisboa, em Portugal. O texto foi publicado no Brasil no livro “A Revolução da Consciência – Novas descobertas sobre a mente no século XXI”, organizado por Francisco Di Biase e Richard Amoroso (Vozes, 2004)

Na visão do mundo da ciência materialista ocidental só a matéria existe realmente e não há lugar para qualquer forma de espiritualidade. Ser espiritual é visto como um sinal de falta de instrução, de superstição, de um pensamento mágico primitivo, de fantasias ambiciosas e de imaturidade emocional. Experiências empíricas das dimensões espirituais da realidade são consideradas como manifestações de doença mental séria, de psicoses. A pesquisa sobre estados holotrópicos (ver Nota 1 ao final) da consciência trouxe evidências de que, se propriamente compreendida e praticada, a espiritualidade é uma dimensão natural e importante da psique humana e do esquema universal das coisas.

Para evitar a confusão e o desentendimento que no passado atormentou as discussões sobre a vida espiritual e criou um falso conflito entre religião e ciência é essencial deixarmos bem clara a diferença entre espiritualidade e religião. A espiritualidade é baseada em experiências diretas de dimensões da realidade que normalmente estão ocultas. Ela não exige, necessariamente, um lugar especial, ou uma pessoa especial mediadora do contato com o divino, embora os místicos possam certamente se beneficiar de uma orientação espiritual e de uma comunidade de pessoas que buscam a mesma coisa. A espiritualidade envolve um relacionamento especial entre o indivíduo e o cosmos e é em sua essência algo pessoal e privado. No advento de todas as grandes religiões ocorreram as experiências visionárias (perinatais [durante o nascimento] e transpessoais) de seus fundadores, profetas, santos e, até mesmo, seguidores comuns. Todas as grandes escrituras espirituais – os Vedas, o Canon Pali Budista, o Alcorão, o Livro dos Mórmons e muitas outras – são baseadas em revelações em estados holotrópicos.

Por comparação, a base da religião organizada é atividade grupal institucionalizada que ocorre em um local designado (templo, igreja, sinagoga), e envolve um sistema de mediadores oficiais. Idealmente, as religiões deveriam dar a seus membros acesso a experiências espirituais diretas, e apoio durante essas experiências. No entanto, o que ocorre muitas vezes é que, tão logo a religião se torna organizada, ela mais ou menos perde a conexão com sua fonte espiritual e passa a ser uma instituição secular explorando as necessidades espirituais humanas sem satisfazê-las. Em vez disso, ela cria um sistema hierárquico que tem como foco a busca do poder, do controle, da política, do dinheiro e outras possessões. Nestas circunstâncias, a hierarquia religiosa tende a desencorajar ativamente, e até suprimir, as experiências espirituais diretas de seus membros, porque elas estimulam a independência e não podem ser controladas de maneira eficaz.

As observações do estudo dos estados holotrópicos confirmam as ideias de C. G. Jung referentes à espiritualidade. Segundo ele, as experiências de níveis mais profundos da psique (em minha terminologia, experiências perinatais e transpessoais) têm uma certa qualidade que Jung denominou de numinosidade (conforme Rudolph Otto – ver Nota 2 ao final). Os sujeitos que estão tendo essas experiências sentem que estão encontrando uma dimensão que é sagrada, santa, radicalmente diferente da vida cotidiana, pertencente a uma outra ordem da realidade. O termo numinosidade é relativamente neutro e com isso preferível a outros, tais como “religioso”, “místico”, “mágico”, “santo”, “oculto”, e outros mais, que foram usados muitas vezes em contextos problemáticos e podem facilmente levar a erro.

As pessoas que têm experiências de dimensões numinosas da realidade abrem-se à espiritualidade encontrada nas ramificações místicas das grandes religiões do mundo ou em suas ordens monásticas, não necessariamente em suas organizações oficiais. A verdadeira espiritualidade é universal e abrange tudo e baseia-se em uma experiência mística pessoal, e não em um dogma ou nas escrituras religiosas. As religiões oficiais organizadas unem as pessoas localizadas na área de seu raio, mas tendem a ser divisivas porque colocam seu próprio grupo contra todos os demais e, muitas vezes, tendem a convertê-los ou a erradicá-los. Não pode existir nenhum conflito entre a verdadeira espiritualidade e a ciência entendida corretamente. As experiências transpessoais são uma manifestação natural da psique humana e não há nada não científico em submetê-las a um estudo sério.


