quinta-feira, 27 de agosto de 2020

O armário do autismo adulto

Por Paulo Stekel


Em 25 de agosto de 2020 completei 50 anos. Um dia antes, pela manhã, recebi um "presente", se é que posso dizer nestes termos. Mas, acho que sim.

Depois de meses avaliando, recebi de um competente psiquiatra de SC, o laudo de TEA 1, um tipo leve de autismo, antigamente conhecido por Síndrome de Asperger. Já tinha certeza disso, mas a avaliação por um profissional especializado, um dos poucos especializados, em identificar aspies (como muitos preferem ser chamados e se referir a si mesmos), me tirou qualquer dúvida que pudesse continuar a me corroer.

Foi libertador? Sim. Muito libertador. Afinal, eu fui um Aspie não identificado até os 50 anos. Um caso raro em que não houve atraso na fala. Na verdade, comecei a falar aos seis meses. Mas, muitos aspies têm problemas de fala na infância. Atrasos são comuns. Mas, eu aprendi a ler praticamente antes de ingressar na primeira série (entrei direto no terceiro bimestre!) e hoje leio em pelo menos 12 línguas, fora outras habilidades. Mas, esta é a parte boa, frequentemente "romantizada". Até porque famosos como Anthony Hopkins (diagnosticado aos 70 anos) e Bill Gates possuem laudos Asperger. Com frequência os “românticos do autismo” nos confundem com índigos, um conceito nova era que até pode fazer sentido em alguns contextos e até incluir os Aspies, mas que não pode ser usado como um tampão para as dificuldades de qualquer autista, seja grave, moderado ou leve. Vi muitos psicólogos cometendo esse erro mesmo antes de imaginar a possibilidade de meu autismo leve, o Asperger. Alguns até escreveram livros sobre índigos e perpetuam este erro que pode prejudicar, e muito, o desenvolvimento e a inserção autista na sociedade.

A outra parte, nada romântica, tem a ver com as dificuldades de interação e de percepção de emoções, o que, em algum modo, sempre existiu em minha vida. Foi melhorando com o tempo e hoje está num nível aceitável. Consegui morar sozinho, trabalhar, viajar, casar, separar (rsrs), e tudo isso sem ter sido identificado como autista, sem nunca ter passado por um psicólogo ou psicopedagogo, sem ter feito terapia ocupacional (TO) e sem ter maiores prejuízos.

Só comecei a tecer a hipótese Asperger há menos de um ano, após o término do meu último relacionamento. Eu não consegui perceber algumas coisas e isso me deixou indignado. A hipótese Asperger era uma das explicações. Fui mais a fundo e, quando comecei a responder os questionários do psiquiatra, minha vida começou a se descortinar diante de mim, explicando muito do que vivenciei. O Asperger se mostrava com toda a sua clareza.

Quando o laudo saiu, um dia antes de eu completar 50 anos, foi estranho: libertador e amedrontador ao mesmo tempo. Mas, como sempre superei muita coisa na vida, essa era apenas mais uma situação a vencer. Porque, após o diagnóstico, vem a auto-avaliação, quando toda a vida pregressa começa a fazer sentido e se explicar automaticamente a partir da condição Asperger. Isso ainda está em processo, inclusive, e deve levar um bom tempo para se processar.

Tenho, realmente, alguns marcadores interessantes: gay e aspie, sem atraso de fala, não diagnosticado até os 50 anos e que conseguiu ter uma vida “normal” (dentro do que a sociedade padrão “normatizou” como o aceitável), a ponto de se sustentar e morar sozinho sem maiores problemas.

Eu fui uma criança bem introvertida. Fiz só metade da primeira série e terminei o ano sendo o único aluno da sala a ler perfeitamente (minha professora me exibiu para a diretoria no fim do ano, rsrs). Aos 9 anos, comecei a ler livros de adultos. Nunca li livros infantis. Também não me dava (e ainda não me dou) bem com romances. Preferia livros técnicos, adultos e, isso sim, gibis de aventura e ficção científica. Tudo isso é comum em pessoas aspies.

Na época de escola havia dois momentos que me eram particularmente angustiantes. Um, era a hora do recreio, pois ficava isolado e raramente alguém brincava comigo. Eu também não me interessava em brincadeiras que considerava bobas. Ficava sentado, observando as outras crianças e tentando entendê-las (outra coisa comum em aspies). O outro, era a aula de educação física. Era péssimo em futebol, do qual não gostava. Vôlei até gostava, mas a bola sempre subia torta e parava fora da quadra. O único gol que fiz no futebol da escola foi porque a bola bateu em mim e entrou no gol. Mas, os colegas comemoraram mesmo assim, o que me deixou feliz naquele momento, mas com uma sensação de fraude. Rsrs.

Na oitava série, pela primeira vez sofri bullying. Eu devia ter uns 13 ou 14 anos. Na época não sabia, mas agora avalio que foi uma mescla de homofobia com preconceito por meu jeito quieto, estudioso (e Aspie!) e sempre protegido pelas colegas mais velhas, que enfrentavam os brucutus para me defender. As mulheres sempre foram minhas melhores amigas.

No (antigo) segundo grau, eu me fechei mais um pouco e interagi menos que no primeiro grau e, de alguma forma, invisível, sofri menos preconceito. Com 17 anos, comecei a trabalhar em rádio como técnico de som, algo de que gostava, pois envolvia música, algo que adoro desde sempre (meu pai é músico). Era considerado muito competente, mas bastante fechado e sem vida pessoal pelos colegas. Não tardou a causar inveja de alguns, bullying de outros e um pouco de agressividade de minha parte, pois liguei o sistema de sobrevivência.

Então, em 1991, com 20 anos, saí daquele trabalho e, desde então, decidi trabalhar de forma independente e só, exclusivamente, com o que gosto de fazer e, necessariamente, sem um patrão. Uma solução aspie. Rsrs. Trabalhar com coisas envolvendo espiritualidade, terapias complementares, meditação, aulas de línguas sagradas (estudei várias), astrologia e botânica oculta (a botânica e a zoologia foram meus hiperfocos durante muitos anos, junto com a astronomia e as línguas).

Entre os 22 e os 25 anos foi o período da minha primeira saída do armário: o reconhecimento de minha orientação sexual não heteronormativa. Foi a primeira libertação. Complicada, mas aconteceu. No meio disso, ainda fui casado por um ano e meio com uma mulher, que continuou minha amiga por muitos anos depois que nos separamos. Chegamos à conclusão juntos de que era melhor nos separarmos, pois éramos muito diferentes e ela sentia que meu caminho deveria ser outro. Foi tudo tranquilo, desde então.

Mas, ao longo de minha vida, mesmo como gay assumido, sentia que faltava alguma coisa na minha autocompreensão, mas não sabia o que era. Cheguei a essa conclusão porque meus parceiros de relacionamento diziam coisas parecidas sobre meus hiperfocos (coisa de aspie!), minha necessidade de momentos de isolamento, problemas com rotina, falta de ciúmes (sim!) e uma avaliação muito racional das coisas, entre outras características. Sim, não deve ser fácil conviver com uma pessoa que lê em dezenas de línguas, fala outras tantas, pesquisa o tempo todo, dorme tarde, fala que nem uma gralha sobre o que pesquisa e consegue explicar os detalhes técnicos de quase tudo. É irritante mesmo, não? Só é bom num daqueles “maridos de aluguel” que se contrata para consertar canos, chuveiros e janelas. Aliás, também fiz muito isso na casa das vizinhas, mas só para ajudar mesmo. Rsrs.

Após o término de minha última relação, em janeiro deste ano, aumentou minha desconfiança de que tinha algo mais a ser descoberto a meu respeito. Coincidência ou não, me interessei em assistir algumas séries envolvendo o tema autismo. Algumas coisas fizeram sentido para mim. Outras, não. A série Atypical me chamou um pouco a atenção. Mas, num determinado dia, assisti a um vídeo sugerido pelo Youtube e, ouvindo o relato de um Aspie diagnosticado quando já adulto, vi que tinha muito a ver comigo. Fiz um daqueles testes de Internet e deu alta probabilidade de ser Asperger. Mas, um teste positivo não quer dizer muita coisa. Então, pesquisei outros, todos em Inglês, e deu positivo em DEZ testes! Então, caiu a ficha…

Tomei a decisão de buscar um diagnóstico, e minha amiga Janice Michels, de Criciúma – SC, uma competente psicopedagoga habilitada a trabalhar com autistas, me aconselhou e fez a ponte que acabou me levando ao médico psiquiatra de Florianópolis que fechou meu diagnóstico: CID-10 F84.5 – Síndrome de Asperger, uma condição que aos poucos está mudando de nome, já que o CID-11, que já é usado e passará a valer a partir de 2022, considera a síndrome conforme o DSM-5, onde o Asperger é classificado como TEA – Transtorno de Espectro Autista, mas na forma leve. O segundo armário da minha vida, o do autismo adulto, havia sido aberto...

Diferentemente do autismo clássico, de que todos já ouviram falar, o autismo asperger ou TEA leve ou nível 1, não envolve perda cognitiva, mas alta funcionalidade. Pode, com frequência, pelo contrário, realçar as funções cognitivas, mas ainda há dificuldades de comunicação e interação social, e pode incluir dificuldades na parte motora fina (tenho algo neste sentido). É tão difícil perceber o autismo leve, Asperger, em adultos, porque muitos aprenderam instintivamente a conviver com pessoas neurotípicas (quem não tem autismo), a controlar sua forma de ser (uma autoflagelação, sim!) e a esconder sua condição neurodiversa (quem tem TEA).

Interessante que sempre me dei bem com autistas, sempre gostei deles, e tive dois amigos Aspergers com quem convivi. Um deles, já falecido, foi muito importante na minha vida, e tínhamos muitas coisas em comum, especialmente os hiperfocos, os assuntos que autistas pesquisam até a exaustão até se tornarem especialistas.

Uma pausa aqui: Neurodiversidade é uma ideia que afirma que o desenvolvimento neurológico atípico ou neurodivergente para os padrões convencionais de “normalidade” é um acontecimento biológico esperado. Essa diversidade neurológica humana deveria, então, ser vista como constitutiva da espécie e levada em conta na sociedade. O termo foi criado pela socióloga Judy Singer no final dos anos 90, e tornado conhecido em seu livro “Neurodiversity: The Birth of an Idea” (Neurodiversidade: o nascimento de uma ideia). Socialmente, a ideia se tornou ainda mais popular a partir de 2015, com o lançamento do livro “NeuroTribes: The Legacy of Autism and the Future of Neurodiversity” (NeuroTribos: o legado do autismo e o futuro da neurodiversidade), de Steve Silberman.

A noção de neurodiversidade considera o autismo, o TDAH, a dislexia e outras condições neurológicas como variações humanas naturais, possíveis de ocorrer, e não como doenças ou distúrbios que devam ser “curados”. As diferenças neurológicas seriam, nesta visão, nada mais que autênticas formas de diversidade humana, identidade, autoexpressão e de ser no mundo. Da mesma forma que a diversidade sexual, a neurodiversidade é apenas uma possibilidade na complexa natureza humana. Eu possuo as duas diversidades, por ser gay e Aspie.

Voltando, ao ler estudos sobre o tema, vi que os manuais psiquiátricos consideram duas terapias alternativas adequadas para o desenvolvimento dos Aspies: terapia musical e yoga (que inclui meditação). Como filho de músico, cantei, compus e produzi música por muitos anos na minha vida. Pratico yoga desde os 20 anos e meditação budista desde o 25. “Coincidentemente”, foi quando comecei a sair do isolamento, tive meu primeiro relacionamento e diminuí a fobia de gente. Parece que a música e a meditação, mesmo sem apoio profissional especializado, fizeram o trabalho que poderia ter sido feito por terapia ocupacional e terapia cognitivo-comportamental. Há estudos sobre autismo e meditação, poucos ainda, mas a relação parece promissora. Sou instrutor de meditação e digo a vocês que ela ajuda a organizar a minha mente e diminuir muito do que incomoda os Aspies. Agora entendo isso.

Como disse minha amiga Janice, a música e a meditação fizeram na minha vida o trabalho que, em outros casos, seria feito por terapia ocupacional e terapia cognitivo-comportamental. Afinal, a música acalma, reestrutura a mente e devolve a harmonia aos ritmos cerebrais, enquanto a meditação ajuda no foco, em um primeiro momento, e na autoanálise em sua forma mais avançada, permitindo uma melhor observação de hábitos, vícios e repetições. Ambas me permitiram sair da casca, trabalhar, casar, viver sozinho, aprender a cozinhar e até a fazer algumas aventuras quase impensadas para um autista, como escalada e montanhismo. Ainda quero contar tudo isso num livro.

Enfim, este é meu primeiro texto público após o laudo, e espero ter sido claro na descrição do meu diagnóstico. Quem tiver dúvidas, pode pesquisar o assunto pela Internet ou me solicitar mais informações. Talvez existam muitos outros Aspies por aí, ainda não diagnosticados e que não entendem o que lhes acontece e o motivo de acontecer. O objetivo principal do meu texto é que ele chegue exatamente a estas pessoas ou a familiares delas, e que possa ser a ponte para um autorreconhecimento e, num segundo momento, para a busca de um diagnóstico profissional. 


Sobre o autor

Paulo Stekel, Asperger diagnosticado aos 50 anos, é aromaterapeuta, estudante de aromatologia, instrutor de Meditação Não-dualista, orientador do Projeto Mahasandhi de Meditação Livre Não-Religiosa, pesquisador de Religiões e Espiritualidades, membro do NEDEC²- Núcleo de Estudos e Desenvolvimentos em Conhecimento e Consciência (UFSC – Florianópolis – SC). Tem experiência na área de Linguística, com ênfase em Paleolinguística. É escritor polímata, jornalista, tradutor, revisor, músico, com vários álbuns lançados desde 2009. É um pesquisador não-acadêmico, especialista na interpretação dos textos sagrados das religiões. Nasceu e cresceu em Santa Maria (RS). Atualmente reside em Florianópolis (SC). Publicou diversas obras: “Elohê Israel (Os deuses de Israel) - filosofia esotérica na Bíblia” (Independente, 2001); “Projeto Aurora - retorno à linguagem da consciência” (FEEU, 2003); “Santo e Profano - estudo etimológico das línguas sagradas” (GEFO, 2006); “Deuses & Demônios - verdades inauditas e mentiras anunciadas sobre os anjos” (Independente, 2007); “Curso de Cabala - com noções de Hebraico & Aramaico [vol. I e II]” (Independente, 2007 e 2008); “Curso de Sânscrito - com noções de Filosofia Indiana [vol. I e II]” (Independente, 2008 e 2009); “A Alma da Palavra” (independente, 2011). Pesquisador aceito como paleolinguista de formação livre na pesquisa de decifração da escrita Glozélica (França), com trabalho científico reconhecido e publicado em Inglês no website do Museu de Glozel (http://www.museedeglozel.com/Trad2000.htm) desde 2006. Pesquisador aceito como paleolinguista de formação livre pelo arqueólogo bósnio-americano Semir Osmanagic na pesquisa de decifração da escrita Proto-Visoko (Bósnia), com trabalho de decifração preliminar apresentado em Sarajevo pelo egiptologista Muris Osmanagic (2010) e publicado no website Bosnian Pyramids, em Inglês e Bósnio: http://icbp.ba/2008/documents/papers/ICBP_Referat_Stekel.pdf.


terça-feira, 18 de agosto de 2020

Campos de Consciência e Autocura Integral

Por Paulo Stekel


https://youtu.be/DPWA1n4ah1I

Episódio 020 de "Ciência Espiritual", a playlist de Paulo Stekel postada em seu canal no Youtube (youtube.com/paulostekel) e no Watch do Facebook em sua página de fãs Stekel (facebook.com/canalpaulostekel). Confira!

Neste 20º vídeo, Stekel, através dos livros "Cosmos" e "A Plenitude do Cosmos" (Cultrix), fala sobre "Campos de Consciência e Autocura Integral", uma apresentação extensa e detalhada da Teoria Akáshica de Ervin Laszlo, famoso cosmologista, filósofo e pensador sistêmico, integral e teórico da Ciência húngaro, duas vezes indicado ao Prêmio Nobel da Paz.

Stekel esclarece, da forma mais acessível possível ao grande público, o que é a Teoria Akáshica, o Campo A e o Campo M, o conceito de Laszlo sobre o aspecto informacional do Universo, a Mente Una da Dimensão Profunda que "in-forma" nosso mundo, campos akáshicos, ondas escalares, holocampo universal, ciclos universais, vácuo quântico e o caráter não-local da mente.

No final, Stekel apresenta as possíveis aplicações da Teoria Akáshica de Laszlo na saúde, na cura e na autocura, a cura pela Dimensão A, como a linguagem cósmica pode influenciar a saúde, os Oito Princípios Cósmicos para Harmonização e os Valores e Princípios Universais capazes de mudar o nosso mundo por inteiro.

O objetivo da playlist Ciência Espiritual é disponibilizar sempre temas interessantes e de modo muito criterioso, sem fechar questões, sem pretender verdade final, e aberto ao contraditório.

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Confira os outros episódios já lançados na playlist "Ciência Espiritual" no youtube:

https://www.youtube.com/watch?v=J5BgUbh5n2M&list=PLoPXQZkAtpodqe3orwnyx0PxUW9uSOOG3

(Temas já tratados: Não dualismo, Verdade, Ufologia, Mente, Consciência, Teorias da Conspiração, Reencarnação, Cosmovisão, Realidade, Paranormalidade, Meditação, Karma, Tantrismo, Morte, Misticismo, Magia, Ocultismo, Esoterismo, Teoria Akasha)

Ciência Espiritual é uma playlist do canal de Paulo Stekel no youtube e Facebook dedicada a Ciência, Espiritualidade, Religião, Filosofia, Arte, Cultura e Visão Sistêmica. Comentários sobre livros, artigos e filmes serão comuns nos vídeos desta playlist.

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terça-feira, 11 de agosto de 2020

A Magia Desmistificada

Por Paulo Stekel


https://youtu.be/CunpMk7ixHI

Vlog 019 de "Ciência Espiritual", o vlog de Paulo Stekel postado em seu canal no Youtube (youtube.com/paulostekel) e no Watch do Facebook em sua página de fãs Stekel (facebook.com/canalpaulostekel). Confira!

Neste 19º vídeo, Stekel fala sobre "A Magia Desmistificada", um apanhado e uma análise crítica dos vários tipos de magia praticadas da pré-história até a época atual.

Stekel esclarece o que é magia, ocultismo, misticismo e esoterismo, e apresenta os conceitos mágicos básicos de cinco tipos de magia: magia xamânica, magia indiana (mantra shastra, tantrismo e magia negra), magia africana, magia ocidental ou Ocultismo e Magia Contemporânea.

No final, Stekel apresenta uma descrição da magia contemporânea e suas novas implicações de interesse antropológico ligadas à "nova era": neoesoterismo, neoxamanismo ou xamanismo urbano, magia universal e moderna magia sexual. Ao encerrar, desmistifica a magia, apresentando uma explicação para os possíveis efeitos dos rituais, nos casos que não possam ser explicados por meios convencionais.

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terça-feira, 4 de agosto de 2020

Não Dualismo e Misticismo

Por Paulo Stekel


https://youtu.be/xYrzaqIbkAU

Vlog 018 de "Ciência Espiritual", o vlog de Paulo Stekel postado em seu canal no Youtube (youtube.com/paulostekel) e no Watch do Facebook em sua página de fãs Stekel (facebook.com/canalpaulostekel). Confira!

Neste 18º vídeo, Stekel fala sobre "Não Dualismo e Misticismo", uma análise dos cinco tipos de não dualismo citados no livro "Nonduality - in Buddhism and Beyond", de David loy, uma edição atualizada em 2019 de uma obra anterior publicada há mais de trinta anos.

Stekel esclarece o que é não dualismo numa perspectiva filosófica e comparativa, dando exemplos de pensamentos não dualistas em várias religiões e filosofias antigas e modernas, especialmente no Budismo Mahayana, no Advaita Vedanta e no Taoísmo. A ideia básica é que o não dualismo propõe que a dualidade é uma ilusão ou uma oposição ilógica, sendo a Realidade constituída de apenas uma Natureza, vista por uns como Brahman, Deus, Dharmakaya, Rigpa, Tao, Absoluto ou Uno.

No final, Stekel apresenta uma descrição mais detalhada dos cinco tipos de não dualismos propostos por Loy: Não dualismo dos Opostos, Não dualismo Monista, Não dualismo Advaita, Não dualismo Advaya e Não dualismo Místico. Um destaque especial para o último tipo, também chamado Unio Mystica ou Misticismo, comum em várias tradições ocidentais e médio orientais (Plotino, Sufismo, Cabalismo medieval, Cristianismo contemplativo, Gnosticismo, Hermetismo).

O objetivo do vlog Ciência Espiritual é disponibilizar sempre temas interessantes e de modo muito criterioso, sem fechar questões, sem pretender verdade final, e aberto ao contraditório.

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Confira os outros vlogs já lançados na playlist "Ciência Espiritual" no youtube:

https://www.youtube.com/watch?v=J5BgUbh5n2M&list=PLoPXQZkAtpodqe3orwnyx0PxUW9uSOOG3

(Temas já tratados: Não dualismo, Verdade, Ufologia, Mente, Consciência, Medo, Teorias da Conspiração, Reencarnação, Cosmovisão, Realidade, Paranormalidade, Meditação, Carma, Sexo, Tantra, Morte, Misticismo)

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segunda-feira, 3 de agosto de 2020

A relação Sujeito-Objeto: três abordagens

Por David Loy (Este artigo contém parte do Capítulo 5 do livro Nonduality, intitulado “Pensamento Não-dual”, que está sendo traduzido por Paulo Stekel. Para uma maior compreensão, sugerimos a leitura dos trechos anteriores desta mesma obra já postados aqui: https://stekelblogue.blogspot.com/search/label/David%20Loy)


No Himalaia do pensamento indiano, três cadeias de montanhas se elevam acima do resto: nkhya-Yoga, Budismo e Vedānta. Em vez de argumentar que é assim, vamos considerar por que é assim. O que faz com que esses três sistemas (ou conjuntos de sistemas) se destaquem como os mais importantes? Este breve texto responde a essa pergunta demonstrando o relacionamento deles. O que há de especial nesses três é que eles elaboram as três respostas principais ao problema epistemológico da relação sujeito-objeto - uma questão que é fundamental para qualquer sistema metafísico e é especialmente crucial para qualquer filosofia que pretenda explicar a experiência da iluminação.

O Sankhya-Yoga apresenta o dualismo mais radical possível ao separar completamente sujeito e objeto. A separação entre os dois é tão extrema que, como geralmente é aceito, o sistema falha porque não pode haver comunicação ou cooperação entre eles.

O Budismo Primitivo funde sujeito em objeto. A consciência é algo condicionado, surgindo apenas quando existem certas condições. O eu é apenas uma ilusão criada pela interação dos cinco agregados. O eu encolhe para nada e há apenas um vazio, mas o Vazio não é uma coisa: expressa o fato de que não há absolutamente nada, nada, que possa ser identificado como o eu.

O Advaita Vedanta funde objeto em sujeito. Não há nada externo a Brahman, o Um sem um segundo. Como Brahman é uma consciência não-dual, pode-se dizer que a consciência se expande e abrange todo o universo, que é apenas a aparência de Brahman. Tudo é o Self (Eu). Uma consequência importante disso é que todos temos (ou melhor, somos) o mesmo Eu.

Desses três, apenas o Advaita Vedānta é obviamente uma tentativa de descrever a experiência da não dualidade sujeito-objeto. Com o Budismo, é preciso ter mais cuidado com essa generalização: parece verdade para o Mahāyana, mas não para o Budismo Pali, pelo menos não explicitamente (uma questão à qual voltaremos). No caso do Sānkhya-Yoga, que é inequivocamente dualista, parece não haver fundamento algum para afirmar que é uma tentativa de descrever a experiência não-dual. Mas o Sankhya-Yoga pode ser visto como uma tentativa desse tipo, embora insatisfatória. Aqui é necessário resumir as reivindicações da metafísica Sānkhya, o que nos permitirá ver por que é inadequada.

Sankhya-Yoga

O Sankhya é dualista porque explica a relação sujeito-objeto postulando duas substâncias básicas: purusha, pura consciência imutável e prakriti, o mundo natural que engloba tudo o mais. É significativo que este não seja um dualismo cartesiano: prakriti inclui todos os fenômenos mentais e físicos; o que experimentamos como nossa mente (buddhi) e todos os seus fenômenos mentais também evoluem de prakriti. Tudo o que pode ser experimentado é prakriti. Assim, o purusha é reduzido a um "vidente" puro, que na verdade não faz nada, embora sua presença seja necessária não apenas para que haja consciência, mas também para atuar como um catalisador das evoluções de prakriti. Em nossa condição iludida habitual, não somos capazes de distinguir entre essas duas substâncias. A consciência pura se identifica erroneamente com suas reflexões; isto é, apego-me ao "panorama mental" e ao "corpo" e às suas posses. O purusha é tão atenuado que nem é capaz de perceber a distinção entre si e prakriti. Como no Advaita, é na verdade o buddhi, a parte mais rarefeita de prakriti, que realiza a distinção, com a qual abdica por si só e o purusha é estabelecido em sua própria natureza verdadeira como solitário e independente, observando indiferentemente o mundo natural.