Nota 1. Estados Holotrópicos, segundo o próprio Grof, é o nome que ele propôs para os estados não ordinários de consciência para os quais a psiquiatria contemporânea não tem um termo específico. A palavra composta “holotrópicos” significa literalmente “orientado para a totalidade” ou “indo na direção da totalidade” (do grego holos = todo e trepein = indo para ou na direção de algo). É uma nomenclatura para os estados ampliados de consciência, que se diferenciam do termo comum “estados alterados de consciência” por proporem uma ampliação da consciência humana.

Nota 2. Numinoso (do latim "numen", divindade), de onde vem o substantivo “numinosidade”, é um adjetivo que qualifica algo que é considerado sagrado ou divino. Esse termo foi posto em circulação no mundo acadêmico por Rudolf Otto, um dos pais da Fenomenologia Religiosa. É usado numa conotação psicológica na Psicologia Analítica de Carl Gustav Jung.

Sobre o Autor

Stanislav Grof (Praga, 1 de julho de 1931) é um psiquiatra checo que desenvolveu nos EUA pesquisas sobre os estados alterados de consciência (EAC), através de experiências com LSD. Desenvolveu uma técnica chamada Respiração Holotrópica, através da qual é possível atingir estados de consciência semelhantes através da hiperventilação, como alternativa ao uso clínico do LSD, tornado ilegal. É um dos pais da Psicologia Transpessoal.

segunda-feira, 5 de agosto de 2019

Uma introdução às Dez Sefirot

Por Jay Michaelson (tradução do artigo publicado no site Learn Kabbalah - https://learnkabbalah.com/the-ten-sefirot-introduction/-, feita por Paulo Stekel, sob autorização expressa do autor)


A luz Infinita é refratada, por assim dizer, através das lentes coloridas das Sefirot. Eis aqui Cordovero sobre o assunto, num trecho do Pardes Rimmonim:

No começo, Ein Sof emanou dez sefirot, que são de sua essência, unidas a ele. Ele e elas são inteiramente um. Não há mudança ou divisão no emanador que justifique dizer que ele é dividido em partes nestas várias sefirot. Divisão e mudança não se aplicam a ele, apenas à sefirot externa. Para ajudá-lo a acessar isso, imagine a água fluindo através de vasos de cores diferentes: branco, vermelho, verde e assim por diante. À medida que a água se espalha através desses vasos, ela parece se transformar nas cores dos vasos, embora a água seja desprovida de toda a cor. A mudança de cor não afeta a própria água, apenas a nossa percepção da água. Então é assim com as sefirot. São vasos, conhecidos, por exemplo, como Hesed, Gevurah e Tiferet, cada um colorido de acordo com sua função, branco, vermelho e verde, respectivamente, enquanto a luz do emanador - sua essência - está na água, sem cor em absoluto. Essa essência não muda; parece apenas mudar conforme flui através dos vasos.

Melhor ainda, imagine um raio de sol brilhando através de uma janela de vidro colorido de dez cores diferentes. A luz do sol não possui nenhuma cor, mas parece mudar de tonalidade quando passa pelas diferentes cores do vidro. A luz colorida irradia pela janela. A luz não mudou essencialmente, embora pareça ao espectador. É apenas assim com as sefirot. A luz que se veste com os vasos das sefirot é a essência, como o raio de sol. Essa essência não muda de cor, nem julgamento nem compaixão, nem direito nem esquerdo. No entanto, ao emanar através das sefirot - o vitral variegado - o julgamento ou compaixão prevalece.” (Daniel Matt, trad.)