O principal problema é que a polaridade entre purusha e a prakriti é tão grande que eles são incapazes de cooperar. Purusha é tão indiferente e prakriti tão mecânico que eles não podem funcionar juntos. O símile comum para explicar sua interação é o de um homem cego de bom pé, portador de um aleijado de bom olho; mas essa não é uma boa analogia porque, para interagir, os dois homens precisam ter inteligência, enquanto prakriti não. O símile se encaixaria melhor se o aleijado não quisesse ir a lugar algum e assim diz e não faz nada, enquanto o cego literalmente não tem mente nenhuma. Claramente, nesse caso, eles não cooperariam, ainda assim, o Sankhya-Yoga afirma que todo o universo evoluiu a partir da interação decorrente da introdução de purusha a prakriti.

Enquanto o nkhya é um sistema metafísico, o Yoga lida principalmente com o caminho iogue que se segue a fim de alcançar kaivalya, o “isolamento liberado” de purusha. É significativo que não haja nada dentro dos oito membros da prática de yoga antitético (antagônico) ao Vedanta. De fato, o caminho iogue parece se encaixar melhor em uma metafísica advaítica do que em um caminho de Sānkhya. No samādhi, o oitavo e mais alto membro, a mente perde a consciência do ego e se torna um com seu objeto de meditação, mas essa experiência não-dualista pode ser descrita apenas "como se fosse" no Yoga, uma vez que o objetivo final é entendido como a discriminação da consciência pura de todos os objetos com os quais geralmente se identifica. Mas é claro que essa experiência não dual está de acordo muito bem com o objetivo advaítico de "realizar todo o universo como o Eu".

No entanto, o mais interessante é que o purusha, como o jiva do Jainismo e o atman do Vedānta e Nyaya Vaisheshika, é eterno e onipresente; não possui locus específico, mas é onipresente, permeia toda parte. Portanto, o purusha é muito diferente da consciência, como normalmente a entendemos, um "mundo interno" contraposto ao mundo externo. Claramente o Sankhya está longe de capturar a dualidade do senso comum. Que o purusha seja tão vazio de qualquer função - não tem quase nada a fazer exceto ser uma consciência invariável - também é significativo. A esse respeito, é semelhante ao Nirguna a Brahman do Vedānta, que também é desprovido de qualquer atributo em si, ou pode-se caracterizar purusha com o termo budista shunya, como vazio. Mas o fato de que a purificação é onipresente leva a problemas para o Sankhya, uma vez que há supostamente uma infinidade (ou pelo menos um número muito grande) de purushas completamente distintos e não relacionados. Como todos eles podem ocupar o mesmo espaço infinito sem se afetar de alguma maneira? Dado que todos eles são desprovidos de quaisquer atributos, como eles devem ser distinguidos um do outro? Um problema corolário é que cada purificação indiferenciada tem um relacionamento com apenas um buddhi em particular. Além disso, cada purusha liberado, sendo onipresente, deve coexistir com todo o prakriti, mas não ser completamente afetado por ele.

Por essas e outras razões, esse dualismo mais extremo entre sujeito e objeto falha. O fracasso do Sankhya-Yoga, deve-se notar, não é incidental, mas é devido a uma inadequação básica: a dualidade é tão radical que impede qualquer cooperação entre as duas categorias. De acordo com isso, existem duas maneiras de tentar resolver o problema. Poder-se-ia conceber todos os purushas como vários reflexos de uma consciência unificada e considerar prakriti como outro aspecto ou manifestação dessa consciência. Ou, dada a falta de função de purusha, se poderia eliminá-lo completamente e incorporar a consciência em prakriti. Qualquer solução, é claro, transforma o Sankhya em um sistema completamente diferente, porque o dualismo raiz foi abandonado. A primeira alternativa faz donkhya o monismo védico, e a segunda o transforma no pluralismo do anatman do budismo pali. Se, como alguns estudiosos acreditam, o Sankhya é o sistema metafísico indiano mais antigo, isso pode ter sido o que aconteceu historicamente: quando seu dualismo passou a ser reconhecido como uma descrição insatisfatória da experiência de iluminação, a filosofia indiana desenvolveu as alternativas diametralmente opostas do Vedānta e do budismo.

Budismo

A natureza do nirvana é o maior problema da filosofia budista, provavelmente porque o próprio Buda se recusou a especular sobre ele. A atitude dele era, de fato, que, se você quer saber o que é o nirvana, deve alcançá-lo. Mas, claramente, o nirvana não envolve o isolamento de uma consciência pura semelhante a um Sankhya, porque não existe tal coisa no budismo. A característica única do budismo é que não existe um eu, e nunca existiu; existem apenas cinco skandhas, agregados ou "montes" de elementos que interagem constantemente. Esses skandhas não constituem um eu; o sentido de um eu é meramente uma ilusão criada por sua interação. O Buda enfatizou que não devemos identificar nada como o eu.

Assim, o nirvana provavelmente é melhor caracterizado como a percepção de que não existe um eu: embora isso por si só não seja de muita ajuda, porque o que isso significa - o que há que percebe isso - ainda não está claro. O Buda agravou o mistério enfatizando que o nirvana não é aniquilação nem vida eterna. Claramente, isso é necessário, pois nunca houve um eu a ser destruído ou a viver eternamente, mas é confuso na medida em que nosso pensamento tende a dicotomizar-se naturalmente.

No entanto, existem algumas passagens no Canon Pali que aparentemente contradizem a interpretação usual do Theravada. No Kevada Sutta (Digha-Nikāya), por exemplo, o Buda diz que o nome e a forma são totalmente destruídos "onde a consciência é sem sinal, sem limites e totalmente luminosa." O Anguttara- Nikaya 1.6 alega que “Essa mente (citta) é luminosa, mas é contaminada por contaminações adventícias”. Essa distinção entre nossa consciência condicionada habitual e uma consciência totalmente luminosa parece inconsistente com a visão comum no budismo primitivo de que a consciência é o resultado de condições e não surge sem essas condições. Escusado será dizer que está muito de acordo com a posição Vedantina em relação ao “auto-luminoso” Brahman. No Brahmanimantanika Sutta (Majjhima-Nikaya), o Buda critica a ideia de um Brahma onipotente, mas é significativo que, dentro do Canon pali, não haja contradição expressa ou mesmo reconhecimento da teoria Vedantina de atman ou Brahman como a única realidade última.

Também é significativo que a mesma controvérsia entre o budismo primitivo e o Vedānta seja encontrada internamente no budismo. O Abhidharma, o ramo filosófico do budismo primitivo, analisou a realidade em um conjunto de dharmas discretos cuja interação cria a ilusão de um eu. O nirvana no budismo pali parece ter sido entendido como a cessação da cooperação entre esses vários dharmas, levando ao isolamento inativo um do outro. Como a consciência é condicionada, existindo apenas como resultado de sua interação, isso parece ser a cessação de toda consciência também. Mas, na medida em que se acredita que esses dharmas existem objetivamente, tal visão pode ser criticada como ontologicamente desigual; embora o eu tenha sido analisado, a realidade do mundo como objetivo não foi afetada. No entanto, a eliminação da consciência requer uma redefinição do que significa algo existir. O que resta deve de alguma forma incorporar a consciência (ou o que entendemos como consciência) dentro de si. Nossa compreensão dualista usual do objeto que se confronta a si mesmo pode ser comparada a uma escala que equilibra dois pesos; um peso não pode ser removido sem afetar o outro lado da balança. Um princípio básico deste texto é que não podemos mudar um polo de qualquer dualidade sem transformar o outro da mesma forma. Não é possível desconstruir metade da dualidade consciência/matéria, simplesmente absorvendo-a na outra metade não reconstruída. Se negamos a mente como uma categoria ontológica, devemos redefinir a matéria como diferente de algo inerte e encontrar o que entendemos como mente dentro dela.

O Mahāyana aceitou a teoria dos dharmas - um ponto importante muitas vezes esquecido - mas não a realidade objetiva deles. Ele expandiu a negação do eu (pudgalanairātmya) em uma negação da realidade dos dharmas (dharmanairātmya) porque todos os dharmas são relativos e, portanto, shunya. Existe uma verdade absoluta, mais alta (paramārtha), que não pode ser descrita (de acordo com a Mādhyamika), mas que (de acordo com a Yogācāra) se aproxima da consciência não dual sem atributos do Advaita Vedānta. A relação entre a Mādhyamika e a Yogācāra, os dois principais sistemas filosóficos do Mahāyana, é de considerável relevância para este trabalho. Diferenças significativas e insolúveis entre eles constituiriam um desafio à nossa defesa de uma doutrina básica da não-dualidade. Portanto, vale ressaltar que o peso da opinião acadêmica favorece a visão de que eles se complementam muito mais do que se contradizem. Sobre esse assunto, vale a pena citar três dos maiores estudiosos ocidentais do budismo do século XX. Primeiro, Guiseppe Tucci, talvez o principal estudante do budismo tibetano:

Diz-se geralmente que o Mahāyana pode ser dividido em duas escolas fundamentais, a saber, Mādhyamika e Yogācāra. Esta declaração não deve ser tomada literalmente. Antes de tudo, não é exato afirmar que essas duas tendências sempre se opuseram. Além disso... o antagonismo entre a Mādhyamika e os primeiros expositores da escola idealista como Maitreya, Asanga e até Vasubandhu não é tão acentuado como parece à primeira vista... O fato é que tanto Nagarjuna quanto Maitreya, juntamente com seus discípulos imediatos, reconheceram os mesmos princípios fundamentais, e seu trabalho foi determinado pelos mesmos ideais, embora mantendo visões bastante diferentes em muitos detalhes.

O tradutor e expositor do Prajñaparamita, Edward Conze, desenvolve essa visão explicando sua diferença de perspectiva:

Mādhyamikas e Yogācārins se complementam. Eles entram em conflito muito raramente, e a poderosa escola dos Mādhyamika-Yogācārins demonstrou que suas ideias poderiam existir em harmonia. Eles diferem no fato de abordarem a salvação por duas estradas diferentes. Para os Mādhyamikas, “sabedoria” é tudo e eles têm muito pouco a dizer sobre dhyana, enquanto os Yogācārins dão mais peso à experiência do “transe”. Os primeiros aniquilam o mundo por uma análise implacável que se desenvolve a partir da tradição Abhidharma. Os últimos efetuam uma retirada igualmente implacável de tudo pelo método tradicional de transe.

Edward J. Thomas concorda com Conze:

Enquanto a escola de Nagarjuna começou do ponto de vista lógico e mostrou a impossibilidade de se fazer qualquer afirmação livre de contradições, o Lankāvatāra [segundo o escritor “o principal texto canônico da doutrina do idealismo subjetivo] começou do ponto de vista psicológico e encontrou uma base positiva na experiência real.

Por último, mas não menos importante, o testemunho histórico do próprio budismo, em particular o fato aludido por Conze de que o debate entre a Mādhyamika e a Yogācāra eventualmente levou à sua síntese na escola Mādhyamika- Yogācāra de Shantarakshita e Kamalashila. Se lembrarmos que ambos os sistemas não eram apenas filosofias, mas tinham principalmente uma função soteriológica - isto é, deveriam ser caminhos de liberação -, então o contraste entre os pontos de vista d a Mādhyamika e da Yogācāra se torna compreensível como diferenças de perspectiva. A Mādhyamika enfatiza que a realidade é shunya no sentido de “vazio de predicação”. Não se pode dizer nada sobre a realidade porque isso seria sobrepor o conceito à percepção. Isso não equivale a uma afirmação de não dualidade, porque, ao se limitar a uma crítica negativa a todas as dualidades, a Mādhyamika não faz reivindicações positivas. O ponto importante é que isso parece ser feito a fim de abrir caminho para a experiência que descrevemos como não-dual. Essa experiência deve ser distinguida de quaisquer reivindicações - ontológicas, epistemológicas ou outras - feitas com base nela, pois, da perspectiva da Mādhyamika, qualquer afirmação desse tipo seria uma tentativa savikalpa de determinar a percepção nirvikalpa nua.

O conflito com a Yogācāra surge quando os Yogācārins chamam essa percepção de “mente” (ou “consciência”: vijñana). Isso não significa que a Yogācāra seja um “idealismo subjetivo”, como Thomas e outros (incluindo Shankara) entenderam que era. Em vez de o mundo ser a projeção de um ego subjetivo, a aparente distinção entre sujeito e objeto é aquela que surge (ou parece surgir) dentro da mente transcendental (vijñanaptimatrata) - uma visão consistente com nossa doutrina básica da não-dualidade. O idealismo subjetivo não pode ser encontrado em nenhum lugar do budismo, nem vejo como ele poderia existir, dada a aceitação comum de todas as escolas budistas de anatman, que nega qualquer eu ontológico. A Mādhyamika naturalmente critica a Yogācāra por tentar colocar um rótulo na realidade ("mente") e dialeticamente critica o termo, mostrando que é relativo e, portanto, ilusório. Mas tudo isso não refuta a alegação da Yogācāra, que é simples não dualidade. Quando as delusões desaparecem e eu experimento a realidade, a consciência que está ciente do mundo e o próprio mundo não são distinguíveis. Nesse momento, tudo o que é experimentado sou eu mesmo, e por esse motivo pode ser chamado de "minha mente".

Aqui a diferença entre o ponto de vista lógico e o psicológico é crucial, como Conze e Thomas apontaram. Embora o objetivo da Mādhyamika seja transcender o intelecto, seu caminho ainda é intelectual. A mente conceitual é superada esgotando-a - isto é, negando todas as possibilidades conceituais. Somente com isso o salto para prajña ocorre. A Yogācāra, como o próprio nome sugere, é uma abordagem mais meditativa. O objetivo do sistema não é provar a existência da mente transcendental, mas iniciar o praticante na experiência dela, que ocorreu no samādhi. Portanto, os iogues não precisavam temer o conceito de "mente", pois sua prática meditativa os impedia de confundir esses rótulos com a própria realidade; enquanto a Mādhyamika a, o caminho lógico de esgotar todos os conceitos, não podia tolerá-lo. Portanto, a diferença entre essas duas perspectivas filosóficas, em última análise, deriva de suas diferentes abordagens soteriológicas e não se estende à experiência não-dual para a qual ambas apontam.

A reconciliação Mādhyamika de impermanência com imutabilidade, e de todas as condicionalidades com a não-causalidade é equivalente à relação entre as naturezas paratantra e paranishpanna. Uma discussão mais aprofundada sobre o debate histórico entre a Mādhyamika e a Yogācāra está além do escopo deste trabalho.

Advaita Vedanta

O Advaita Vedānta de Shankara é geralmente considerado como tendo melhor desenvolvido e sistematizado a principal vertente do pensamento upanixádico, que enfatiza a identidade de Atman e Brahman. Brahman é uma consciência infinita e auto-luminosa que transcende a dualidade sujeito-objeto. Como “a Testemunha” (sakshin), é aquilo que não pode ser transformado em objeto. Inqualificável e abrangente, talvez a característica mais significativa seja o fato de ser "um sem segundo", pois não há nada fora dele. Portanto, Atman - o verdadeiro Eu, o que cada um de nós realmente é - é um com este Brahman. Tat tvam asi: “Isso és tu.” Isso é “Tudo-Eu”:

... não há mais nada além do Eu.

Realizar todo o universo como o Eu é o meio de se livrar da escravidão.

Para o vidente, todas as coisas realmente se tornaram o Ser.

Quem já realizou e conheceu intimamente o Ser, tudo é o seu Ser, e ele, novamente, é de fato o Ser de todos.

Portanto, o homem não deve ser entendido como um eu distinto que se funde com Brahman. Realizar Atman é realizar Brahman, porque eles são realmente a mesma coisa. Pode-se afirmar, em resposta aos budistas, que uma consciência do eu é necessária para organizar a experiência, mas que acaba sendo Brahman em si, uma vez que Brahman é percebido - isto é, quando Brahman percebe sua própria natureza verdadeira. O mundo das diferenças e das mudanças é maya, ilusão; não há nada além do Eu todo-inclusivo (que deve de alguma forma incorporar a maya). No entanto, isso parece estranho, uma vez que o conceito de um eu parece pressupor um outro, um não-eu do qual ele se distingue - um ponto ao qual retornaremos mais tarde. Portanto, talvez o termo Atman deva ser rejeitado como supérfluo, porque sugere outra entidade à parte de Brahman. No entanto, os dois termos cumprem uma função, uma vez que enfatizam aspectos diferentes do Absoluto: Brahman, que é a realidade última como o fundamento de todo o universo; Atman, que é a minha verdadeira natureza.

Para Shankara, moksha, libertação, é a percepção de que eu sou e sempre fui Brahman. Meu ego-consciência individual evapora ou é percebido como uma ilusão, mas não a consciência pura e não dual da qual sempre foi apenas um reflexo. Deve ser enfatizado que eu não alcanço ou me fundo com este Brahman; apenas percebo que sempre fui Brahman. Shankara usa a analogia do espaço dentro de um frasco fechado: esse espaço sempre foi um com todo o espaço; existe apenas a ilusão de separação. O fato de não haver realmente nada a atingir se torna ainda mais significativo quando lembramos que o mesmo se aplica ao Sankhya-Yoga e ao budismo: por mais que se possa caracterizar, a verdadeira natureza de uma pessoa sempre foi pura e sem manchas. O purusha do nkhya é um vidente indiferente, que sempre esteve apenas observando, não afetado pela dor ou pelo prazer. No budismo, nunca houve um eu; sempre foi apenas uma ilusão.

No entanto, assim como há passagens na Canon Pali que parecem védicas, também há passagens nos Upanishades que, a princípio, parecem budistas. Talvez a mais famosa seja a instrução de Yajñavalkya a sua esposa Maitreyi, no Brihadaranyaka: “Surgindo desses elementos (bhuta), neles também desaparecemos. Depois da morte, não há consciência (ne pretya samjñata’sti). Maitreyi fica impressionada com isso, então Yaavalkya explica isso na passagem bem conhecida sobre não dualidade:

Pois onde há uma dualidade, por assim dizer, um vê outro... Mas quando, na verdade, tudo se tornou apenas o próprio eu, então o que se podia ver e através do quê? ... Através do que se poderia saber aquilo devido a que tudo isso é conhecido? Então, através do que alguém poderia entender o Entendedor? Esse eu... é imperceptível, pois nunca é percebido.

Em seu comentário, Shankara interpreta essa passagem como significando que, quando se realiza Brahman, não há mais consciência particular ou dualista. Mas talvez haja o mesmo problema com a consciência e com o eu. Assim como nosso conceito de eu normalmente pressupõe um não-eu, a consciência geralmente é entendida como exigindo um objeto. De fato, é muito difícil conceber o que poderia ser a consciência sem um objeto, um problema que é, obviamente, o cerne da questão. Em inglês, por exemplo, todos os verbos para consciência são normalmente intencionais, exigindo sujeitos e objetos ("Estou consciente de...", "Você está ciente de...", sabe que aquilo...). O Advaita não nega que nosso "Eu-consciência" normal seja intencional: "Não há manifestação do ‘eu’ sem uma modificação da mente direcionada para o externo" (Sureshvara).291 A afirmação do Advaita é antes que apenas a consciência pura que é Brahman é auto-luminosa e não-dual. Mas se existe consciência não-dual sem um “eu” que a possua, e sem um objeto de que “eu estou ciente”, isso ainda pode ser chamado de consciência? Talvez uma resposta, sim ou não, possa ser justificada, o que sugere que a diferença entre esses pontos de vista opostos pode ser meramente linguística.

As semelhanças entre o budismo Mahāyana e o Advaita Vedānta são tão grandes que alguns comentaristas pensam que os dois não são realmente distintos um do outro.

O budismo e o Vedānta não devem ser vistos como dois sistemas opostos, mas apenas como estágios diferentes no desenvolvimento do mesmo pensamento central que começa com os Upanixades, encontra seu apoio indireto em Buda, sua elaboração no budismo Mahāyana, seu reavivamento aberto em Gaudapāda, que atinge o auge em Shankara e culmina nos pós-Shankaritas.

No que diz respeito às semelhanças entre o budismo e o Vedānta, são tantas e tão fortes que, em nenhum momento da imaginação, podem ser negadas ou explicadas de outra maneira. No que diz respeito às diferenças, essas são poucas e principalmente não são vitais. A maioria delas repousa sobre um grave mal-entendido dos budistas. (Chandradhar Sharma)

Surendranath Dasgupta concorda na conclusão de seu estudo do sistema de Shankara:

Seu Brahman era muito parecido com o shunya de Nagarjuna. É realmente difícil distinguir entre ser puro e puro não ser como uma categoria. As dívidas de Shankara à auto-luminosidade do budismo Vijñanavada dificilmente podem ser superestimadas... Sou levado a pensar que a filosofia de Shankara é amplamente um composto do budismo Vijñanavada e Shunyada com a noção Upanixádica de permanência do eu superadicionado.

Lalmani Joshi também defende isso:

No Agamashastra [de Gaudapāda], encontramos um esforço para sintetizar e promover uma concordância entre o budismo Mahāyana e o Advaita Vedanta. Nesse esforço, parece ter entrado no Vedanta certos princípios básicos da filosofia Mahāyana, e o resultado foi o Vedanta não-dualista de Shankara.

... A transformação do Advaita em Vedānta, em e depois de Gaudapada, pode ser razoavelmente e satisfatoriamente explicada apenas pelo reconhecimento da dívida de Gaudapada e Shankara aos sistemas Mādhyamika e Vijñanavada de pensamento.

A objetividade dessa conclusão é apoiada pelas diferentes simpatias de seus proponentes: Sharma é um Advaitin, Dasgupta é um crítico hindu de Shankara, e Joshi é simpático ao budismo.

É inegável que Shankara foi muito influenciado pela dialética Mādhyamika, que ele empregou em suas próprias críticas a outros sistemas. Mas as semelhanças são muito mais profundas, na medida em que a condenação bastante estridente de Shankara ao budismo começa a soar como uma briga de família entre dois irmãos - cujos argumentos costumam ser os mais violentos.

As doutrinas budistas da não-originação (ajātivāda), do mundo fenomenal como ilusão ou mera aparência (mayavada), da dupla divisão da verdade em suprema (paramārtha) e temporal (vyavahāra) e da Realidade (tattva) sem atributos (nirguna) e além da descrição quádrupla, se tornaram tão completamente Vedantinas que suas origens quase foram esquecidas.

A principal crítica de Shankara à Mādhyamika, de que ela apoia o niilismo, certamente perde o ponto das negações de Nagarjuna, que é o salto não-conceitual para prajña que ocorre como consequência de negar prapañca. Como T. R. V. Murti coloca, Nagarjuna não nega a Realidade, ele simplesmente nega todas as visões sobre a Realidade. A única diferença é que a Mādhyamika condena até a consciência como irreal; mas já argumentei que isso é ego-consciência relativa - isto é, consciência dualista à parte do seu objeto - e não o que poderia ser chamado de consciência não-dual. De acordo com Sharma, tampouco existem diferenças significativas entre Vedānta e Yogacāra, que Shankara admite ter influenciado profundamente o professor de seu professor, Gaudapada.

Concluindo, vimos por que Sankhya-Yoga, Budismo e Advaita Vedānta são os sistemas preeminentes da filosofia indiana: porque eles elaboram as três soluções possíveis para o problema colocado pela relação sujeito-objeto. O nkhya-Yoga é o dualismo mais radical possível. O Budismo nega o eu completamente, fundindo-o no objeto, que é dissolvido criticamente em elementos-dharmas. Por outro lado, o Advaita nega completamente o objeto, pois “não há mais nada além do Eu”. Depois de refutar o extremo dualismo donkhya, ficamos com o Budismo e o Vedānta, cujas soluções para o problema do sujeito-objeto parecem ser diametralmente opostas. Mas também sugerimos sua compatibilidade. Percebemos alguns elementos Vedânticos no budismo e (apesar das reivindicações de muitos estudiosos indianos, que querem ver o budismo como uma ramificação do hinduísmo) a influência budista muito mais forte sobre o Vedānta. E citamos as opiniões de vários estudiosos proeminentes que argumentam por sua afinidade, de fato, às vezes, por sua identidade.


Sobre o autor

David Robert Loy é professor da Faculdade de Estudos Internacionais da Universidade de Bunkyo, Japão. Ele estuda Zen há mais de vinte e cinco anos e é um professor Zen qualificado. Ele é o autor de "Falta e Transcendência: O Problema da Morte e da Vida em Psicoterapia, Existencialismo e Budismo" [Lack and Transcendence: The Problem of Death and Life in Psychotherapy, Existentialism, and Buddhism] e "Não-dualidade: Um Estudo em Filosofia Comparada" [Nonduality: A Study in Comparative Philosophy], além de vários artigos. (www.davidloy.org)

terça-feira, 28 de julho de 2020

Mediunidade e Estados de Transe

Por Paulo Stekel


https://youtu.be/8nFQ2IIf67U

Vlog 017 de "Ciência Espiritual", o vlog de Paulo Stekel postado em seu canal no Youtube (youtube.com/paulostekel) e no Watch do Facebook em sua página de fãs Stekel (facebook.com/canalpaulostekel). Confira!

Neste 17º vídeo, Stekel fala sobre "Mediunidade e Estados de Transe", uma análise dos processos de alteração de consciência envolvendo transe desde a pré-história, passando pelos movimentos do Espiritualismo (1848) e do Espiritismo (1860) até o moderno conceito de Canalização (Channeling).

Stekel esclarece as diferenças entre o espiritualismo e o espiritismo, a umbanda, os oráculos tibetanos, a canalização, e tece comentários até sobre o processo semelhante à canalização pelos quais foram escritos dos Sutras do Budismo Mahayana.

No final, Stekel apresenta sua opinião sobre incorporação, inconsciência mediúnica e obsessões, temas frequentemente polêmicas no tocante a estados de transe.

O objetivo do vlog Ciência Espiritual é disponibilizar sempre temas interessantes e de modo muito criterioso, sem fechar questões, sem pretender verdade final, e aberto ao contraditório.

Quem ainda não se inscreveu no canal de Paulo Stekel no Youtube, aproveite para fazer agora e ser avisado sempre que um novo vídeo sair.