As energias das sefirot - as cores do vidro, na metáfora de Cordovero - dão forma e forma aparente ao mundo como nós experimentamos. Lembre-se de que, em última análise, o mundo e a nossa experiência nada mais são do que aquele que dança sozinho. Então, o que dá a sensação de medo, amor e harmonia? O que lhe dá as manifestações físicas de dureza, suavidade, calor e frio? O que lhe dá a forma molecular, atômica e subatômica que ela tem? Cordovero e outros cabalistas nada sabiam sobre átomos e moléculas; seu sistema era o das sefirot. A natureza unificada do mundo é variegada por esses dez princípios. (Realmente, torna-se muito mais complicado, porque cada um dos dez inclui os outros dez e existe em quatro mundos; mas dez o farão, por enquanto.)

Há dois pontos básicos que gostaria de enfatizar neste modelo. A primeira é que, em última análise, a visão sefirótica do universo é bastante semelhante àquelas perspectivas que sustentam que não há separação real entre os objetos aparentemente reais no universo. O que você é realmente? Uma mistura de carbono, hidrogênio e outras moléculas, unidas por leis da física - mas, então, essas moléculas são realmente feitas de átomos, que são realmente constituídos de ... o quê? Supercordas? Vaziez unida pela lei natural? De um modo fascinante, a noção de que somos todos energia - “Luz”, se preferir - organizada pelos princípios da sabedoria Divina, está mais próxima do que nossos cientistas contemporâneos estão dizendo do que a física atômica convencional. É claro que (contrariamente às afirmações de alguns), nós não experimentamos a realidade quântica, de qualquer forma. Experimentamos o mundo como dual e, mesmo quando cultivamos a consciência não-dual, costumamos oscilar entre a perspectiva não-dual (na qual não há “nós”, mas apenas o que experimenta) e a perspectiva convencional de você, eu, o computador.

Esta é uma questão verdadeiramente fundamental da prática contemplativa, e a Cabala a aborda de uma maneira muito distinta. A questão é sobre quais aspectos de nossa experiência são reais e quais não são. A maioria das tradições contemplativas do mundo chega ao mesmo destino final: existe apenas o Um. Elas podem conceber o Um como Ser, ou como Brahman, ou como Deus, mas o ponto final é geralmente o mesmo: o eu como entendemos é uma ilusão, e as formas não têm uma realidade separada. Alguns sistemas dão mais um passo, dizendo que toda nossa experiência é basicamente maya ou ilusão. Este mundo, dizem eles, é como uma espécie de truque, e a vida iluminada transcende e vê a verdade unificada subjacente.

A Cabala Teosófica tem uma visão sutilmente, mas vastamente diferente. Não é que o mundo da dualidade seja falso. É verdade em um nível de realidade perceptiva - o nível em que a maioria de nós passa a maior parte do tempo habitando. Em última análise, é apenas uma manifestação, mas "apenas" não é realmente a palavra certa. O Zohar explica que a noção de Deus depende de um mundo manifestado; sem o mundo se desdobrando, realmente não existe “Deus”. Existe o Ein Sof, o Infinito. Mas, o Zohar explica (na forma de alguns jogos de palavras complicados, e é por isso que não estou citando isso agora), Deus é um conceito que depende do conceito de manifestação.

(Aliás, para aqueles familiarizados com a desconstrução, o método do Zohar deve parecer bastante familiar.)

Essa visão é o significado secreto da união dos princípios masculino e feminino. O princípio masculino, simbolizado pela linha (fálica), é aquele que divide o unificado (feminino - círculo) em díades conceituais. Bem e mal, escuro e luz, passado e futuro - esses conceitos não existem realmente no Um, que é sempre Agora, sempre Aqui, sempre Deus se doando. Bem, o que é certo? É o princípio feminino o certo, que tudo é um e que é sempre agora? Ou o princípio masculino está certo, que existem múltiplos objetos no universo, através das dimensões temporais e espaciais?

Para os Cabalistas, ambos estão certos. Consciência ordinária, em que 1 + 1 = 2, está certo. Consciência mística, em que 1 + 1 = 1, está certo. Há dois e um - este é o maior mistério da união.