Confira os outros vlogs já lançados na playlist "Ciência Espiritual" no youtube:

https://www.youtube.com/watch?v=J5BgUbh5n2M&list=PLoPXQZkAtpodqe3orwnyx0PxUW9uSOOG3

(Temas já tratados: Verdade, Sombra, Ufologia, Mente, Consciência, Medo, Teorias da Conspiração, Reencarnação, Cosmovisão, Realidade, Paranormalidade, Meditação, Felicidade, Carma, Sexo, Tantra, Morte)

Vlog Ciência Espiritual é uma playlist do canal de Paulo Stekel no youtube e Facebook dedicada a Ciência, Espiritualidade, Religião, Filosofia, Arte, Cultura e Visão Sistêmica. Comentários sobre livros, artigos e filmes serão comuns neste novo vlog.

ENVIE suas perguntas, dúvidas, comentários e sugestões de tema para os próximos vídeos para o email pstekel@gmail.com

segunda-feira, 27 de julho de 2020

Modos de Pensamento

Por David Loy (Este artigo contém a quarta parte do Capítulo 4 do livro Nonduality, intitulado “Pensamento Não-dual”, que está sendo traduzido por Paulo Stekel. Para uma maior compreensão, sugerimos a leitura dos trechos anteriores desta mesma obra já postados aqui: https://stekelblogue.blogspot.com/search/label/David%20Loy)


Nós nunca chegamos a pensamentos. Eles vêm até nós. (Heidegger)

No Ocidente e no Oriente, uma distinção entre tipos de pensamento é praticamente tão antiga quanto a própria filosofia. Mas o que provavelmente é o exemplo mais influente é relativamente moderno: a discriminação de Kant entre Vernunft e Verstand. “Conceitos de razão (Vernunft) nos servem para conceber (begreifen), como conceitos do intelecto (Verstand) nos servem para apreender percepções.” Não há paralelo aqui com prajña e vijñana, mas a distinção entre Vernunft e Verstand não era original de Kant. Ela remonta pelo menos até Jakob Boehme, cuja interpretação era indubitavelmente não-dual. De acordo com Boehme, Vernunft "não compreende nada do reino de Deus, a não ser a casca" e "sempre anda em círculos do lado de fora das coisas"; “permanece sempre em dúvida” e “daí resulta todo conflito”. Essa vontade de Vernunft “governa o mundo exterior sem o espírito e a vontade de Deus, de acordo com sua própria vontade”. Portanto, “deve ser quebrada: deve ser um movimento vivo da vontade que rompe Vernunft e se esforça contra Vernunft.” Howard Brinton comenta sobre isso: “Toda a razão [Vernunft] nos escritos de Boehme parece ser condenada por verdade parcial, e não por mentira... Vernunft, completamente isolada de Verstand, se torna perversa.” Tudo isso poderia ser usado para descrever vijñana, assim como a transcendência da dualidade de Verstand parece idêntica à de prajña:

Em Vernunft, sujeito e objeto são separados. Por conseguinte, Vernunft é um conhecimento duvidoso. Em Verstand, a distinção subjetiva-objetiva foi transcendida; portanto, Boehme sustentou que Verstand é um conhecimento seguro, pois conhecedor e conhecido são um.

Volição é uma identificação de sujeito e objeto em uma ação em que todo senso de alteridade se perde, porque cada um penetra e determina o outro.

Vernunft luta em vão da multiplicidade para a unidade. Verstand, começando na unidade, vê a realidade como um todo preenchido com formas inter-relacionadas. Assim, Vernunft é um pensamento conceitual e Verstand é uma experiência mística. Verstand internaliza o externo. Ele afunda nas profundezas mais baixas do abismo sombrio da alma e eleva-se com a vida de Deus a uma compreensão mais profunda dos mesmos objetos tratados por Vernunft. Ele pode ver o significado das coisas porque saiu da fonte de todos os significados. (Brinton)

Esta descrição de Vernunft e Verstand concorda tão completamente com o relato de D. T. Suzuki sobre a distinção entre vijñana e prajña que se poderia substituir as palavras sânscritas pelas alemãs. Eu me pergunto se Suzuki estava familiarizado com o trabalho de Boehme ou com o estudo de Brinton (publicado em 1930).

A distinção entre Vernunft e Verstand originalmente deriva da distinção neoplatônica entre a ratio (razão) aristotélica e uma faculdade de intuição ou inteligência superior à razão denominada intellectus. O equivalente grego a esses termos latinos é encontrado na distinção que Plotinus faz entre logismos, mero entendimento, e nous, a faculdade superior do intelecto. Para Plotino, o entendimento vê as Formas separadamente uma da outra, mas o Intelecto as vê todas juntas. Segundo Nicolas de Cusa, é por meio do intellectus que nos elevamos acima do princípio da não-contradição e vemos a unidade e a coincidência dos opostos na realidade. Eckhart também distingue entre eles, interpretando o intelecto de maneira mais geral como uma faculdade para o transcendental que para ele, como Boehme, era não-dual: “o processo eterno é uma auto-revelação de Deus no conhecimento puro, onde o conhecedor é o que é conhecido.” Mas um paralelo igualmente impressionante pode ser encontrado muito mais perto de casa.

Se a filosofia no século XIX se tornou historicamente consciente, a filosofia no século XX se tornou autoconsciente. A atenção mudou da construção de sistemas metafísicos para o ato de filosofar, ou seja, o próprio pensamento. Isso tomou diferentes direções na filosofia anglo-americana e na da Europa continental. O primeiro compreende a natureza do pensamento de maneira mais objetiva, identificando-a com a linguagem, e tornou-se sensível às maneiras pelas quais os problemas filosóficos surgem devido ao uso indevido de palavras; muitos problemas são "dissolvidos", descobrindo as confusões linguísticas em sua raiz. No continente, alguma fenomenologia continuou a busca tradicional de uma filosofia científica “sem pressupostos”, mas os escritos influentes de Heidegger, Jaspers e, mais recentemente, Gadamer e Derrida, mudaram a atenção para o ato “subjetivo” de pensar em si. Seu trabalho em constante evolução pode ser melhor entendido como "filosofias do processo" de filosofar, e não como a construção de sistemas que oferecem algo objetivamente fixo; suas ideias mais importantes dizem respeito à natureza da reflexão filosófica enquanto tal. Portanto, é significativo que o trabalho de Martin Heidegger (o mais influente dos quatro), e particularmente seus enigmáticos escritos posteriores, forneça alguns paralelos profundos à descrição do pensamento não dual apresentado aqui. Heidegger tem pouco a dizer sobre o problema da percepção e quase nada sobre o corpo; ao contrário, ele meditou principalmente na natureza do pensamento. Um desenvolvimento abrangente desse assunto seria um livro em si, mas algumas páginas serão suficientes para apontar que a preocupação geral de Heidegger era superar a dualidade sujeito-objeto e que suas conclusões têm alguma semelhança com as das tradições não-dualistas.

Não é possível discutir o "sistema" de Heidegger, porque, como Nagarjuna, ele não tem nenhum. Para Heidegger, o pensamento não é um meio de obter conhecimento, mas o caminho e o destino. Muitos de seus títulos são de peregrinação: "Unterwegs zur Sprache" (No caminho para a linguagem), "Der Feldweg" (O caminho de Campo), "Wegmarken" (Marcadores de caminho), "Holzweg" (Caminhos da floresta) e assim por diante. Ele termina seus trabalhos, não com resumos e conclusões, mas com mais perguntas. Na medida em que Heidegger tem um objetivo, é simplesmente continuar questionando e pensando mais profundamente. “Eu deixei um ponto de vista anterior, não para trocá-lo por outro, mas porque até o ponto de vista anterior era apenas um ponto de passagem ao longo do caminho. O elemento duradouro do pensamento é o caminho.” Isso não é, como seria de esperar, porque sempre podemos progredir mais, mas exatamente o oposto: porque não existe progresso no pensamento.

Quando a filosofia atende à sua essência, ela não avança de maneira alguma. Permanece onde é constantemente pensar o mesmo. A progressão, ou seja, a progressão adiante desse lugar é um erro que segue o pensamento como a sombra que o próprio pensamento lança.

É difícil conceber um desafio mais radical à nossa ambiciosa filosofia ocidental, mas essa negação do progresso também está implícita na "tranquilidade vazia" do pensamento não-dual.

Sócrates é elogiado por Heidegger como "o pensador mais puro do Ocidente".

Por toda a vida e até a morte, Sócrates não fez nada além de se colocar nesse esboço de pensamento, nessa corrente e se manter nela... Por isso ele não escreveu nada. Para quem começa a escrever por consideração deve inevitavelmente ser como aquelas pessoas que correm em busca de refúgio de qualquer rascunho forte demais para elas.

É também por isso que Sócrates, de acordo com a Apologia de Platão, insistia que nada sabia, pois quem é sugado pelo rascunho do pensamento não-dual deve deixar de lado o que “sabe” - isto é, não deve apegar-se a qualquer conclusão como final. Hannah Arendt, uma estudante de Heidegger, descreveu o método de Sócrates como "descongelar pensamentos congelados". "A palavra ‘casa’ é algo como um pensamento congelado que o pensamento deve descongelar sempre que quiser descobrir o significado original.” Esse pensamento pode ser “congelado”- reificado em conceitos e ideias que se tornam coisas retidas e usadas. Se objetos visuais são percepções reificadas, talvez conceitos e ideias sejam pensamentos reificados. O pensamento instável e fluido, que por si só se rompe instantaneamente (shikshasamuccaya), só pode ser mantido sendo petrificado em uma ideia, e o que o mantém se torna o "pensador". Independente do próprio Sócrates ter sido ou não atraído para o “rascunho do pensamento”, certamente esse é o método e o objetivo de Heidegger, e isso requer que não se “congele” quaisquer pensamentos que surjam, mas os use como um ponto de partida para mais perguntas.

Em Was Heisst Denken? [O que significa pensar?] - o livro que, como o próprio nome sugere, lida mais especificamente com o que significa pensar - Heidegger acha mais “instigante” o fato de ainda não estarmos pensando. O estilo de Heidegger neste livro é irritante para quem procura uma resposta. Ele claramente se deleita com o puro movimento do próprio pensamento, explorando vagarosamente todos os caminhos que seu pensamento encontra e obviamente não sentindo necessidade de chegar a uma conclusão. A questão do título é projetada não para obter uma resposta, mas para efetuar uma transformação, um aprofundamento do pensamento.

A pergunta "O que é chamado de pensamento", portanto, não visa estabelecer uma resposta pela qual a pergunta possa ser descartada o mais rápida e conclusivamente possível. Pelo contrário, uma coisa e outra coisa só interessam a esta questão: tornar a questão problemática...
A questão não pode ser resolvida, agora ou sempre...
Responder à pergunta “O que é chamado de pensamento?” é sempre continuar perguntando, para permanecer a caminho.

A intenção de Heidegger em Ser e Tempo, seu primeiro trabalho importante, foi despertar a questão do significado do Ser, que a filosofia ocidental negligenciou em sua preocupação com os seres. Heidegger começou analisando o Ser de um ser particular, daquele ser cuja natureza é levantar a questão do significado de Ser - homem (Dasein). Tendo compreendido o Ser dessa maneira, ele pretendia dar meia-volta e refazer toda a análise da perspectiva do Ser. Em vez disso, o pensamento de Heidegger passou por uma mudança crucial na década de 1930. A natureza e o significado dessa “virada” ou “reversão” (Kehre) é controversa, mas, de qualquer forma, marcou uma mudança radical, não apenas em muitas das visões filosóficas de Heidegger, mas principalmente em sua atitude em relação ao processo de pensamento. Em Ser e Tempo, Heidegger afirmou que queria "superar" a metafísica, mas a mudança incluiu a percepção de que seu próprio pensamento ainda era metafísico na forma. Ele ainda estava usando pensamentos de forma dualista na tentativa de "re-apresentar" o Ser, ainda tentando "compreender o Ser na rede de seus conceitos". Isso foi substituído por um tipo de pensamento que tem sido “reivindicado pelo Ser” e, portanto, serve ao Ser: “Antes que fale, o homem deve primeiro se deixar reivindicar novamente pelo Ser”.

Pensar... deixa-se reivindicar pelo Ser para poder dizer a verdade do Ser... Pensar realiza essa permissão. Pensar é “l’engagement par l’Etre pour l’Etre... penser, c’est l’engagement de l’Etre”. Aqui a forma possessiva “de l’...” deveria expressar tanto genitivo subjetivo quanto objetivo. [Heidegger explica mais tarde que esse "pensamento de Ser" significa tanto "Ser é o que se pensa" e "Ser é o que está pensando".] Nesse sentido, “sujeito” e “objeto” são termos inapropriados da metafísica, que muito cedo na forma de lógica e gramática ocidental assumiram o controle da interpretação da linguagem. Hoje, só podemos começar a examinar o que está oculto nessa ocorrência.

Parece então que, no sentido mais importante, Heidegger realizou o projeto que propôs para si mesmo no Ser e Tempo - ele “deu a volta” e pensou da perspectiva do Ser , mas para fazer isso, sua concepção dessa tarefa (e dos meios necessários para isso) precisava de uma transformação revolucionária. Apenas pensar que é "um evento de Ser" pode ser tanto um meio quanto um objetivo, pois apenas esse pensamento é suficiente para si e não precisa realizar mais nada. “Esse pensamento não tem resultado. Não tem efeito... pois deixa Ser [subs.] – ser [verbo].” Heidegger distingue tal urspröngliches Denken [Pensamento Original] do mais calculista e re-presentacional vorstellendes Denken [Pensamento Imaginativo]. O último inclui a "interpretação técnica" do pensamento: o pensamento, como Platão e Aristóteles (mas evidentemente não Sócrates) consideraram ser, como techne (técnica), "um processo de reflexão a serviço do fazer e do construir". O pensamento só pode começar quando percebemos que a razão, glorificada por séculos como a mais alta faculdade do homem, é na verdade o oponente mais obstinado do pensamento verdadeiro. O paralelo óbvio com prajña e vijñana é fortalecido pelas semelhanças etimológicas. Ur-sprüng-liches Denken é literalmente "o pensamento primal que surge" (semelhante ao pra- em prajña) e vorstellendes Denken, muitas vezes traduzido como "pensamento re-presentacional", é literalmente pensamento "antes da colocação", que coloca uma coisa na frente de outra. Como prajña e vijñana, os ursprüngliches Denken são descontínuos com os vorstellendes Denken comuns: “O salto por si só nos leva à vizinhança onde o pensamento reside.” E como prajña, esse salto não é a conquista de algo novo ou adventício, mas um "passo atrás":

Como há algo simples a ser pensado nesse pensamento, parece bastante difícil para o pensamento representacional que tenha sido transmitido como filosofia. Mas a dificuldade não é uma questão de se entregar a um tipo especial de profundidade e de construir conceitos complicados; ao contrário, está oculto no retrocesso que permite que o pensamento entre em um questionamento que experimenta - e deixa cair por terra a opinião tradicional da filosofia.

A filosofia enfrenta a mesma dificuldade e é igualmente o obstáculo à simplicidade de prajña. Para experimentar também, o intelecto filosofante deve ser quebrado.

Enquanto a filosofia apenas se ocupar em obstruir continuamente a possibilidade de admissão na questão do pensamento, isto é, na verdade do Ser, ela estará bem além de qualquer perigo de se quebrar contra a dureza dessa questão. Assim, "filosofar" sobre ser destruído é separado por um abismo de um pensamento destruído. Se tal pensamento fosse feliz para um homem, nenhum infortúnio lhe aconteceria. Ele receberia o único presente que pode vir a pensar do Ser.

Como Mehta explica, esse pensamento não é o ato de um agente supostamente independente chamado homem, direcionado a ou contra outra entidade distinta dele. Não vejo como esse pensamento “reivindicado pelo Ser” e “um evento de Ser” pode ser qualquer coisa exceto o pensamento não-dual, conforme descrito neste capítulo. Heidegger chama de "permanência na iluminação do Ser" o que ocorre como resultado de ser reivindicada pelo Ser "a ex-istência do homem". O que é o Ser? “O mais distante e ainda o mais próximo”, porque “primeiro o homem se apega sempre e unicamente aos seres”; assim, ele “esquece a verdade do Ser em favor da multidão premente de seres impensados em sua essência.” Mas qual é a relação entre o Ser e a ex-istência do homem? "Ser em si mesmo é a relação na medida em que Ele, como localização da verdade do Ser e dos seres, se reúne e abraça a ex-istência em sua essência existencial, isto é, essência de êxtase." Mais tarde, no mesmo ensaio, Heidegger expressa o mesmo ponto mais claramente:

O homem nunca é antes de tudo o homem do outro lado do mundo, como um "sujeito", seja ele tomado como "eu" ou "nós". Nem ele é simplesmente um mero sujeito que sempre simultaneamente se relaciona com objetos, de modo que sua essência está na relação sujeito-objeto. Antes de tudo isso, o homem em sua essência é ex-istente na abertura do Ser, na região aberta que ilumina o “entre” dentro da qual uma “relação” de sujeito para objeto pode “ser”.

Heidegger conclui a “Carta sobre Humanismo” da seguinte forma:

O pensamento que está por vir não é mais filosofia, porque pensa mais originalmente que a metafísica - um nome idêntico à filosofia. No entanto, o pensamento que está por vir não pode mais, como exigia Hegel, deixar de lado o nome “amor da [no sentido de “ lutar por…”, “em busca de…”] sabedoria” e se tornar a própria sabedoria na forma de conhecimento absoluto. O pensamento está na descida à pobreza de sua essência provisória. Pensar reúne linguagem em um dito simples. Dessa maneira, a linguagem é a linguagem do Ser, assim como as nuvens são as nuvens do céu.

Para seguir uma estrela, apenas isso. Pensar é concentrar-se em um pensamento, imóvel como uma estrela nos céus acima do mundo. (Heidegger)

O modo de pensar de Heidegger foi comparado com o pensamento não-dual de prajña, mas podemos desenvolver ainda mais o paralelo, pois as “conclusões” de Heidegger têm uma afinidade não apenas com o pensamento não-dual, mas também com não-dualidade sujeito-objeto em geral. A maior parte do trabalho posterior de Heidegger é uma série de tentativas de expressar o "pensamento" da não-dualidade, que identificaremos dentro de quatro dos ensaios mais importantes de Heidegger: "Sobre a Essência da Verdade", “Carta sobre Humanismo”, “Gelassenheite “O Fim da Filosofia e a Tarefa de Pensar”. O contexto no qual este "pensamento" ocorre é diferente em cada ensaio, mas em todos os casos existe o mesmo ponto central, em torno do qual a meditação gira. E, retrospectivamente, podemos ver premonições desse pensamento mesmo na palestra inaugural de Heidegger, em 1929, “O que é metafísica?”

Em um pós-escrito posterior para “Sobre a Essência da Verdade” (dado pela primeira vez em 1930), Heidegger afirma que o Kehre (virada) ocorre e avalia sua importância alegando que “em seus passos decisivos… isso realiza uma mudança no questionamento que pertence à superação da metafísica.” Não só toda a subjetividade metafísica é deixada para trás e “a verdade do Ser buscado como base de uma posição histórica transformada”, mas também “o movimento da palestra é tal que se propõe a pensar a partir deste outro terreno. O curso do questionamento é intrinsecamente o caminho de um pensamento que, em vez de fornecer representações e conceitos, experimenta e tenta a si mesmo como uma transformação de sua relação com o Ser.

A intenção original de Heidegger em Ser e Tempo tinha sido refazer na parte 2 a análise de Dasein da parte 1 a partir da perspectiva do próprio Ser. Como vimos, isso falhou porque a abordagem de Ser e Tempo ainda era metafísica na tentativa de re-apresentar o-que-é. A subjetividade ainda está implícita na concepção da filosofia como uma atividade que o homem usa para apreender o Ser. Para realizar a intenção da parte 2, foi necessário afastar-se dessa concepção subjetiva de pensamento. É preciso "pensar deste outro lado" - isto é, da perspectiva do próprio Ser. O que pode ser chamado de "campo subjetivo" do Ser deve ser identificado e "cedido a" para que o pensamento ocorra de ou a partir desse fundamento. Esse fundamento pré-subjetivo é articulado pela primeira vez em “Sobre a Essência da Verdade” e é a articulação sobre a qual o ensaio se volta.

Nele, Heidegger começa questionando a definição convencional de verdade, mais precisamente, a relação que obtém entre uma afirmação e a coisa referida. Enquanto a natureza dessa relação permanecer indeterminada e for dada como certa, como Heidegger acredita que tenha sido, toda discussão sobre a teoria da correspondência deve perder seu rumo. Então Heidegger olha para essa relação. O que uma declaração afirma é sobre algo que nos é apresentado, ou seja, algo que nos é oposto como objeto.

O que se opõe deve atravessar um campo aberto de oposição (Entgegen) e, no entanto, deve manter sua posição como uma coisa e se mostrar como algo que persiste. Essa aparição do fato de atravessar um campo de oposição ocorre em uma região aberta, cuja abertura não é criada pela primeira vez pela apresentação, mas apenas é incorporada e assumida como domínio da relação.

Aqui, pela primeira vez, aparece "o pensamento" que Heidegger reafirma várias vezes em seus ensaios posteriores, criando novos contextos e vocabulários para expressá-lo, circulando constantemente ao redor dele como uma mariposa ao redor de uma chama. Traduzido para nossos termos não dualistas, Heidegger diz que a “abertura” da região atravessada - o mundo ao nosso redor, em que cada um de nós está mais imediatamente “em” – é “não... criado”, na medida em que é anterior à nossa compreensão dualista de um objeto apresentado a um sujeito. Heidegger desafia a noção de que a consciência é o atributo de um sujeito discreto, observando um mundo externo inconsciente. Essa compreensão dualista usual é apenas uma interpretação historicamente determinada da “região aberta”. Aqui Heidegger vai além da especulação sobre a natureza do Ser e, pela primeira vez, tenta apontar diretamente para o terreno pré-subjetivo que é o Ser.

O restante de "Sobre a Essência da Verdade" segue a partir deste ponto. A correção de uma afirmação depende de uma "abertura de comportamento" nessa região aberta, o que permite a Heidegger localizar a essência da verdade em liberdade - no "ser livre para o que é aberto em uma região aberta". Mas o homem ignora essa abertura e "se apega ao que está prontamente disponível e controlável, mesmo no que diz respeito às questões fundamentais". Nosso erro é que "nos apegamos ao que é oferecido pelos seres, como se estivessem abertos a e em si mesmos.” Esta é “a queda”: agarrando-se a seres particulares como se fossem auto-existentes, perde-se a abertura pré-dualista do Ser que os torna possíveis.

A "Carta sobre Humanismo" desenvolve as implicações dessa percepção, usando-a para reinterpretar as categorias em Ser e Tempo de Dasein, ek-sistence, "a queda", autenticidade, Ser e, especialmente, linguagem e pensamento. O humanismo não é profundo o suficiente para investigar a natureza dessa abertura, mas tende a aceitar a interpretação dada da relação entre o Ser e o homem. O “estar lá” de Dasein agora significa que somos jogados pelo Ser em sua abertura iluminada, e a ex-istência de Dasein é nossa exposição essencial a essa revelação do Ser, na qual fomos convocados. A "queda" de Dasein é falha em reconhecer essa revelação, alheia a ela no apego de Dasein a seres particulares. Autenticidade é cumprir a essência de alguém, respondendo a essa "chamada do Ser" e se tornando "o pastor do Ser", mas o homem moderno caiu e, portanto, é um sem-lar.

A mudança mais radical neste ensaio é uma nova visão da linguagem e do pensamento, que agora são entendidas como originárias dessa abertura pré-subjetiva. Perdemos a essência da linguagem se a tratarmos apenas como um meio de comunicação, como uma ferramenta que o homem possui. A linguagem é a "casa do Ser", na qual o homem habita mais como seu cuidador do que como seu dono. O novo entendimento do pensamento é paralelo a isso: a abertura pré-subjetiva do Ser também é a fonte de todo o pensamento essencial (ürsprungliches), como vimos. Essas ideias sobre linguagem e pensamento são o desenvolvimento lógico do "pensamento" anterior de Heidegger sobre a "região aberta", cuja abertura não é criada na relação dualista, mas existe antes dela. Assim como os homens geralmente sentem falta da abertura do Ser, apegando-se e tentando possuir seres particulares como se “eles fossem abertos por si mesmos”, os pensadores tendem a fazer o mesmo com seus próprios pensamentos, perdendo assim a abertura pré-subjetiva a partir da qual os pensamentos surgem. Essa percepção nega toda a construção de sistemas metafísicos e levou ao Caminho do pensamento não-dual discutido acima. É através desse "pensamento essencial" que o pensador mora na "região aberta" do Ser.

Gelassenheit” começa perguntando se a questão sobre a natureza do homem não é de fato uma pergunta sobre o homem e (como na “Carta sobre o Humanismo”) o ensaio conclui que a natureza do homem é de fato determinada no que está além do homem. O tema é, mais uma vez, pensamento, mas inclui o que normalmente chamaríamos de percepção. O pensamento é geralmente entendido como “re-apresentação transcendental-horizontal”, que, por exemplo, coloca diante de nós (“re-apresenta”) o que é típico de uma árvore - como aquela visão que temos quando uma coisa nos confronta na aparência de uma árvore.” Mas, então, tanto o horizonte quanto a transcendência são experimentados apenas em relação ao que apresentamos como objetos que nos opõem.

O que permite que o horizonte seja o que é ainda não foi encontrado... Dizemos que olhamos para o horizonte. Portanto, o campo de visão é algo aberto, mas sua abertura não se deve ao nosso olhar. Da mesma forma, não colocamos a aparência de objetos, que a visão dentro de um campo de visão nos oferece, nessa abertura... antes, ela resulta disso para nos encontrar.