Pode parecer que nos tenhamos desviado das sefirot, mas realmente não. As sefirot são a explicação do mundo da multiplicidade. Elas são como o Um se relaciona com muitos, e embora o texto curto de Cordovero acima possa não ser filosoficamente satisfatório da maneira mais rigorosa, ele fornece a estrutura sob a qual a Cabala teosófica atua.

Dez sefirot de nada, dez e não nove, dez e não onze. Entenda em sabedoria, seja sábio e compreensivo. Examine-as, explore-as. Conheça, contemple e visualize. Estabeleça o assunto completamente e restaure o Criador à sua morada. Sua medida é dez, mas infinita.” Sefer Yetzirah - O Livro da Formação

As dez sefirot - as lentes que refratam a Luz do Infinito nas cores e formas de nossa própria experiência - são uma teia de associações, referências simbólicas e potência Divina. Cada uma é como um nó de significado, reunindo centenas, se não milhares, de conceitos literários, culturais, físicos, emocionais, históricos, teológicos e mágicos e, assim, demonstrando a inter-relação deles. Quando um Cabalista ouve a palavra “pomar”, ou “vermelho” ou “arco-íris”, ele a associa imediatamente à sefirah [N.T. singular de “Sefirot”, que é uma palavra hebraica no plural] correspondente, e depois com as dezenas de outros conceitos que são igualmente associados. Aprender sobre as sefirot é marinar a mente em um guisado simbólico de inter-relação Divina, e engendrar um modo de consciência exclusivamente cabalístico.


Historicamente, o conceito de sefirot evoluiu ao longo do tempo. A citação acima, do Sefer Yetzirah do século II (na verdade, não sabemos exatamente quando foi escrito, mas certamente está entre os textos existentes mais antigos do misticismo judaico), refere-se às “sefirot” e é uma fonte primáriavpara os Cabalistas posteriores que desenvolveram a ideia. Mas, no Sefer Yetzirah, a palavra parece denotar números que, como as letras do alfabeto hebraico, são ferramentas de criação e a estrutura profunda do universo manifesto. "Sefirot" é etimologicamente relacionado à palavra hebraica para números, e, de certa forma, pode ser útil apenas pensar neles como nível um, nível dois, e assim por diante, já que pensar dessa maneira os esvazia de projeções imprecisas e associações.

As sefirot são muito mais do que números, no entanto. Por volta do século XII, elas eram essencialmente as emanações do Divino que mediavam, de certo modo, uma reminiscência do neoplatonismo, entre o Um e os muitos. As sefirot são divinas, mas não são, em sua manifestação, a essência divina; são as características do transbordamento do Infinito. Quando a Bíblia fala de Deus ficando irado, por exemplo, os Cabalistas entenderam que ela não se referia ao Ein Sof - que, como o conceito racionalista-filosófico de Deus, está além de toda atribuição e atribuição - mas ao mundo emanado das sefirot. E ainda, texto após texto nos lembra que as sefirot são Divinas.

Podemos dividir a sefirot em três tríades, mais a décima sefirah de Malchut, que experimenta a separação das outras nove. As sefirot são frequentemente colocadas em um dos dois diagramas, ambos os quais são mostrados aqui nas figuras. A primeira é uma série de círculos concêntricos, emanando do centro para a circunferência. Este diagrama transmite a sensação de camadas de profundidade. O segundo diagrama, e talvez o mais comum, é na forma de uma árvore ou - como explicarei - o corpo humano. Este diagrama transmite mais o sentido das camadas verticais da realidade de "inferior" para "superior".

Agora é um bom momento para explicar uma característica crítica da visão de hierarquia da Cabala. Por um lado, a Cabala é completamente hierárquica; tudo tem a ver com camadas da realidade, e movendo-se de cima para baixo e vice-versa. Por outro lado, sua hierarquia é muito diferente de como a maioria de nós concebe a hierarquia, na qual “superior” é melhor, ou mais importante, do que “inferior”. Isso não é verdade no sistema cabalístico. Se você olhar para a árvore sefirótica, por exemplo, Kether é claramente “mais alta” do que Tiferet. Mas isso não é mais importante. Seu papel é diferente; é mais abstrato, ligado diretamente à luz Infinita, enquanto Tiferet sintetiza e equilibra a roda das manifestas sefirot. Mas nenhum desses papéis é mais importante, e Kether não é mais poderosa que Tiferet, ou mais preferível.

É muito difícil para os ocidentais envolverem-se nessa visão de hierarquia. Normalmente, hierarquia significa poder – e, é por isso que muitos de nós rejeitam as hierarquias em favor de modelos mais circulares e colaborativos de coexistência humana. Mas essa visão de hierarquia, como o filósofo Ken Wilber mostrou, leva a uma de duas consequências infelizes: ou a uma hierarquia imperial que oprime, por um lado, ou a um igualitarismo achatado que não reconhece crescimento e evolução, por outro. Na Cabala, a “terceira via” de hierarquia, crescimento e evolução sem gradações de privilégio, qualidade e poder, é o caminho das Sefirot. Há mais e menos, mas rejeitar o mais baixo em favor do superior é entender mal o próprio propósito do universo. Nada menos.

Até agora, falei em um nível principalmente cognitivo, mas aqui está uma visão mais psicológica e emocional. Este é um ponto importante, porque enquanto a Cabala é inebriante, é também corajosa, encarnada e espiritual. O objetivo não é fugir de um plano de experiência para o outro. É experimentar ricamente todos esses quatro "mundos" e equilibrar-se entre eles.

Então, eis uma perspectiva diferente sobre as sefirot. Quando você fica com raiva e depois relaxa, e então se sente em equilíbrio, há muitas maneiras de entender o que aconteceu. Provavelmente, a maioria de nós usa um tipo grosseiro de linguagem psicanalítica para explicar a mudança em nossas emoções. Cabalisticamente, o que aconteceu é um excesso de uma energia sefirótica, equilibrada por outra e trazida a algum tipo de harmonia. O que existe no macrocosmo - lá fora, na escala cosmológica - também existe no microcosmo, aqui dentro de você. O universo, para a Cabala teosófica, é estruturado holograficamente; a parte reflete o todo em sua forma e estrutura e, na verdade, contém o todo. Então, você pode pensar nas sefirot como procedentes do Divino cosmologicamente, ou como presentes dentro de você psicologicamente - mesmo fisicamente. Para os Cabalistas, isso não é mera coincidência; é como eles interpretam a humanidade sendo feita na imagem divina.

No quadro das sefirot, é justo dizer que o mundo é composto de oscilações entre a bondade e o julgamento, tanto quanto é composto de átomos. O Deus filosófico não sente, não muda e não interage com o mundo da forma. A divindade cabalística das sefirot medeia entre o Infinito imutável e o mundo - e assim as sefirot são portadoras de sentimento, dinamismo e energia. Nossos prismas emocionais, através dos quais experimentamos nossas vidas, refletem a estrutura divina do próprio universo. E, ao entender essa estrutura, podemos experimentar nossas emoções, nossos corpos, nossas mentes e nossa verdadeira natureza mais plenamente.

Então, vamos explorar o que são essas sefirot nos próximos artigos.

Sobre o autor


Dr. Jay Michaelson é autor de seis livros e mais de trezentos artigos sobre religião, sexualidade, direito e prática contemplativa. Ph.D. em pensamento judaico pela Universidade Hebraica , é colunista do jornal The Daily Beast e do Forward. Em sua “outra” carreira, Jay é professor assistente afiliado ao Seminário Teológico de Chicago, ensina meditação em linhagens budistas theravadas e judaicas e possui ordenação rabínica não-denominacional.

De 2003 a 2013, Jay foi um ativista LGBT profissional. Fundou duas organizações LGBT judaicas e apoiou o trabalho de ativistas em todo o mundo na Arcus Foundation, no Democracy Council, e seu novo projeto no Daily Beast, Quorum: Global LGBT Voices.