Aqui está novamente "o pensamento". "Sobre a Essência da Verdade" disse que a abertura da região aberta não é criada pela apresentação de algum objeto para nós; aqui dizemos que a abertura também não se deve ao nosso olhar. Novamente, este é o ponto central em torno do qual a conversa gira. O horizonte agora pode ser entendido como apenas o lado que está diante de nós de uma abertura que nos rodeia. Essa abertura é denominada “uma região encantada”, uma “regionalização” e, finalmente, “essas regiões” (die Gegnet). Esta região é mais do que apenas um “lugar”: enquanto descansa em si mesma, reúne cada coisa em seu “estar abrigada”. O pensamento não disposto se torna significativo como um pensamento pré-subjetivo no qual a vontade foi renunciada a favor de uma "espera" que se libera de toda re-apresentação horizontal-transcendental na abertura deste Gegnet e, ao fazê-lo, permite que die Gegnet "reine puramente como tal". Essa espera não é espera por "liberação" mas é libertação, pois não é o sujeito responsável por essa espera, mas o próprio die Gegnet. Portanto, “a natureza do pensamento está na regionalização da liberação por aquilo que rege”, portanto a natureza do pensamento é realmente determinada por algo que não é ele próprio.

“O Fim da Filosofia e a Tarefa de Pensar” discute as duas perguntas sugeridas pelo título. A filosofia entrou em seu estágio final porque é equivalente à metafísica, e "o pensamento metafísico, a partir do que está presente, representa-a em sua essência e, portanto, a exibe como fundamentada em sua base." Em outras palavras, a metafísica, em sua busca pelo fundamento do que está presente, não deixa que uma árvore em flor se apresente a nós, mas sempre a apresenta, para citar o exemplo que Heidegger usa em O que é chamado de pensamento?

Quando pensamos no que é isso, quando uma árvore em flor se apresenta para nós, assim que possamos ficar cara a cara com ela, o que importa primeiro e acima de tudo e, finalmente, não é deixar cair a árvore em flor, mas pela primeira vez deixá-la ficar onde está. Por que dizemos "finalmente"? Porque até hoje, o pensamento nunca deixou a árvore ficar onde está.

A presença do que está presente não é finalmente e também algo que encaramos, mas surge antes. Antes de tudo o mais, está diante de nós, mas não a vemos porque permanecemos dentro dela. É o que realmente surge diante de nós.

Ainda outro tipo de pensamento além da metafísica é possível. Duas tentativas recentes de retornar às “próprias coisas”, as de Hegel e Husserl, ainda eram herdeiras subjetivas do legado dualista de Descartes. Heidegger reflete sobre o que resta de "pensamento" em seus métodos. Na dialética especulativa de Hegel, a filosofia se apresenta aparecendo de si e para si mesma. Tal aparência deve ocorrer sob alguma luz, pois somente através do brilho o que brilha é mostrado. Mas esse brilho depende de algo aberto e livre que “dê ao movimento do pensamento especulativo a passagem pelo que ele pensa.” Essa lógica oferece a oportunidade, ainda que bastante tensa, de abordar o "pensamento" novamente. Heidegger chama “esse abrir que concede um possível deixar aparecer” de a “abertura” (Lichtung) e então faz - e refaz - seu argumento:

A luz pode fluir para a clareira, para a sua abertura e deixar o brilho brincar com a escuridão. Mas a luz nunca cria abertura. Antes, a luz pressupõe abertura.
Na língua grega, não se fala da ação de ver, do videre, mas daquilo que brilha e irradia. Mas só pode irradiar se a abertura já tiver sido concedida. O feixe de luz não cria primeiro a abertura, o acesso, ele apenas a atravessa.
Já refletimos sobre o fato de que o caminho do pensamento... precisa da abertura. Mas nessa abertura repousa um possível brilho, ou seja, a possível presença da própria presença.

Heidegger usa esse ponto para redefinir aletheia: não mais entendida como verdade, é agora essa abertura que primeiro concede a possibilidade da verdade. Ele conclui definindo “a tarefa de pensar”. A Metafísica pergunta sobre esse Ser (isto é, o fundamento) dos seres, mas “não pergunta sobre o Ser como Ser, isto é,... como pode haver presença como tal. Só existe presença quando a abertura é dominante.” O “pensar nessa abertura” é a tarefa futura do pensamento.

Não é de surpreender que o mesmo ponto seja fundamental para a interpretação de Heidegger da história da filosofia: que os conceitos gregos de physis e hypokeimenon ("o que está antes") incorporavam alguma compreensão ingênua desse "pensamento", perdidos mais tarde quando foram transformados em techne e subiectum autoconsciente, respectivamente. Menos óbvio é o fato de que, retrospectivamente, podemos ver antecipações do "pensamento" de Heidegger - não uma forma rudimentar, mas suas dores de parto - em sua palestra inaugural de 1929, "O que é metafísica?" A nova perspectiva nos trabalhos posteriores de Heidegger não se deveu meramente a uma visão filosófica abstrata, resultado da reflexão objetiva. A mudança é mais profunda do que apenas um novo estilo de pensamento. Heidegger sugeriu mais tarde que seu pensamento havia sido "quebrado" e "O que é Metafísica?" parece ser um registro dessa transição para uma nova maneira de ser.

A palestra trata de uma questão metafísica específica: a natureza da transcendência, considerada idêntica ao problema do Nada. A ciência está preocupada em investigar os vários tipos de seres e, considerando a objetividade desses seres, "quer saber nada do nada". Mas o Nada é revelado no modo fundamental da ansiedade, na qual nossa preocupação com objetos agarrados desaparece. Este Nada, embora seja "a completa negação da totalidade dos seres", não é uma aniquilação, mas um "deslizar do todo", que inclui a si mesmo - isto é, a pessoa é subjetividade própria. Nesse retrocesso, as coisas não desaparecem, mas se voltam para nós e se aproximam de nós, porque não podemos segurá-las. Nós "pairamos" em uma ansiedade que ainda é "uma espécie de calma confusa" que nos traz "pela primeira vez diante dos seres como tais." Dasein significa "estar preso no nada" e esse ser "já além dos seres como um todo" é o que Heidegger chama de nossa transcendência. “Sem a revelação original do nada, nenhuma individualidade e nenhuma liberdade.”

O que Heidegger aqui apresenta filosoficamente parece ser uma descrição do difícil processo de perder sua subjetividade (no sentido cartesiano) e se entregar ou se render à pré-subjetiva "abertura" do Ser, que neste momento é experimentada incompletamente como uma nada entorpecedor. Embora ele negue qualquer dualismo entre o Nada e os seres ("o Nada não serve apenas como a contrapartida dos seres; antes ele pertence originalmente ao seu desenrolar essencial como tal"), ainda assim, esse dualismo está implícito nesta palestra, porque não há ainda uma compreensão clara do Ser como simplesmente a abertura para a "presença" não representada desses seres. Portanto, essa experiência é, como podemos ver em retrospecto, transitória. Assim são as categorias usadas para expressar essa experiência: por exemplo, os termos "metafísica" e "transcendência", os quais são posteriormente rejeitados. Aqui o homem é necessariamente metafísico por causa da transcendência dos seres no nada. Nos termos de Heidegger, mais tarde, essa transcendência é metafísica em um sentido pejorativo, porque ainda existe a tentativa representacional de "aterrar" os seres - nesse caso, no seu Nada. A árvore re-apresentada em flor recua e se aproxima de Heidegger, porque ele não pode segurá-la, mas ele ainda não percebeu como a tendência subjetiva de compreender e re-apresentar é tudo o que o separa do Ser que ele procura. Mais tarde, Heidegger percebe que não há necessidade metafísica de transcender a presença de uma árvore em flor e, então, esse nada ansioso se torna a abertura permanente dentro da qual toda presença se irradia.

Talvez devêssemos levar a sério a história de William Barrett: “Um amigo alemão de Heidegger me disse que um dia, quando ele visitou Heidegger, o encontrou lendo um dos livros de D. T. Suzuki; ‘Se eu entendi esse homem corretamente’, observou Heidegger, ‘é isso que tenho tentado dizer em todos os meus escritos.’” Mas se há uma semelhança entre os caminhos de Heidegger e as filosofias asiáticas não dualistas, onde elas diferem? Pois diferem, claramente diferem. Heidegger, se não um filósofo, ainda é um "pensador", o que o estudante zen não é. Penso que ambos afirmam um paradoxo que poderia ser chamado de "o pensamento de não pensar". Mas eles enfatizam aspectos diferentes dele. As tradições meditativas enfatizam o não-pensamento, Heidegger o pensamento. Na meditação, preocupa-se em habitar na fonte silenciosa e vazia da qual nascem os pensamentos; à medida que os pensamentos surgem,se os ignora e se os deixa ir. Heidegger está interessado nos pensamentos que surgem dessa fonte - embora não pare com nenhum pensamento em particular, congelando-os em um sistema, mas permanecendo no "esboço do pensamento". A questão que resta é se o próprio Heidegger entrou no calado o suficiente para alcançar aquela tranquilidade onde nunca sopra vento. Ele deu um passo para trás o suficiente para que seu pensamento fosse completamente destruído? Alguma vez caiu na pobreza de verdadeiramente simplesmente o dizer?

Um monge perguntou sinceramente a Joshu, “Acabei de entrar neste mosteiro. Eu imploro, mestre, por favor, instrua-me.” Joshu perguntou: “Você já comeu seu mingau de arroz? “Sim, .” “Então, lave suas tigelas.” O monge teve uma percepção de algo.

Quão satisfatória pode ser uma teoria que pretende mostrar por que todas as teorias devem ser insatisfatórias? Como Wittgenstein no Tractatus, subimos uma escada que agora deve ser expulsa de baixo de nós? Ou, para usar o koan zen mais apropriado, como continuamos quando alcançamos o topo de um poste de trinta metros? Não que corramos o risco de nos tornar mentirosos de Creta. O problema aqui não é semântico, mas soteriológico. Se a visão do pensamento não-dual desenvolvida aqui for verdadeira, tudo o que foi escrito aqui será sub-utilizado como uma vijñana ou pensamento-ligado-em-série e condenado como o principal obstáculo para a realização de prajña. Isso significa que qualquer teoria da não-dualidade, para manter o aspecto prescritivo das filosofias não-dualistas, deve ser paradoxal e auto-negativa. Como no Prajnaparamita, o que uma mão oferece, a outra retoma. Não podemos evitar a distinção Madhyamika entre dois níveis de verdade, e toda a filosofia está no mais baixo. A única maneira de experimentar o mais alto é jogar fora o bebê com a água do banho.

Nos termos de Suzuki, todo este texto é vijñana, em vão, tentando compreender prajña, a fonte subjacente a ele. Como Heidegger em Ser e Tempo, tentamos dualisticamente "entender" o que é pensamento não-dual. O que é único no pensar sobre a natureza do pensamento é que o que deve ser apreendido e o que deve ser compreendido são a mesma coisa - ainda outro tipo de "não-dualidade". Isso torna o pensamento a coisa mais fácil de compreender e a mais difícil. No sentido usual, isso se torna impossível, assim como a mão não pode se agarrar e o olho não pode se ver.

Hsüan-tse disse ao Mestre Fa-yen que quando ele estava com seu primeiro professor, aprendeu que procurar o estado de Buda seria como se Ping-ting T'ung-tsu pedisse fogo. Ele explicou que Ping-ting T'ung-tzu era o deus do fogo; este deus pedir fogo seria como ser um Buda e procurar Buda. Fa-yen observou que seu entendimento estava completamente fora dos trilhos. Hsüan-tse ficou extremamente ofendido e deixou o templo. Mas quando voltou ao mestre e pediu outra declaração, para surpresa de Hsüan-tse, o Mestre disse: “Ping-ting T’ung-tzu pede fogo.” Isso imediatamente despertou Hsüan-tse.

O monge estava "correto" na primeira vez, mas esse "fato" tinha que ser experimentado plenamente, não apenas entendido como algo conceitualmente verdadeiro. Perder essa verdade por uma polegada é estar fora de mil milhas, assim como todo filósofo sobre ser destruído contra a dureza desse assunto é separado por um abismo de pensar que foi destruído. A pergunta sobre a natureza do pensamento não-dual deve finalmente ser respondida em um nível diferente do de outras questões. Como Heidegger disse em resposta a uma pergunta relacionada, "se a resposta pudesse ser dada, consistiria em uma transformação do pensamento, não em uma declaração proposicional sobre um assunto em jogo".

Não dualismo de Loy: Resumo da Teoria Central

Vários sistemas filosóficos asiáticos importantes, que têm muitas semelhanças e muitas diferenças, fazem a mesma afirmação de que a verdadeira natureza da realidade é não-dual. Então eles estão se referindo à mesma experiência? cinco significados diferentes de não dualidade e nos detemos em três deles: o pensamento que não emprega conceitos dualistas, a não pluralidade de fenômenos “no mundo” e a não-diferença de sujeito e objeto. Todas as três alegações são encontradas no Budismo Mahayana, no Advaita Vedanta e no Taoísmo, que denominamos como “sistemas não dualistas”. Essas três reivindicações de não dualidade estão intimamente relacionadas. A crítica do pensamento que emprega categorias dualistas (ser vs. não-ser, puro vs. impuro etc.) geralmente se expande para abranger todo o pensamento conceitual, pois esse pensamento atua como uma superposição que distorce nossa experiência imediata. É por isso que experimentamos o mundo dualisticamente no segundo sentido, como uma coleção de objetos discretos (inclusive eu) interagindo causalmente no espaço e no tempo. Negar o pensamento dualista leva a experimentar o mundo como uma unidade, chamada Brahman, Dharmakaya, Tao, a Mente Única, e assim por diante. Mas qual é a relação entre esse todo e o sujeito que o experimenta? O Todo não é verdadeiramente todo se o sujeito estiver separado dele. Isso leva ao terceiro senso de não dualidade, a negação de que sujeito e objeto são verdadeiramente distinguíveis. Os sistemas não dualistas concordam que nosso senso comum de dualidade - o senso de separação (daí a alienação) entre mim e o mundo “em” que “eu” estou - é a ilusão de raiz que precisa ser superada.

De acordo com o budismo e o Advaita, a distinção entre savikalpa (com construção do pensamento) e nirvikalpa (sem construção do pensamento) é equivalente à distinção entre os modos de percepção dualista e não dualista. Quando a percepção é diferenciada de todas as suas superposições de pensamento, não há consciência de qualquer dualidade entre o que é percebido e o que percebe. Nosso entendimento habitual hipostatiza tais percepções em objetos materiais, mas eles mesmas são vazios (shunya) porque não têm natureza própria (svabhava). Eles são apenas a manifestação fenomenal, de acordo com Advaita, de uma Mente sem qualidades (nirguna); de acordo com o budismo, do nada. A apresentação mais satisfatória dessa visão é encontrada no Mahāyana: negativamente, na refutação da Mādhyamika de quaisquer possíveis superposições conceituais, pois a crítica dos prapañca naufragados representa qualquer possibilidade da filosofia de fornecer um “espelho” da natureza ”; positivamente, no sujeito explícito - a não-dualidade da Yogachara. Essa visão também está implícita na negação budista inicial de um eu (anatman) e na afirmação advaita de tudo-Eu (atman). Mas ambas as visões sofrem de uma descrição inadequada da natureza dos fenômenos: o budismo primitivo tende a aceitar acriticamente a objetividade dos dharmas, enquanto o Advaita adota uma atitude ambivalente em relação a maya. A visão ocidental contemporânea de que a percepção é sempre "construída pelo pensamento" não constitui necessariamente um argumento contra essa percepção não-dual, mas apoia indiretamente sua possibilidade, uma vez que a afirmação nirvikalpa não é sobre a nossa percepção usual, mas sobre um caso especial que muitas vezes não é experimentado, em que a percepção foi “des-automatizada”. A possibilidade de tal des-automatização torna-se, assim, uma questão que só pode ser resolvida empiricamente - exatamente o que as tradições não dualistas afirmam acontecer na experiência da iluminação.

Paralelos a isso, surpreendentes demais para serem coincidentes, foram encontrados no paradoxo taoísta de wei-wu-wei, que é interpretado como significando não apenas passividade ou não-interferência, mas ação que pode ser percebida como não-dual quando se distingue da sobreposição de intenções. Assim como a superposição linguística bifurca ilusoriamente quem percebe do que é percebido, a sobreposição intencional bifurca o agente do ato - fendendo o que poderia ser chamado de “corpo psíquico” e dando origem à distinção mente-corpo, a sensação de ser “um fantasma na máquina”. As ações não duais são experimentadas como nenhuma ação (wu-wei), porque ser uma ação é perder a perspectiva de um agente distinto dela e, assim, eliminar a sensação de que uma ação está ocorrendo. Esse paradoxo é ainda mais significativo, porque achamos exatamente o mesmo com relação à percepção não-dual e ao pensamento não-dual: "um som é um som sem som", "um pensamento é um pensamento sem pensamentos". Mas, seguindo Hume, não se deve assumir uma ligação causal entre intenção e ação, pois qualquer "ligação" entre eles, como ligações causais em geral, é essencialmente misteriosa. A causalidade, como geralmente experimentada, faz parte de nossa filtragem interpretativa, que deve ser distinguida da “coisa em si mesma”. Por um lado, a falta de qualquer ligação causal entre intenção e ação equivale a uma refutação da volição e implica determinismo. Se poderia argumentar, inversamente, que a eliminação de todas as construções de pensamento savikalpa (que incluem todas as inferências causais) refuta o determinismo. Mas o problema da liberdade versus determinismo é dualista ao pressupor um eu cujas ações são livres ou determinadas, e a negação não dualista de um eu ontológico resolve essa bifurcação: se eu sou o universo, o determinismo completo se torna equivalente à liberdade absoluta. Esta questão da causalidade é talvez a mais crucial de todas.

Encontramos o pensamento não-dual equivalente no conceito Mahayana de prajña, aquele conhecimento em que não há distinção entre o conhecedor, o ato de conhecer e o que é conhecido. Às vezes, esse conhecimento é entendido de maneira bastante ampla para descrever toda a experiência não-dual, mas com referência ao pensamento, significa que não há pensador (consciência) aparte do pensamento. Tanto para a percepção quanto para a ação, a diferença entre a experiência dualista e a não dualista foi vista como devida à sobreposição de construções de pensamento. Novamente, dificilmente pode ser uma coincidência encontrarmos um paralelo semelhante à ideia: que os pensamentos são sobrepostos uns aos outros, com efeito. Uma passagem importante de John Levy argumenta que o senso de dualidade sujeito-objeto se deve à justaposição mental de diferentes experiências - isto é, a sobreposição de traços de memória em uma nova experiência. Então, eliminar ou distinguir o traço da memória (no caso do pensamento, o pensamento anterior) daquele que ele condiciona (o novo pensamento) eliminará o senso de dualidade sujeito-objeto. Isso explica a importância que o Mahāyana coloca em não deixar que os pensamentos se unam em uma série (criando uma cadeia sobrepondo uma à outra), mas permitindo que um "pensamento sem suporte" surja espontaneamente. Do ponto de vista mais alto (paramartha), assim como as intenções não "causam" ações, os pensamentos anteriores não "causam" as ações subsequentes; “tudo é sua própria causa e seu próprio efeito” (Blake). Nesse sentido, a diferença entre nossos modos mais comuns de pensar e os casos especiais de criatividade e inspiração é a diferença entre o pensamento dualista - no qual apega-se a pensamentos familiares e confortáveis - e um pensamento mais aberto e receptivo em que pensamentos surgem (pra-) não-dualmente. Como os últimos pensamentos não podem ser explicados causalmente - como os efeitos de causas anteriores -, há algo essencialmente inexplicável e misterioso no processo criativo. Isso nos deu uma perspectiva frutífera para interpretar o trabalho posterior de Heidegger.

A importância desses estudos individuais aumenta à medida que observamos os paralelos entre nossas conclusões. Provavelmente, o paralelo mais importante diz respeito ao vazio (shunyata) da experiência. Cada modo de experiência está vazio em pelo menos três sentidos relacionados. Primeiro, é claro, cada um deles é vazio da dualidade sujeito-objeto, pois, quando diferenciado das superposições de pensamento, não há percepção de uma consciência discreta separada da experiência. Inflar o sujeito ou o objeto eliminando o outro não pode ser satisfatório. Ambos devem ser negados, uma vez que, em relação ao outro, cada um não tem sentido sem o outro. O segundo é o paradoxo de que "se esquecer" e, por fim, "se tornar" algo é ganhar uma consciência do (que) transcende qualquer experiência em particular, (do) que pode ser chamado de vazio porque não pode ser agarrado objetivamente. Isso implica o terceiro sentido. Nenhum desses três modos possui realidade própria ou natureza própria, pois cada um é apenas uma manifestação fenomenal do que se argumenta ser uma Mente abrangente e sem atributos, que pode ser fenomenologicamente vivenciada apenas como um nada que é criativo porque é a fonte de todos os fenômenos.

Esse entendimento nos permite explicar a diferença entre a experiência dualista e a não dualista sem a necessidade de acrescentar algo estranho. Se a percepção, a ação e o pensamento são, em si mesmos, não-duais, então podemos entender nosso senso comum de dualidade devido à sua sobreposição e interação. O problema geral parece ser que os três modos de experiência interferem um com o outro e, assim, distorcem ou obscurecem a natureza não-dual um do outro. Os objetos materiais do mundo externo são percepções não duais objetificadas pela sobreposição do pensamento e por nossas tentativas de "compreendê-los". A ação dualista é devida à sobreposição de intenção sobre ação não dual, e essa rede de intenções pressupõe e reforça a objetividade de seu campo de jogo. Tanto conceitos quanto intenções ocorrem quando o pensamento não-dual está relacionado a percepções e ações, e não as experimentando como são em si mesmas (ver figura 1., abaixo).


Figura 1. Action to Obtain Craved Object [Ação para Obter o Objeto Desejado]; Conceptualized Percept (Object) [Percepção Conceitualizada (Objeto)]; Conceptualized Action (Intention) - [Ação Conceitualizada (Intenção)]; Nondual Perception (Percepção Não Dual); Nondual Thought (Pensamento Não Dual); Nondual Action (Ação Não Dual); Sense of Self (Senso de Si, Senso Próprio ou senso de Eu).

Essa interpretação não dualista implica uma crítica de vários mal-entendidos estereotipados sobre a natureza da espiritualidade. O mais importante é que a iluminação não envolve transcender o mundo e alcançar algum outro reino sem sentido, pois, por esse motivo, o transcendental nada mais é do que a natureza "vazia" deste mundo. Como o Mahāyana enfatiza, samsara é nirvana: “Nada de samsara é diferente de nirvana, nada de nirvana é diferente de samsara. Aquilo que é o limite do nirvana é também o limite de samsara; não há a menor diferença entre os dois”(MMK, XXV, 19-20).

Outro mal-entendido vê o caminho espiritual como silencioso e exigindo uma retirada da atividade (por exemplo, trabalho físico, sexo, envolvimento político). Pode haver períodos em que esse retiro seja valioso, mas a possibilidade de wei-wu-wei significa que eremitismo, ascetismo, etc. não devem ser entendidos como inerentemente superiores. (Gandhi pode ser um modelo nesse sentido.)

Finalmente, a ênfase nas técnicas meditativas nas tradições não dualistas às vezes resultou em um anti-intelectualismo que descarta os processos superiores de pensamento como obstrutivos, mas, na verdade, o intelecto não dual é a nossa faculdade mais criativa. Cada um desses mal-entendidos pode agora ser visto como uma reação exagerada contra seu respectivo modo dualista de experiência. Este trabalho implica que uma solução melhor não é tentar negar cada modo dualista, mas transformá-lo no modo não dualista.

Se por trás de cada filosofia há a mesma experiência não-dual, como sugeri, por que os vários sistemas terminam com ontologias tão diferentes? Assim que nos voltamos para a questão do que é Real, nossa doutrina básica e organizada se dissolve em um foco de controvérsia. Por exemplo, o Advaita Vedanta é monista, o nkhya-Yoga é dualista, o budismo primitivo parece ser pluralista, e a Mādhyamika nega que as coisas existam e que não existam.

Essas diferenças, de fato, não negam a teoria central, pois essas diferenças ontológicas surgem não de experiências diferentes, mas de enfatizar aspectos diferentes da mesma experiência não-dual. A experiência em si não envolve reivindicações, ontológicas ou não, pois transcende a filosofia; todavia, quando se tenta satisfazer a inevitável demanda filosófica de uma ontologia, pode-se fazer inferências diferentes e inconsistentes ao se debruçar sobre diferentes aspectos dessa experiência, de acordo com as disposições culturais ou pessoais.

Em cada caso um extremo é fenomenologicamente equivalente ao outro se o dualismo entre eles é realmente negado. A implicação disso é que a experiência não dual "por trás" desses sistemas contraditórios é a mesma e que as diferenças entre eles podem ser vistas como devidas principalmente à natureza da linguagem: categorias linguísticas sendo inerentemente dualistas, a tendência natural é que descrições de não dualidade eliminem um ou outro do par dualista.


Sobre o autor


David Robert Loy é professor da Faculdade de Estudos Internacionais da Universidade de Bunkyo, Japão. Ele estuda Zen há mais de vinte e cinco anos e é um professor Zen qualificado. Ele é o autor de "Falta e Transcendência: O Problema da Morte e da Vida em Psicoterapia, Existencialismo e Budismo" [Lack and Transcendence: The Problem of Death and Life in Psychotherapy, Existentialism, and Buddhism] e "Não-dualidade: Um Estudo em Filosofia Comparada" [Nonduality: A Study in Comparative Philosophy], além de vários artigos. (www.davidloy.org)